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domingo, 11 de dezembro de 2011

RONALDO LIDÓRIO


“O evangelho é Jesus Cristo.”

“Todos precisamos de Deus, seja numa floresta sem fim, seja num condomínio fechado.”

TEXTO BASE: Mateus 24:14

VIDA
Revista Ultimato edição 303

Precoce é a pessoa que faz alguma coisa antes do tempo esperado. É o caso do mineiro de Nanuque que se converteu aos 7 anos de idade durante uma escola bíblica de férias ministrada pela própria mãe; que se despertou para o trabalho missionário aos 14 anos ao ouvir uma pregação do próprio pai; que ingressou num seminário teológico logo após completar 18 anos; que se formou em teologia e casou-se um mês depois de comemorar o 23º aniversário; que arrumou as malas e se mudou com a esposa (ele com 26 anos e ela com 24) para uma aldeia bem no interior de um país africano para prestar assessoria à igreja Konkomba em Gana e consultoria antropológica e missiológica a países da África e da América do Sul; que traduziu o Novo Testamento inteiro para uma das línguas dos Konkomba em sete anos e meio. Desde 2001, Ronaldo Almeida Lidório, 40 anos, casado com a enfermeira e obstetra Rossana Vivianne Gassett Lidório, 38, tem se dedicado ao plantio de igrejas, à análise lingüística e tradução da Bíblia e ao desenvolvimento humano e social na Amazônia indígena. O casal tem uma filha (Viviane) de 17 anos e um filho (Ronaldo Junior) de 15, e mora em Manaus.

MISSÕES ENTRE OS KONKOMBA

Os Konkombas formam uma nação tribal que habita o nordeste de Gana, noroeste africano, onde são faladas 8 principais idiomas subdivididos em 23 dialetos. Todas essas etnias são denominadas pelo governo de Gana como "Konkombas" e algumas outras como "Kombas", sendo porém estes nomes alienígenas às próprias tribos.

Desde 1994 o casal de missionários Ronaldo e Rossana Lidório está envolvido no propósito de alcançar um ramo da tribo Konkomba, que se intitula Bimonkpelns (ou "homens que vivem"), na região de Koni ao nordeste de Gana, uma população superior a 70000 habitantes.

Em 2006 foram contabilizadas 23 igrejas e 6000 convertidos em 21 comunidades. Até o momento, foram treinados biblicamente cinco evangelistas e 30 presbíteros. Outros 60 líderes estão em treinamento através de cursos de vida cristã que estão sendo ministrados pelos evangelistas. No total, 87 líderes estão ativos nas diversas igrejas e ministérios, sendo apenas os cinco evangelistas sustentados pela Igreja e com tempo integral para o trabalho.

Em 2011, por iniciativa própria, a Igreja Konkomba organizou um grupo de irmãos para a tradução do Antigo Testamento para a língua Limonkpeln. Além disso, igrejas têm sido plantadas no norte do Togo, totalizando 48 entre Gana e Togo, com uma multiplicação de líderes a frente de cada uma destas igrejas.

TRADUÇÃO DA BÍBLIA


Por Ronaldo Lidório
Revista Ultimato edição 290

Finalizações freqüentemente nos trazem alívio e alegria. Especialmente aquelas que são fruto de uma longa espera.

Nesses dias, estamos particularmente alegres pela conclusão do processo de tradução do Novo Testamento para a língua Limonkpeln, um dos dialetos do povo Konkomba, em Gana, África. A figura que me vem à mente neste momento é a do início, quando Labuer e eu sentávamos embaixo de uma árvore próxima à minha casa e durante 3 ou 4 horas por dia trabalhávamos na ortografia da língua Limonkpeln. Na época, visávamos apenas fazer uma cartilha e alfabetizar o povo em sua própria língua.

Foram 7 anos e meio de trabalho — um trabalho silencioso e sem resultados empolgantes durante o seu processo. No início os Konkomba não entendiam o porquê daquele olhar pensativo, das horas e horas sobre um computador, daquele monte de livros por todo lado. Ficavam a me observar durante o dia, de longe, sussurrando baixinho uns com os outros.

Aos poucos a Igreja nasceu e alguns rascunhos começaram a ser usados. Eles aprenderam a amar a Palavra e, a cada dia, surgiam inúmeras perguntas. Os resumidos capítulos em mãos tornaram-se rapidamente insuficientes para a demanda espiritual. Publicamos, então, Mateus, Atos e Romanos, que foram recebidos com expectativa. O povo memorizava textos inteiros e discutia as aplicações em reuniões sem fim. A Igreja, vendo nosso esforço, se autodesafiou a cooperar. Começou a orar e jejuar para que tivesse a Palavra na sua língua, o Novo Testamento completo. Passei a me sentir constrangido (e às vezes acuado) quando resolvia tirar uma tarde livre para brincar com as crianças. Por meio de uma mensagem silenciosa, a Igreja parecia censurar-me. Afinal a prioridade deveria ser trabalhar na tradução. Apenas o plantio de igrejas, que fazíamos em viagens pela região, sobrepunha ao anseio da tradução. Era necessário progredir.

Em 1997, os líderes da Igreja Konkomba-Limonkpeln resolveram se envolver diretamente no processo. Sabiam que eu possuía um ajudante lingüístico, com tempo parcial. Decidiram “separar” outros três com tempo integral. Cuidariam das roças desses ajudantes para que se dedicassem às correções do texto. Esses quatro amigos abençoados — Labuer, Balabon, Tiagri e Naason — tomaram paixão pelo trabalho e também aprenderam a trabalhar dia e noite. Creio que, nos últimos 7 anos e meio, jamais houve um dia sem que se trabalhasse no texto do Novo Testamento.

Rossana e as crianças sempre foram benevolentes com meu tempo usado na tradução. Até hoje Ronaldo Junior, quando indagado onde estou, prontamente responde: “Papai está no computador fazendo uma Bíblia” — não importa o que de fato eu esteja fazendo. Eu procurava concentrar o trabalho sempre à noite, depois que todos dormiam. Era mais fresco e havia a quietude necessária.

Outro dia juntei todo o material utilizado, desde a tradução primária até a retrotradução, passando pelas cinco correções gerais. São pilhas e pilhas de papéis, centenas de e-mails trocados com consultores, inúmeras cartas em português, inglês, Konkomba, mais de 30 livros de consulta utilizados. O resultado cabe na palma da mão, em apenas um CD.

A força da Igreja Konkomba mostrou-se ainda mais viva na última correção. Eu precisava que a equipe fizesse uma última e minuciosa leitura do texto. A Igreja então separou uma casa e preparou-a com o cenário de quietude necessário para o trabalho, pedindo que, durante um mês, ninguém se aproximasse. Trouxe os quatro ajudantes lingüísticos, que ali permaneceriam durante 3 semanas e meia. Designaram mulheres da Igreja, boas cozinheiras, que proveram o alimento necessário, e do melhor. Assim, praticamente isolaram esse grupo naquela casa até completarem a tarefa, cobrindo-os de oração.

Entre tantos colaboradores, um precisa ser mencionado primeiro. O Rev. Francisco Leonardo Schalkwijk era diretor do Seminário Presbiteriano do Norte quando, logo no início do meu curso naquela instituição, abordou-me com a pergunta: “Você quer ser missionário entre povos sem o evangelho?” Depois de ouvir uma temerosa resposta positiva, passou a aconselhar-me. Um dos conselhos cravou no meu coração: “Estude bem o grego e você economizará anos de trabalho na tradução”. Um outro colaborador silencioso foi Mebá, o primeiro convertido entre os Konkomba-Limonkpeln. A cada texto lido durante as correções, ele sempre interrompia, dizendo, benevolente: “Está muito bom e todos vão entender. Mas, se utilizasse esta ou aquela expressão, ficaria parecendo que foi escrito por um Konkomba...”

Falemos do presente. O sentimento ao entregar o texto é surreal. Pensei que sentiria algo entre alegria e alívio, mas senti, sobretudo, temor. E se pudéssemos melhorar a expressão usada para “longanimidade”? Não teria sido imprudência optar por “sacrifício” o termo que historicamente tem sido usado no animismo fetichista? E “Espírito Santo” que, explicativamente, teve de ser traduzido por “Espírito que é puro e é pessoa, não apenas força”? Certamente ficou longo para nós, mas talvez não para uma cultura onde a maioria dos espíritos não é personificação, e, sim, energia impessoal. A numerologia bíblica em uma língua em que se conta até 500 (depois disso as regras mudam para um discurso binário extenso) torna-se muito complexa. Os “144.000” de Apocalipse 14 tomaram cinco linhas.

O Konkomba-Limonkpeln é uma das três principais línguas do povo Bikpakpaln, conhecido como Konkomba pelos de fora. De fato, este não é um termo usado ou mesmo conhecido pela maioria para se identificar. Eles habitam as savanas no nordeste de Gana e noroeste do Togo. Formam etnias fortes, com grave valorização da cultura e orgulho de sua língua. No país são conhecidos como Tiwoor aanib (povo do mato), por preferir se isolar em regiões mais distantes. No imaginário popular são agressivos e senhores de guerras. Mas, na verdade, são extremamente hospitaleiros e leais. Para eles a maior vergonha é mentir. A maior virtude é honrar os pais já velhos e tê-los na memória quando se forem. Os filhos são criados por todos, e não há órfãos. A Wycllife trabalha há décadas com uma das etnias, os Bichaboln, a qual possui a Bíblia completa em seu idioma. Nós iniciamos o trabalho com uma segunda etnia, os Bimonkpeln. E ouvimos recentemente sobre um esforço metodista em alcançar a terceira etnia, os Bisachuln. Parece-me que Deus tem um plano para esse povo.

PROJETO AMANAJÉ


Atualmente, o missionário Ronaldo Lidório e sua esposa Rossana lideram na Amazônia o Projeto Amanajé, um trabalho de médio e longo prazo com povos indígenas, de alcance missionário e desenvolvimento de programas sociais relevantes. A missão do casal foi, inicialmente, diagnosticar uma área de necessidade evangelística dentro do universo indígena amazônico, organizar uma equipe e prepará-la para o Projeto.

Lidório conta que o primeiro passo foi a realização de alguns mapeamentos na Amazônia, quando ele e Rossana puderam dispor de fotos via satélite, informações do missiólogo Paulo Bottrel da AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras) e outros bancos de dados. Eles percorreram aproximadamente três mil quilômetros em diversos rios e áreas indígenas e identificaram duas áreas com graves necessidades, nas quais se concentraram.

A equipe do Projeto Amanajé é formada por 11 pessoas que realizam um trabalho missionário junto a comunidades, na selva, no Alto Rio Negro, e estão aprendendo uma das línguas tribais.

Atualmente, o Projeto está na terceira fase: o desenvolvimento estratégico do processo evangelístico multi-étnico e dos programas sociais que envolvem saúde e subsistência em áreas carentes.

Igrejas locais e irmãos sustentam voluntariamente cada missionário do Projeto, e os próprios missionários sustentam a sua área de atuação ministerial. Há também um fundo através do qual cada missionário contribui para manter os bens comuns como canoas e motores. A Visão Mundial e o grupo Hebron cooperam com a manutenção de alguns projetos sociais.

ENTREVISTA DA REVISTA ULTIMATO COM LIDÓRIO (ANO 2006)
Revista Ultimato edição 303

Ultimato — A população indígena, que diminuía a cada ano no Brasil, voltou a crescer. Qual é a explicação?

Lidório — Calcula-se que havia 1,5 milhão de indígenas em 1500, os quais somam hoje pouco mais de 350.000, configurando um dos maiores processos etnofágicos nos últimos 500 anos. Porém, a população indígena, que diminuía a cada ano, voltou a crescer de forma animadora nas últimas décadas. A existência de programas de saúde que previnem e tratam as doenças em geral, e também as mais específicas como a malária, possuem uma contribuição acentuada. Programas de subsistência têm auxiliado ao prover mais proteínas e vitaminas em áreas indígenas onde o alimento se resumia quase que puramente ao carboidrato. A presença missionária também é responsável por inúmeros programas de desenvolvimento humano porém sua principal marca social é a valorização da língua materna, provendo grafia e gerando programas de alfabetização que asseguram a identidade lingüística e, conseqüentemente, cultural, em diversas etnias. Há casos, como o dos Dâw do Amazonas, em que os missionários da Associação Lingüística Evangélica Missionária (ALEM) realizaram um verdadeiro resgate lingüístico-cultural. Era uma etnia que pouco falava sua língua, vivia dispersa e excluída em um contexto urbano e quase perdera por completo sua identidade indígena. Ao encontrá-los hoje, vivendo em sua aldeia com alegria e dignidade, é visível o sentimento de cidadania e humanização. Falam sua língua com prazer e a ensinam aos seus filhos. Viver sua própria cultura os define como gente perante um universo onde outros também expressam abertamente seus valores culturais. Identidade cultural faz bem à alma.


Ultimato — Você está fazendo o mapeamento da região amazônica. Qual a finalidade do mapeamento?

Lidório — Estou envolvido na pesquisa de algumas áreas. O objetivo central é identificar ajuntamentos humanos com graves carências sociais e espirituais. As estatísticas convencionais que definem os agrupamentos indígenas não expressam em profundidade a situação social, o índice de preservação lingüística, o relacionamento intercultural com outras etnias da região e com os não-indígenas, entre outros. Esses dados são importantes para o desenvolvimento de programas cujo objetivo seja contribuir de maneira relevante com esta realidade. A ONG ATINI, por exemplo, que luta contra o infanticídio que ocorre em abundância no contexto indígena brasileiro, é resultado de longa observação por parte da JOCUM dessa prática social entre o povo Suruwahá e outros grupos. A pesquisa ajuda-nos a identificar os pontos de tensão e a participar na solução de conflitos. 



Ultimato — Quantos grupos indígenas temos hoje no território nacional? Pode haver outros?
Lidório — Os dados divergem de uma listagem para outra por considerarem, ou não, alguns grupos ainda não reconhecidos oficialmente como indígenas. Creio ser seguro, porém, pensarmos em 258 grupos indígenas com identidade definida no Brasil, além de outros cinqüenta ainda isolados. Grupos isolados são aqueles que não possuem contato com o mundo externo, e normalmente não se sabe se são uma variação cultural de um grupo já reconhecido ou se são novos. Muitos grupos indígenas estão em fase de extinção — extinção não necessariamente populacional, mas cultural e lingüística. Aryon Rodrigues estima que, na época da conquista do Brasil, eram faladas 1.273 línguas, ou seja, perdemos 85% de nossa diversidade lingüística em 500 anos. Das línguas sul-americanas, 27% já não são aprendidas pelas crianças. Esta é uma extinção silenciosa que mata não apenas a língua mas também a identidade e a esperança de muitos povos. 



Ultimato — Você é a favor da tradução da Bíblia para grupos lingüísticos reduzidos, com uma população de cem falantes, por exemplo? Por quê?
Lidório — O critério bíblico segundo o qual uma alma vale mais do que o mundo inteiro mostra que na economia de Deus a carência de um único indivíduo é o suficiente para qualquer esforço. E, se observarmos a tradução bíblica de perto, veremos que ela não é um processo isolado, mas uma atividade associada à grafia de uma língua, sua análise, desenvolvimento de cartilhas, alfabetização e fomentação de registros históricos e culturais pelo próprio povo, que contribuem para sua afirmação humana e social. Quando um povo lê a Bíblia em sua língua materna, este exercício possui um profundo valor tanto espiritual quanto sociocultural. Desta perspectiva, talvez a tradução bíblica seja ainda mais prioritária para os grupos minoritários, mais suscetíveis à perda lingüística e cultural, do que para os grandes grupos. Na África tivemos contato com o casal Stevenson, que traduzia a Bíblia para um grupo de quatorze pessoas cuja língua era uma variação lingüística dos Bikuln. Gastaram ali mais de 25 anos de suas vidas e, ao entregarem um dos livros do Novo Testamento nas mãos de um jovem da tribo, ele afirmou que entendera que o amor de Deus não é proporcional ao tamanho da tribo, pois Deus ama igualmente uma grande etnia e um pequeno grupo de quatorze pessoas. Creio que ele entendeu bem.


Ultimato — O sonho indígena de uma terra sem males pressupõe que os indígenas acreditam na vida após a morte? Eles têm alguma noção da ressurreição do corpo? 

Lidório — Várias culturas indígenas possuem uma cosmologia definida pelo aquém e pelo além, a qual inclui o conceito de vida eterna em uma terra sem males. Esta cosmovisão mais escatológica da vida pode ser identificada não apenas entre os indígenas mas também em diversos outros grupos espalhados pela terra. Os Konkomba de Gana crêem que o pacham é um lugar para onde irão os que morrem já bem velhos e com muitos filhos. Os Chakali falam sobre o báthan como sendo o destino pós-morte de todo homem, sendo que aqueles que não enganaram o próximo terão comida em abundância. O restante viverá da boa vontade do primeiro grupo. A convicção de uma terra sem males entre os indígenas brasileiros é, em alguns casos, tão enfática que pode ser relacionada como uma das possíveis causas da abundância de suicídios. Quando um jovem se vê sem saída, ou envergonhado, ou ainda profundamente melancólico, por vezes opta pelo suicídio, não apenas como uma maneira de fugir do conflito pelo qual passa, mas movido também pela convicção de que o mundo pós-morte será melhor, sem dor. Há poucos registros, porém, sobre crenças ligadas à ressurreição do corpo em culturas indígenas. 



Ultimato — Onde você passa mais tempo: com a família, em Manaus; com os indígenas, em suas tribos; ou em viagem pelos rios da Amazônia?
Lidório — Neste ano nos mudamos para Manaus por ser um ponto central para nossas viagens e atividades no Norte. Como faço várias viagens por ano, dentro e fora do Amazonas, passo muito tempo fora de casa. As viagens fluviais na Amazônia são as mais longas, pois envolvem distâncias consideráveis. Porém aproveitamos bastante o tempo juntos em família. Quando estamos em casa, nossos filhos, Vivi e Ronaldo Junior, têm prioridade de tempo e atenção. Também temos um compromisso de passar de dois a três meses, a cada dois anos, na África para treinamento de liderança. 



Ultimato — Como você se sente fora da chamada civilização, em plena mata, em contato com a beleza exuberante da natureza não poluída?
Lidório — Tanto na África quanto na Amazônia, o sentimento de estar em um lugar remoto com pouca intervenção humana é fascinante. Observar o verde intocado da Amazônia, por exemplo, nos faz pensar muito no poder de Deus, Criador de algo tão belo e cativante. No entanto, depois de viver nesses ambientes mais distantes por algum tempo, perde-se um pouco do romantismo e os desconfortos da privação das facilidades nas quais fomos criados passam a ser mais sentidos. Em Gana, na África, passávamos até seis meses na aldeia viajando apenas duas vezes por ano para uma área urbana. Quando chegávamos à capital, Accra, meu maior prazer era apertar um interruptor e ver a luz acender. O de Rossana era abrir uma torneira e ter água corrente. Quando perguntávamos ao meu filho caçula, ainda pequenino, do que ele sentia falta na aldeia, ele respondia: Do McDonald’s! 



Ultimato — Segundo dados do governo, em 2005 16.700 quilômetros quadrados da floresta amazônica foram transformados em terras agricultáveis, com a derrubada de 1 bilhão de árvores. A Amazônia poderá vir a ser uma região independente do Brasil por sua importância no cenário mundial? 
Lidório — A destruição da floresta é assunto preocupante, porém não ocorre de maneira uniforme na Amazônia. Em algumas áreas indígenas, como no Alto Rio Negro, por exemplo, não é perceptível. Nos arredores de Porto Velho, Rondônia, é evidente. Creio que o problema está localizado especialmente próximo a centros urbanos, onde se escoa mais facilmente a madeira, e em setores de expansão agrícola, onde há grandes queimadas. Não creio que a Amazônia venha a ser independente justamente por sua importância nos cenários mundial e, conseqüentemente, nacional. Penso que o desenvolvimento da política de conservação ambiental só acontecerá quando ela for trabalhada com a população local — que é a única capaz de coibir o desmatamento, seja por não praticá-lo, seja por fiscalizar aqueles que o praticam. Políticas externas dissociadas de uma consciência local não surtirão efeito. 



Ultimato — A relação entre a FUNAI e as missões indígenas está melhor agora? 
Lidório — Minha impressão é que há uma boa relação que caminha para se consolidar. O trabalho da FUNAI é relevante e desafiador, tendo em mente a diversidade étnica indígena no Brasil e sua função de fiscalizá-la. Hoje vivemos um momento em que também cresce o movimento missionário formado pelos próprios indígenas. O CONPLEI (Conselho Nacional de Pastores e Líderes Indígenas) tem demonstrado de forma acentuada essa força. Costumo dizer que a necessidade humana é a mesma, em qualquer cultura e contexto, e é preciso juntar forças para minimizá-la. Apenas a roupagem muda. Ao lembrar-me do indígena excluído e discriminado, sem alimento nem dignidade, nas margens do rio Solimões, percebo nele a mesma dor e constrangimento do rapaz urbano e também excluído, sentado na calçada em uma rua de Recife, invisível na multidão. Jesus, ao falar sobre um homem judeu caído ao longo do caminho e socorrido por um samaritano, nos aponta que as crises humanas são idênticas e ocorrem em qualquer sociedade. Muda apenas a roupagem externa, como língua, cultura, cosmovisão e contexto.


Ultimato — Qual foi o trabalho que você e Rossana desenvolveram em Gana na década de 90? 

Lidório — Fomos para Gana em 1993 e lá permanecemos até 2001, quando viemos trabalhar na Amazônia. Na África atuamos com a etnia Konkomba-Limonkpeln, uma das quatro etnias Konkomba, com plantio de igrejas e tradução bíblica, e desenvolvimento de projetos sociais na área de educação e saúde. Pela graça de Deus há hoje ali 23 igrejas, pastoreadas por cinco pastores Konkomba. Várias delas foram plantadas por iniciativa do próprio povo. A clínica médica, que atende mais de 6 mil pessoas por ano, e as escolas, que educam mais de 400 crianças, são totalmente dirigidas pelos Konkomba. Um dos ministérios naquele lugar que encheu nosso coração foi a tradução do Novo Testamento para a língua Limonkpeln. Fomos despertados para essa necessidade porque no início os crentes vinham de aldeias distantes para participar de estudos bíblicos na aldeia onde morávamos, Koni. Passavam alguns dias conosco e memorizavam versículos que transmitiriam a outros. Uma mulher veio de Kadjokorá, uma aldeia que ficava a quatro dias de caminhada. Ela também memorizou os treze versículos e participou do encontro. Voltando para sua aldeia, depois de dois dias de caminhada, ela esqueceu um dos versos. Não pensou duas vezes. Voltou aonde estávamos e disse que estava ali porque a Palavra de Deus era preciosa demais para se perder ao longo do caminho. Memorizou de novo o verso e recomeçou sua jornada de quatro dias de caminhada para casa. Naquele momento nos comprometemos com a tradução do Novo Testamento para o Limonkpeln, que, pela graça de Deus, foi entregue em outubro de 2004 em uma linda festa com cerca de mil Konkombas louvando a Deus sob a sombra de algumas mangueiras.


APLICAÇÃO
E será pregado (Kerygma) este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho (Martíria) a todas as nações. Então, virá o fim. Mateus14:24

Há dois termos largamente usados no Novo Testamento que retratam o caráter cristão: proclamação e testemunho. O termo grego para ‘proclamação’ é ‘Kerygma’: a forma estratégica e inteligível de comunicar a mensagem do evangelho. É a Igreja se preparando, estudando e analisando as possibilidades de comunicar o evangelho a um grupo, seja uma pessoa, família ou povo. Isto é Kerygma.

‘Martíria’ é o termo grego para ‘testemunho’ e sempre está ligado ao Kerygma. Entretanto ‘Martiria’ não é uma proclamação inteligível e estratégica como encontro de casais, acampamentos evangelisticos, evangelismo explosivo ou células familiares. Martiria é testemunho de vida, a personalidade transformada pelo Senhor. É domínio próprio em casa, ser justo com os empregados, ser brando no falar. É ser a imagem de Jesus.

A Igreja foi chamada para ser primeiramente Martírica – viver com fidelidade tudo aquilo que crê - e só então assumir uma postura Kerygmática.

O versículo de Mateus nos ajuda a responder 3 perguntas importantes a cerca da missão da Igreja:
1.    O que será pregado?
O evangelho deverá ser pregado, e o evangelho nada mais é que Jesus, a boa notícia de Deus.
2.    Como será pregado?
O evangelho será comunicado através da dupla proclamação e testemunho, ou seja, anunciando e vivendo o evangelho aonde nos encontrarmos.
3.    Aonde será pregado?
O evangelho será pregado em todo lugar, e prioritariamente e com persistência aos povos ainda não alcançados.

Extraído da pregação de Ronaldo Lidório no VI CBM (Congresso Brasileiro de Missões) em 2011.

MATERIAL UTILIZADO

·         Site Oficial de Ronaldo e Rossana Lidório < http://www.ronaldo.lidorio.com.br/ >
·         Instituto Antropos < http://www.http://instituto.antropos.com.br >
·         Revista Ultimato < http://www.ultimato.com.br >

domingo, 13 de novembro de 2011

MADRE TERESA DE CALCUTÁ (Biografia VIII)

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 35)

“Não sou nada; sou apenas um instrumento, um pequeno lápis nas mãos do Senhor, com o qual Ele escreve aquilo que deseja. Por mais imperfeitos que sejamos, Ele escreve magnificamente.” 

TEXTO BASE: Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37)

VIDA
Agnes Gonxha Bojaxhiu, a futura madre Teresa, nasceu no dia 26 de agosto de 1910 em Skopje, Macedônia, de una família de origem albanesa. O pai, respeitado homem de negócios, morreu quando ela tinha oitos anos, deixando a mãe de Agnes na condição de ter que abrir uma atividade de bordado e fazenda para poder manter a família. Depois de ter transcorrido a adolescência empenhada fervorosamente nas atividades paroquiais, Agnes deixou a sua casa em setembro de 1928, entrando no convento de Loreto a Rathfarnam, (Dublin), Irlanda, onde foi acolhida como postulante no dia 12 de outubro e recebeu o nome de Teresa, como a sua padroeira, Santa Teresa de Lisieux. 

Agnes foi enviada pela congregação de Loreto para a Índia e chegou em Calcutá no dia 6 de janeiro de 1929. Tendo apenas chegado lá, entrou no noviciado de Loreto, em Darjeerling. Fez a profissão perpétua como irmã de Loreto no dia 24 de maio de 1937, e daquele dia em diante foi chamada Madre Teresa. Quando viveu em Calcutá durante os anos 1930-40, ensinou na escola secundária bengalês, Sta Mary. 

No dia 10 de setembro de 1946, no trem que a conduzia de Calcutá para Darjeeling, Madre Tereza recebeu aquilo que ela chamou “a chamada na chamada”, que teria feito nascer a família dos Missionários da Caridade, Irmãs, Irmãos, Padres e Colaboradores. O conteúdo desta inspiração é revelado no objetivo e na missão que ela teria dado ao seu novo Instituto: “Saciar a infinita sede de Jesus sobre a cruz de amor e pelas almas, trabalhando para a salvação e para a santificação dos mais pobres entre os pobres”. No dia 7 de outubro de 1950, a nova congregação das Missionárias da Caridade foi instituída oficialmente como instituto religioso pela Arquidiocese de Calcutá. 

Ao longo dos anos 50 e no inicio dos anos 60, Madre Teresa estendeu a ação das Missionárias da Caridade para toda a Índia. No dia 1 de fevereiro de 1965, Paulo VI concedeu à Congregação o “Decretum Laudis”, elevando-a a direito pontifício. A primeira casa de missão aberta fora de Calcutá foi a Cocorote na Venezuela em 1965. A congregação se expandiu em toda a Europa (na periferia de Roma, a Torre Fiscale) e na África (em Tabora capital da Tanzânia) em 1968. 

Do final dos anos 60 até 1980, as Missionárias da Caridade cresceram em número de casas de missão abertas em todo o mundo, e também em número dos seus membros. Madre Teresa abriu fundações na Austrália, no Vizinho Oriente, na América do Norte, e o primeiro noviciado fora de Calcutá em Londres. Em 1979 Madre Teresa recebeu o Premio Nobel pela Paz. No mesmo ano já existiam 158 casas de missão. 

As Missionárias da Caridade chegaram aos países comunistas em 1979, abrindo uma fundação em Zagabria, na Croácia, e em 1980 em Berlim. Continuaram a estender a sua missão nos anos 80 e 90 abrindo casas em quase todos os países comunistas, incluindo 15 fundações na ex-União Soviética. Não obstante os repetidos esforços, Madre Teresa não pode abrir nenhuma fundação na China. 
Em outubro de 1985 Madre Teresa falou no quadragésimo aniversário da Assembléia Geral das Nações Unidas. Na vigília de Natal do mesmo ano, abriu em Nova York o “Dom de Amor”, a primeira casa para os doentes de AIDS. 

No final dos anos 80 e durante os anos 90, não obstante os crescentes problemas de saúde, Madre Teresa continuou a viajar pelo mundo para a profissão das noviças, para abrir novas casas de missão e para servir os pobres e aqueles que tinham sido atingidos por diversas calamidades. Foram fundadas novas comunidades na África do Sul, Albânia, Cuba e Iraque, que estava dilacerado por causa da guerra. Em 1997 as irmãs eram cerca de 4000, presentes em 123 países do mundo nas mais ou menos 600 fundações.  

Depois de ter viajado por todo o verão a Roma, New York e Washington, em condições de saúde delicadas, Madre Teresa voltou a Calcutá em 1997. Às 9h30 da noite do dia 05 de setembro de 1997, ela morreu na Casa Geral. O seu corpo foi transferido para a Igreja de São Tomas, adjacente ao Convento de Loreto, exatamente onde tinha chegado 69 anos antes. Centenas de milhões de pessoas de todas as classes sociais e de diferentes religiões da Índia e do exterior lhe renderam homenagem. No dia 13 de setembro recebeu o funeral de Estado e o seu corpo foi conduzido em um longo cortejo através as estradas de Calcutá, sobre uma carreta de canhão que tinha trazido também os corpos de Mohandas Gandhi Jawaharlal Nehru. Chefes de Nações, primeiros Ministros, Rainhas e enviados especiais chegaram para representar os países de todo o mundo. 


Relembre a história de vida da Madre Teresa de Calcutá - Parte 1 


Relembre a história de vida da Madre Teresa de Calcutá - Parte 2 

MISSIONÁRIAS DA CARIDADE 
Em meados de 1950, Madre Teresa foi autorizada pelo Papa Pio XII a iniciar uma ordem religiosa, que deveria, segundo o Vaticano, se chamar Congregação Diocesana de Calcutá. A principal missão da ordem seria de cuidar dos "pobres, necessitados, doentes e excluídos do meio social". A ordem foi finalmente fundada em Calcutá, cidade que acolheu Madre Teresa em sua vida religiosa, com apenas 12 membros. Com o apoio do governo indiano, Madre Teresa reformou um templo hindu e o transformou num abrigo para desabrigados e doentes. Madre Teresa também abriu um centro de tratamento de leprosos em Titagarh. 

Em 1965, o Papa Paulo VI autorizou Madre Teresa a expandir o projeto em outros países. A congregação experimentou, então, rápido crescimento e Madre Teresa pôde abrir várias comunidades em todo o mundo. O primeiro país a receber as Missionárias foi a Venezuela, sendo seguida pela Itália e Tanzânia. A primeira filial na América do Norte foi aberta no Bronx, na cidade de Nova Iorque. 

Hoje a ordem conta com A ordem tem cerca de 4500 membros em 133 países do globo. 

PENSAMENTOS 
  • É fácil amar os que estão longe. Mas nem sempre é fácil amar os que vivem ao nosso lado. 
  • O importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá. 
  • Mais nos aproximamos de Deus e mais percebemos a gravidade dos nossos defeitos. 
  • Sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele, o oceano seria menor. 
  • O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso. 
  • Uma prova de que Deus esteja conosco não é o fato de que não venhamos a cair, mas que nos levantemos depois de cada queda. 
  • Um coração feliz é o resultado inevitável de um coração ardente de amor. 
  • As palavras de amizade e conforto podem ser curtas e sucintas, mas o seu eco é infindável. 
  • Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las. 
  • Não é o que você faz, mas quanto amor você dedica no que faz o que realmente importa. 
  • A falta de amor é a maior de todas as pobrezas. 
  • A todos os que sofrem e estão sós, dai sempre um sorriso de alegria. Não lhes proporciones apenas os vossos cuidados, mas também o vosso coração. 
  • O que eu faço é simples: ponho pão nas mesas e compartilho-o. 
  • É uma grande virtude considerar todos melhores que nós. 
  • A oração torna nossos corações transparentes e só um coração transparente pode escutar a Deus ! 
  • Não ame pela beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiracão, pois um dia você se decepciona. Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação. 
  • Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz. 
  • Ontem foi embora. Amanhã ainda não veio. Temos somente hoje, comecemos! Qualquer ato de amor, por menor que seja, é um trabalho pela paz 
  • Se aceitarmos que uma mãe mate seu filho dentro do próprio ventre, como poderemos impedir que as pessoas matem umas as outras? 

ASSIM MESMO 
Muitas vezes as pessoas são egocêntricas, ilógicas e insensatas.
Perdoe-as assim mesmo.

Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de egoísta, interesseiro.
Seja gentil, assim mesmo.

Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros.
Vença assim mesmo.

Se você é honesto e franco, as pessoas podem enganá-lo.
Seja honesto assim mesmo.

O que você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para outra.
Construa assim mesmo.

Se você tem Paz e é Feliz, as pessoas podem sentir inveja.
Seja Feliz assim mesmo.

Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o bastante.
Dê o melhor de você assim mesmo.

Veja que, no final das contas, é entre você e DEUS.
Nunca foi entre você e as outras pessoas.

ORAÇÃO
Mantenha seus olhos puros para que Jesus possa olhar através deles.
Mantenha sua língua pura para que Jesus possa falar por sua boca.

Mantenha suas mãos puras para que Jesus possa trabalhar com suas mãos.
Mantenha sua mente pura para que Jesus possa pensar seus pensamentos em sua mente.

Mantenha seu coração puro para que Jesus possa amar com seu coração.
Peça a Jesus para viver sua própria vida em você porque:

Ele é a Verdade da humildade.
Ele é a Luz da caridade.
Ele é a Vida da santidade. 

APLICAÇÃO
Madre Teresa foi uma missionária entre os pobres, alguém que conseguiu encarnar o bom samaritano da parábola contada por Jesus (Lucas 10). Ela conseguiu amar o próximo e contagiar outros para obedecerem à lei régia (a lei do Reino) – amar o próximo como a si mesmo (Tiago 2:8), quem conseguiu olhar para o próximo que sofria e enxergar dignidade, valor, a imagem do próprio Deus refletida no homem por maior que seja a sua miséria e assim responder com misericórdia (Mateus 25:31-46).

A vida de Teresa de Calcutá é uma inspiração e exemplo de que é possível viver bem e amar o próximo em nossa geração. 

Filme completo sobre a vida de Madre Teresa



MATERIAL UTILIZADO 

domingo, 23 de outubro de 2011

Martin Luther King (Biografia VII)

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 33)



"O perdão é um catalisador que cria a ambiência necessária para uma nova partida, para um reinício."

Quem foi?

Martin Luther King, Jr. foi um importante pastor evangélico e ativista político norte-americano. Lutou em defesa dos direitos sociais para os negros e mulheres, combatendo o preconceito e o racismo. Defendia a luta pacífica, baseada no amor ao próximo, como forma de construir um mundo melhor, baseado na igualdade de direitos sociais e econômicos.

Biografia
·      Marthin Luther King nasceu em 15 de janeiro de 1929 na cidade de Atlanta (estado da Geórgia).

·      Formou-se em sociologia em 1948 na Morehouse College.

·      Em 1951 formou-se no Seminário Teológico Crozer.

·      Em 1954, tornou-se pastor da Igreja Batista da cidade de Montgomery (estado da Virgínia).

·      Em 1953, casou-se com Coretta Scott King com quem teve quatro filhos

·      Em 1955, tornou-se Phd em Teologia Sistemática pela Universidade de Boston

·      Em 1955, foi um dos líderes ao boicote às empresas de ônibus da cidade de Montgomery. Este boicote era para pressionar o governo a acabar com a discriminação que havia contra os negros no transporte público dos Estados Unidos. A Suprema Corte Americana acatou as reivindicações dos ativistas e terminou com a discriminação no
     sistema de transportes públicos.

·      Em 1957, participou da fundação da Conferência de Liderança Cristã do Sul. Luther King liderou a CLCS, que lutava pelos direitos civis.

·      Na década de 1960, Luther King liderou várias marchas de protesto e manifestações pacíficas em defesa dos direitos iguais entre brancos e negros e o fim do preconceito e da discriminação racial. 

·      Em 14 de outubro de 1964, Luther King recebeu o Prêmio Nobel da Paz em função de seu trabalho, combatendo pacificamente o preconceito racial nos Estados Unidos.

·      Em 1967, King fez vários discursos protestando contra a participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã.

·       Em 1968, King organizou a Campanha dos Pobres, pregando a justiça social e econômica.

·      Em função de sua atuação social e política, Luther King despertou muito ódio naqueles que defendiam a segregação racial nos Estados Unidos. Durante quase toda sua vida adulta, foi constantemente ameaçado de morte por estas pessoas e grupos. 

·      Na manhã de 4 de abril de 1968, antes de uma marcha, Martin Luther King foi assassinado no quarto de um hotel na cidade de Memphis. 

·      Sua atuação política e social foi fundamental nas mudanças que ocorreram nas leis dos Estados Unidos nas décadas de 1950 e 1960. As leis segregacionistas foram caindo, dando espaço para uma legislação mais justa e igualitária. Embora sua atuação tenha sido nos Estados Unidos, Luther King é até hoje lembrado nos quatro cantos do mundo como símbolo de luta pacífica pelos direitos civis.




Em Números:

  • 25.000 discursos
  • 4 filhos
  • 9.65 milhoes de km percorridos
  • 5 livros
  • 29 vezes ele foi preso
  • 1 vez foi atirado, e foi fatal

Fome e sede de justiça
  • A Verdadeira paz somente não é a falta de tensão, é a presença de justiça.
  • Quase sempre minorias criativas e dedicadas transformam o mundo num lugar melhor.
  • O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons.
  • O perdão é um catalisador que cria a ambiência necessária para uma nova partida, para um reinício.
  • Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam.
  • O que vale não é o quanto se vive...mas como se vive.
  • Aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes; mas não aprendemos a simples arte de vivermos junto como irmãos.
  • Não há nada mais trágico neste mundo do que saber o que é certo e não fazê-lo. Que tal mudarmos o mundo começando por nós mesmos ?
  • O que afeta diretamente uma pessoa, afeta a todos indiretamente.
  • A escuridão não pode expulsar a escuridão, apenas a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar o ódio, só o amor pode fazer isso.
  • Enfrentaremos a força física com a nossa força moral.
  • Se você não está pronto para morrer por alguma coisa, então você não está pronto para viver.
  • A mais urgente pergunta a ser feita nesta vida é: - O que fiz hoje pelos outros?
  • O amor é a unica força capaz de transformar um inimigo em amigo.
  • Devemos construir diques de coragem para conter a correnteza do medo.
  • Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito.
  • Quem aceita o mal sem protestar, coopera realmente com ele.
  • Ou vivemos todos juntos como irmãos, ou morremos todos juntos como idiotas.
Biografia legendada

Esperança
  • Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele.
  • Mesmo as noites totalmente sem estrelas podem anunciar a aurora de uma grande realização.
  • Suba o primeiro negrau com fé. Não é necessario que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo.
  • Devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a esperança infinita.
  • Lembremo-nos, que no universo há um grande e benigno poder, que é capaz de abrir caminho onde não há caminho


Nós não somos o que gostaríamos de ser.

Nós não somos o que ainda iremos ser.

Mas, graças a Deus,

Não somos mais quem nós éramos.


    Relação com Deus
    • O nosso mundo depende de uma fundação moral. Deus o fez assim. Deus fez o universo para ser baseado em uma lei moral. Se o homem desobedecê-la, está se revoltando contra Deus.
    • O mais perigoso tipo de ateísmo não é o ateísmo teórico, mas o ateísmo prático. Este é o mais perigoso tipo. E o mundo, e mesmo a igreja, está repleta de pessoas que prestam culto com os lábios em lugar de um culto com a vida.
    • Como um jovem com grande parte de minha vida ainda pela frente eu decidi bem cedo dar minha vida por algo absoluto e eterno. Eu não vou colocar a base de minha fé em um deus que pode construir alguns edifícios arranha-céus, mas em um Deus que criou as gigantescas montanhas, beijando o céu, como se banhassem seus picos no imponente azul.  
    A covardia coloca a questão, 'É seguro?'

    O comodismo coloca a questão, 'É popular?'

    Mas a consciência coloca a questão, 'É correto?'

    E chega uma altura em que temos de tomar uma posição que não é segura, não é elegante, não é popular, mas o temos de fazer porque a nossa consciência nos diz que é essa a atitude correta.

    Eu Tenho Um Sonho

    Martin Luther King, Jr.

    28 de agosto de 1963 Washington, D.C.

    Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.

    Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros.
    Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.
    Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.
    Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa condição.

    De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com "fundos insuficientes".

    Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça.

    Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo.
    Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.
    Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.
    Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

    Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre

    . Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.

    E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, "Quando vocês estarão satisfeitos?"

    Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.

    Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Você são o veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor.
    Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.

    Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

    Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.

    Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

    Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

    Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!

    Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!

    Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.

    Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livre. Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.
     Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.
     Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,
     De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!
     E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.
     E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.
     Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de Nova York.
     Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.
     Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.
     Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.
     Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.
     Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.
     Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.
     Em todas as montanhas, ouviu o sino da liberdade.
     E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós    deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro:
     Livre afinal, livre afinal.
     Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal.


    O ÚLTIMO DISCURSO