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domingo, 11 de dezembro de 2011

RONALDO LIDÓRIO


“O evangelho é Jesus Cristo.”

“Todos precisamos de Deus, seja numa floresta sem fim, seja num condomínio fechado.”

TEXTO BASE: Mateus 24:14

VIDA
Revista Ultimato edição 303

Precoce é a pessoa que faz alguma coisa antes do tempo esperado. É o caso do mineiro de Nanuque que se converteu aos 7 anos de idade durante uma escola bíblica de férias ministrada pela própria mãe; que se despertou para o trabalho missionário aos 14 anos ao ouvir uma pregação do próprio pai; que ingressou num seminário teológico logo após completar 18 anos; que se formou em teologia e casou-se um mês depois de comemorar o 23º aniversário; que arrumou as malas e se mudou com a esposa (ele com 26 anos e ela com 24) para uma aldeia bem no interior de um país africano para prestar assessoria à igreja Konkomba em Gana e consultoria antropológica e missiológica a países da África e da América do Sul; que traduziu o Novo Testamento inteiro para uma das línguas dos Konkomba em sete anos e meio. Desde 2001, Ronaldo Almeida Lidório, 40 anos, casado com a enfermeira e obstetra Rossana Vivianne Gassett Lidório, 38, tem se dedicado ao plantio de igrejas, à análise lingüística e tradução da Bíblia e ao desenvolvimento humano e social na Amazônia indígena. O casal tem uma filha (Viviane) de 17 anos e um filho (Ronaldo Junior) de 15, e mora em Manaus.

MISSÕES ENTRE OS KONKOMBA

Os Konkombas formam uma nação tribal que habita o nordeste de Gana, noroeste africano, onde são faladas 8 principais idiomas subdivididos em 23 dialetos. Todas essas etnias são denominadas pelo governo de Gana como "Konkombas" e algumas outras como "Kombas", sendo porém estes nomes alienígenas às próprias tribos.

Desde 1994 o casal de missionários Ronaldo e Rossana Lidório está envolvido no propósito de alcançar um ramo da tribo Konkomba, que se intitula Bimonkpelns (ou "homens que vivem"), na região de Koni ao nordeste de Gana, uma população superior a 70000 habitantes.

Em 2006 foram contabilizadas 23 igrejas e 6000 convertidos em 21 comunidades. Até o momento, foram treinados biblicamente cinco evangelistas e 30 presbíteros. Outros 60 líderes estão em treinamento através de cursos de vida cristã que estão sendo ministrados pelos evangelistas. No total, 87 líderes estão ativos nas diversas igrejas e ministérios, sendo apenas os cinco evangelistas sustentados pela Igreja e com tempo integral para o trabalho.

Em 2011, por iniciativa própria, a Igreja Konkomba organizou um grupo de irmãos para a tradução do Antigo Testamento para a língua Limonkpeln. Além disso, igrejas têm sido plantadas no norte do Togo, totalizando 48 entre Gana e Togo, com uma multiplicação de líderes a frente de cada uma destas igrejas.

TRADUÇÃO DA BÍBLIA


Por Ronaldo Lidório
Revista Ultimato edição 290

Finalizações freqüentemente nos trazem alívio e alegria. Especialmente aquelas que são fruto de uma longa espera.

Nesses dias, estamos particularmente alegres pela conclusão do processo de tradução do Novo Testamento para a língua Limonkpeln, um dos dialetos do povo Konkomba, em Gana, África. A figura que me vem à mente neste momento é a do início, quando Labuer e eu sentávamos embaixo de uma árvore próxima à minha casa e durante 3 ou 4 horas por dia trabalhávamos na ortografia da língua Limonkpeln. Na época, visávamos apenas fazer uma cartilha e alfabetizar o povo em sua própria língua.

Foram 7 anos e meio de trabalho — um trabalho silencioso e sem resultados empolgantes durante o seu processo. No início os Konkomba não entendiam o porquê daquele olhar pensativo, das horas e horas sobre um computador, daquele monte de livros por todo lado. Ficavam a me observar durante o dia, de longe, sussurrando baixinho uns com os outros.

Aos poucos a Igreja nasceu e alguns rascunhos começaram a ser usados. Eles aprenderam a amar a Palavra e, a cada dia, surgiam inúmeras perguntas. Os resumidos capítulos em mãos tornaram-se rapidamente insuficientes para a demanda espiritual. Publicamos, então, Mateus, Atos e Romanos, que foram recebidos com expectativa. O povo memorizava textos inteiros e discutia as aplicações em reuniões sem fim. A Igreja, vendo nosso esforço, se autodesafiou a cooperar. Começou a orar e jejuar para que tivesse a Palavra na sua língua, o Novo Testamento completo. Passei a me sentir constrangido (e às vezes acuado) quando resolvia tirar uma tarde livre para brincar com as crianças. Por meio de uma mensagem silenciosa, a Igreja parecia censurar-me. Afinal a prioridade deveria ser trabalhar na tradução. Apenas o plantio de igrejas, que fazíamos em viagens pela região, sobrepunha ao anseio da tradução. Era necessário progredir.

Em 1997, os líderes da Igreja Konkomba-Limonkpeln resolveram se envolver diretamente no processo. Sabiam que eu possuía um ajudante lingüístico, com tempo parcial. Decidiram “separar” outros três com tempo integral. Cuidariam das roças desses ajudantes para que se dedicassem às correções do texto. Esses quatro amigos abençoados — Labuer, Balabon, Tiagri e Naason — tomaram paixão pelo trabalho e também aprenderam a trabalhar dia e noite. Creio que, nos últimos 7 anos e meio, jamais houve um dia sem que se trabalhasse no texto do Novo Testamento.

Rossana e as crianças sempre foram benevolentes com meu tempo usado na tradução. Até hoje Ronaldo Junior, quando indagado onde estou, prontamente responde: “Papai está no computador fazendo uma Bíblia” — não importa o que de fato eu esteja fazendo. Eu procurava concentrar o trabalho sempre à noite, depois que todos dormiam. Era mais fresco e havia a quietude necessária.

Outro dia juntei todo o material utilizado, desde a tradução primária até a retrotradução, passando pelas cinco correções gerais. São pilhas e pilhas de papéis, centenas de e-mails trocados com consultores, inúmeras cartas em português, inglês, Konkomba, mais de 30 livros de consulta utilizados. O resultado cabe na palma da mão, em apenas um CD.

A força da Igreja Konkomba mostrou-se ainda mais viva na última correção. Eu precisava que a equipe fizesse uma última e minuciosa leitura do texto. A Igreja então separou uma casa e preparou-a com o cenário de quietude necessário para o trabalho, pedindo que, durante um mês, ninguém se aproximasse. Trouxe os quatro ajudantes lingüísticos, que ali permaneceriam durante 3 semanas e meia. Designaram mulheres da Igreja, boas cozinheiras, que proveram o alimento necessário, e do melhor. Assim, praticamente isolaram esse grupo naquela casa até completarem a tarefa, cobrindo-os de oração.

Entre tantos colaboradores, um precisa ser mencionado primeiro. O Rev. Francisco Leonardo Schalkwijk era diretor do Seminário Presbiteriano do Norte quando, logo no início do meu curso naquela instituição, abordou-me com a pergunta: “Você quer ser missionário entre povos sem o evangelho?” Depois de ouvir uma temerosa resposta positiva, passou a aconselhar-me. Um dos conselhos cravou no meu coração: “Estude bem o grego e você economizará anos de trabalho na tradução”. Um outro colaborador silencioso foi Mebá, o primeiro convertido entre os Konkomba-Limonkpeln. A cada texto lido durante as correções, ele sempre interrompia, dizendo, benevolente: “Está muito bom e todos vão entender. Mas, se utilizasse esta ou aquela expressão, ficaria parecendo que foi escrito por um Konkomba...”

Falemos do presente. O sentimento ao entregar o texto é surreal. Pensei que sentiria algo entre alegria e alívio, mas senti, sobretudo, temor. E se pudéssemos melhorar a expressão usada para “longanimidade”? Não teria sido imprudência optar por “sacrifício” o termo que historicamente tem sido usado no animismo fetichista? E “Espírito Santo” que, explicativamente, teve de ser traduzido por “Espírito que é puro e é pessoa, não apenas força”? Certamente ficou longo para nós, mas talvez não para uma cultura onde a maioria dos espíritos não é personificação, e, sim, energia impessoal. A numerologia bíblica em uma língua em que se conta até 500 (depois disso as regras mudam para um discurso binário extenso) torna-se muito complexa. Os “144.000” de Apocalipse 14 tomaram cinco linhas.

O Konkomba-Limonkpeln é uma das três principais línguas do povo Bikpakpaln, conhecido como Konkomba pelos de fora. De fato, este não é um termo usado ou mesmo conhecido pela maioria para se identificar. Eles habitam as savanas no nordeste de Gana e noroeste do Togo. Formam etnias fortes, com grave valorização da cultura e orgulho de sua língua. No país são conhecidos como Tiwoor aanib (povo do mato), por preferir se isolar em regiões mais distantes. No imaginário popular são agressivos e senhores de guerras. Mas, na verdade, são extremamente hospitaleiros e leais. Para eles a maior vergonha é mentir. A maior virtude é honrar os pais já velhos e tê-los na memória quando se forem. Os filhos são criados por todos, e não há órfãos. A Wycllife trabalha há décadas com uma das etnias, os Bichaboln, a qual possui a Bíblia completa em seu idioma. Nós iniciamos o trabalho com uma segunda etnia, os Bimonkpeln. E ouvimos recentemente sobre um esforço metodista em alcançar a terceira etnia, os Bisachuln. Parece-me que Deus tem um plano para esse povo.

PROJETO AMANAJÉ


Atualmente, o missionário Ronaldo Lidório e sua esposa Rossana lideram na Amazônia o Projeto Amanajé, um trabalho de médio e longo prazo com povos indígenas, de alcance missionário e desenvolvimento de programas sociais relevantes. A missão do casal foi, inicialmente, diagnosticar uma área de necessidade evangelística dentro do universo indígena amazônico, organizar uma equipe e prepará-la para o Projeto.

Lidório conta que o primeiro passo foi a realização de alguns mapeamentos na Amazônia, quando ele e Rossana puderam dispor de fotos via satélite, informações do missiólogo Paulo Bottrel da AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras) e outros bancos de dados. Eles percorreram aproximadamente três mil quilômetros em diversos rios e áreas indígenas e identificaram duas áreas com graves necessidades, nas quais se concentraram.

A equipe do Projeto Amanajé é formada por 11 pessoas que realizam um trabalho missionário junto a comunidades, na selva, no Alto Rio Negro, e estão aprendendo uma das línguas tribais.

Atualmente, o Projeto está na terceira fase: o desenvolvimento estratégico do processo evangelístico multi-étnico e dos programas sociais que envolvem saúde e subsistência em áreas carentes.

Igrejas locais e irmãos sustentam voluntariamente cada missionário do Projeto, e os próprios missionários sustentam a sua área de atuação ministerial. Há também um fundo através do qual cada missionário contribui para manter os bens comuns como canoas e motores. A Visão Mundial e o grupo Hebron cooperam com a manutenção de alguns projetos sociais.

ENTREVISTA DA REVISTA ULTIMATO COM LIDÓRIO (ANO 2006)
Revista Ultimato edição 303

Ultimato — A população indígena, que diminuía a cada ano no Brasil, voltou a crescer. Qual é a explicação?

Lidório — Calcula-se que havia 1,5 milhão de indígenas em 1500, os quais somam hoje pouco mais de 350.000, configurando um dos maiores processos etnofágicos nos últimos 500 anos. Porém, a população indígena, que diminuía a cada ano, voltou a crescer de forma animadora nas últimas décadas. A existência de programas de saúde que previnem e tratam as doenças em geral, e também as mais específicas como a malária, possuem uma contribuição acentuada. Programas de subsistência têm auxiliado ao prover mais proteínas e vitaminas em áreas indígenas onde o alimento se resumia quase que puramente ao carboidrato. A presença missionária também é responsável por inúmeros programas de desenvolvimento humano porém sua principal marca social é a valorização da língua materna, provendo grafia e gerando programas de alfabetização que asseguram a identidade lingüística e, conseqüentemente, cultural, em diversas etnias. Há casos, como o dos Dâw do Amazonas, em que os missionários da Associação Lingüística Evangélica Missionária (ALEM) realizaram um verdadeiro resgate lingüístico-cultural. Era uma etnia que pouco falava sua língua, vivia dispersa e excluída em um contexto urbano e quase perdera por completo sua identidade indígena. Ao encontrá-los hoje, vivendo em sua aldeia com alegria e dignidade, é visível o sentimento de cidadania e humanização. Falam sua língua com prazer e a ensinam aos seus filhos. Viver sua própria cultura os define como gente perante um universo onde outros também expressam abertamente seus valores culturais. Identidade cultural faz bem à alma.


Ultimato — Você está fazendo o mapeamento da região amazônica. Qual a finalidade do mapeamento?

Lidório — Estou envolvido na pesquisa de algumas áreas. O objetivo central é identificar ajuntamentos humanos com graves carências sociais e espirituais. As estatísticas convencionais que definem os agrupamentos indígenas não expressam em profundidade a situação social, o índice de preservação lingüística, o relacionamento intercultural com outras etnias da região e com os não-indígenas, entre outros. Esses dados são importantes para o desenvolvimento de programas cujo objetivo seja contribuir de maneira relevante com esta realidade. A ONG ATINI, por exemplo, que luta contra o infanticídio que ocorre em abundância no contexto indígena brasileiro, é resultado de longa observação por parte da JOCUM dessa prática social entre o povo Suruwahá e outros grupos. A pesquisa ajuda-nos a identificar os pontos de tensão e a participar na solução de conflitos. 



Ultimato — Quantos grupos indígenas temos hoje no território nacional? Pode haver outros?
Lidório — Os dados divergem de uma listagem para outra por considerarem, ou não, alguns grupos ainda não reconhecidos oficialmente como indígenas. Creio ser seguro, porém, pensarmos em 258 grupos indígenas com identidade definida no Brasil, além de outros cinqüenta ainda isolados. Grupos isolados são aqueles que não possuem contato com o mundo externo, e normalmente não se sabe se são uma variação cultural de um grupo já reconhecido ou se são novos. Muitos grupos indígenas estão em fase de extinção — extinção não necessariamente populacional, mas cultural e lingüística. Aryon Rodrigues estima que, na época da conquista do Brasil, eram faladas 1.273 línguas, ou seja, perdemos 85% de nossa diversidade lingüística em 500 anos. Das línguas sul-americanas, 27% já não são aprendidas pelas crianças. Esta é uma extinção silenciosa que mata não apenas a língua mas também a identidade e a esperança de muitos povos. 



Ultimato — Você é a favor da tradução da Bíblia para grupos lingüísticos reduzidos, com uma população de cem falantes, por exemplo? Por quê?
Lidório — O critério bíblico segundo o qual uma alma vale mais do que o mundo inteiro mostra que na economia de Deus a carência de um único indivíduo é o suficiente para qualquer esforço. E, se observarmos a tradução bíblica de perto, veremos que ela não é um processo isolado, mas uma atividade associada à grafia de uma língua, sua análise, desenvolvimento de cartilhas, alfabetização e fomentação de registros históricos e culturais pelo próprio povo, que contribuem para sua afirmação humana e social. Quando um povo lê a Bíblia em sua língua materna, este exercício possui um profundo valor tanto espiritual quanto sociocultural. Desta perspectiva, talvez a tradução bíblica seja ainda mais prioritária para os grupos minoritários, mais suscetíveis à perda lingüística e cultural, do que para os grandes grupos. Na África tivemos contato com o casal Stevenson, que traduzia a Bíblia para um grupo de quatorze pessoas cuja língua era uma variação lingüística dos Bikuln. Gastaram ali mais de 25 anos de suas vidas e, ao entregarem um dos livros do Novo Testamento nas mãos de um jovem da tribo, ele afirmou que entendera que o amor de Deus não é proporcional ao tamanho da tribo, pois Deus ama igualmente uma grande etnia e um pequeno grupo de quatorze pessoas. Creio que ele entendeu bem.


Ultimato — O sonho indígena de uma terra sem males pressupõe que os indígenas acreditam na vida após a morte? Eles têm alguma noção da ressurreição do corpo? 

Lidório — Várias culturas indígenas possuem uma cosmologia definida pelo aquém e pelo além, a qual inclui o conceito de vida eterna em uma terra sem males. Esta cosmovisão mais escatológica da vida pode ser identificada não apenas entre os indígenas mas também em diversos outros grupos espalhados pela terra. Os Konkomba de Gana crêem que o pacham é um lugar para onde irão os que morrem já bem velhos e com muitos filhos. Os Chakali falam sobre o báthan como sendo o destino pós-morte de todo homem, sendo que aqueles que não enganaram o próximo terão comida em abundância. O restante viverá da boa vontade do primeiro grupo. A convicção de uma terra sem males entre os indígenas brasileiros é, em alguns casos, tão enfática que pode ser relacionada como uma das possíveis causas da abundância de suicídios. Quando um jovem se vê sem saída, ou envergonhado, ou ainda profundamente melancólico, por vezes opta pelo suicídio, não apenas como uma maneira de fugir do conflito pelo qual passa, mas movido também pela convicção de que o mundo pós-morte será melhor, sem dor. Há poucos registros, porém, sobre crenças ligadas à ressurreição do corpo em culturas indígenas. 



Ultimato — Onde você passa mais tempo: com a família, em Manaus; com os indígenas, em suas tribos; ou em viagem pelos rios da Amazônia?
Lidório — Neste ano nos mudamos para Manaus por ser um ponto central para nossas viagens e atividades no Norte. Como faço várias viagens por ano, dentro e fora do Amazonas, passo muito tempo fora de casa. As viagens fluviais na Amazônia são as mais longas, pois envolvem distâncias consideráveis. Porém aproveitamos bastante o tempo juntos em família. Quando estamos em casa, nossos filhos, Vivi e Ronaldo Junior, têm prioridade de tempo e atenção. Também temos um compromisso de passar de dois a três meses, a cada dois anos, na África para treinamento de liderança. 



Ultimato — Como você se sente fora da chamada civilização, em plena mata, em contato com a beleza exuberante da natureza não poluída?
Lidório — Tanto na África quanto na Amazônia, o sentimento de estar em um lugar remoto com pouca intervenção humana é fascinante. Observar o verde intocado da Amazônia, por exemplo, nos faz pensar muito no poder de Deus, Criador de algo tão belo e cativante. No entanto, depois de viver nesses ambientes mais distantes por algum tempo, perde-se um pouco do romantismo e os desconfortos da privação das facilidades nas quais fomos criados passam a ser mais sentidos. Em Gana, na África, passávamos até seis meses na aldeia viajando apenas duas vezes por ano para uma área urbana. Quando chegávamos à capital, Accra, meu maior prazer era apertar um interruptor e ver a luz acender. O de Rossana era abrir uma torneira e ter água corrente. Quando perguntávamos ao meu filho caçula, ainda pequenino, do que ele sentia falta na aldeia, ele respondia: Do McDonald’s! 



Ultimato — Segundo dados do governo, em 2005 16.700 quilômetros quadrados da floresta amazônica foram transformados em terras agricultáveis, com a derrubada de 1 bilhão de árvores. A Amazônia poderá vir a ser uma região independente do Brasil por sua importância no cenário mundial? 
Lidório — A destruição da floresta é assunto preocupante, porém não ocorre de maneira uniforme na Amazônia. Em algumas áreas indígenas, como no Alto Rio Negro, por exemplo, não é perceptível. Nos arredores de Porto Velho, Rondônia, é evidente. Creio que o problema está localizado especialmente próximo a centros urbanos, onde se escoa mais facilmente a madeira, e em setores de expansão agrícola, onde há grandes queimadas. Não creio que a Amazônia venha a ser independente justamente por sua importância nos cenários mundial e, conseqüentemente, nacional. Penso que o desenvolvimento da política de conservação ambiental só acontecerá quando ela for trabalhada com a população local — que é a única capaz de coibir o desmatamento, seja por não praticá-lo, seja por fiscalizar aqueles que o praticam. Políticas externas dissociadas de uma consciência local não surtirão efeito. 



Ultimato — A relação entre a FUNAI e as missões indígenas está melhor agora? 
Lidório — Minha impressão é que há uma boa relação que caminha para se consolidar. O trabalho da FUNAI é relevante e desafiador, tendo em mente a diversidade étnica indígena no Brasil e sua função de fiscalizá-la. Hoje vivemos um momento em que também cresce o movimento missionário formado pelos próprios indígenas. O CONPLEI (Conselho Nacional de Pastores e Líderes Indígenas) tem demonstrado de forma acentuada essa força. Costumo dizer que a necessidade humana é a mesma, em qualquer cultura e contexto, e é preciso juntar forças para minimizá-la. Apenas a roupagem muda. Ao lembrar-me do indígena excluído e discriminado, sem alimento nem dignidade, nas margens do rio Solimões, percebo nele a mesma dor e constrangimento do rapaz urbano e também excluído, sentado na calçada em uma rua de Recife, invisível na multidão. Jesus, ao falar sobre um homem judeu caído ao longo do caminho e socorrido por um samaritano, nos aponta que as crises humanas são idênticas e ocorrem em qualquer sociedade. Muda apenas a roupagem externa, como língua, cultura, cosmovisão e contexto.


Ultimato — Qual foi o trabalho que você e Rossana desenvolveram em Gana na década de 90? 

Lidório — Fomos para Gana em 1993 e lá permanecemos até 2001, quando viemos trabalhar na Amazônia. Na África atuamos com a etnia Konkomba-Limonkpeln, uma das quatro etnias Konkomba, com plantio de igrejas e tradução bíblica, e desenvolvimento de projetos sociais na área de educação e saúde. Pela graça de Deus há hoje ali 23 igrejas, pastoreadas por cinco pastores Konkomba. Várias delas foram plantadas por iniciativa do próprio povo. A clínica médica, que atende mais de 6 mil pessoas por ano, e as escolas, que educam mais de 400 crianças, são totalmente dirigidas pelos Konkomba. Um dos ministérios naquele lugar que encheu nosso coração foi a tradução do Novo Testamento para a língua Limonkpeln. Fomos despertados para essa necessidade porque no início os crentes vinham de aldeias distantes para participar de estudos bíblicos na aldeia onde morávamos, Koni. Passavam alguns dias conosco e memorizavam versículos que transmitiriam a outros. Uma mulher veio de Kadjokorá, uma aldeia que ficava a quatro dias de caminhada. Ela também memorizou os treze versículos e participou do encontro. Voltando para sua aldeia, depois de dois dias de caminhada, ela esqueceu um dos versos. Não pensou duas vezes. Voltou aonde estávamos e disse que estava ali porque a Palavra de Deus era preciosa demais para se perder ao longo do caminho. Memorizou de novo o verso e recomeçou sua jornada de quatro dias de caminhada para casa. Naquele momento nos comprometemos com a tradução do Novo Testamento para o Limonkpeln, que, pela graça de Deus, foi entregue em outubro de 2004 em uma linda festa com cerca de mil Konkombas louvando a Deus sob a sombra de algumas mangueiras.


APLICAÇÃO
E será pregado (Kerygma) este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho (Martíria) a todas as nações. Então, virá o fim. Mateus14:24

Há dois termos largamente usados no Novo Testamento que retratam o caráter cristão: proclamação e testemunho. O termo grego para ‘proclamação’ é ‘Kerygma’: a forma estratégica e inteligível de comunicar a mensagem do evangelho. É a Igreja se preparando, estudando e analisando as possibilidades de comunicar o evangelho a um grupo, seja uma pessoa, família ou povo. Isto é Kerygma.

‘Martíria’ é o termo grego para ‘testemunho’ e sempre está ligado ao Kerygma. Entretanto ‘Martiria’ não é uma proclamação inteligível e estratégica como encontro de casais, acampamentos evangelisticos, evangelismo explosivo ou células familiares. Martiria é testemunho de vida, a personalidade transformada pelo Senhor. É domínio próprio em casa, ser justo com os empregados, ser brando no falar. É ser a imagem de Jesus.

A Igreja foi chamada para ser primeiramente Martírica – viver com fidelidade tudo aquilo que crê - e só então assumir uma postura Kerygmática.

O versículo de Mateus nos ajuda a responder 3 perguntas importantes a cerca da missão da Igreja:
1.    O que será pregado?
O evangelho deverá ser pregado, e o evangelho nada mais é que Jesus, a boa notícia de Deus.
2.    Como será pregado?
O evangelho será comunicado através da dupla proclamação e testemunho, ou seja, anunciando e vivendo o evangelho aonde nos encontrarmos.
3.    Aonde será pregado?
O evangelho será pregado em todo lugar, e prioritariamente e com persistência aos povos ainda não alcançados.

Extraído da pregação de Ronaldo Lidório no VI CBM (Congresso Brasileiro de Missões) em 2011.

MATERIAL UTILIZADO

·         Site Oficial de Ronaldo e Rossana Lidório < http://www.ronaldo.lidorio.com.br/ >
·         Instituto Antropos < http://www.http://instituto.antropos.com.br >
·         Revista Ultimato < http://www.ultimato.com.br >

domingo, 13 de novembro de 2011

MADRE TERESA DE CALCUTÁ (Biografia VIII)

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 35)

“Não sou nada; sou apenas um instrumento, um pequeno lápis nas mãos do Senhor, com o qual Ele escreve aquilo que deseja. Por mais imperfeitos que sejamos, Ele escreve magnificamente.” 

TEXTO BASE: Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37)

VIDA
Agnes Gonxha Bojaxhiu, a futura madre Teresa, nasceu no dia 26 de agosto de 1910 em Skopje, Macedônia, de una família de origem albanesa. O pai, respeitado homem de negócios, morreu quando ela tinha oitos anos, deixando a mãe de Agnes na condição de ter que abrir uma atividade de bordado e fazenda para poder manter a família. Depois de ter transcorrido a adolescência empenhada fervorosamente nas atividades paroquiais, Agnes deixou a sua casa em setembro de 1928, entrando no convento de Loreto a Rathfarnam, (Dublin), Irlanda, onde foi acolhida como postulante no dia 12 de outubro e recebeu o nome de Teresa, como a sua padroeira, Santa Teresa de Lisieux. 

Agnes foi enviada pela congregação de Loreto para a Índia e chegou em Calcutá no dia 6 de janeiro de 1929. Tendo apenas chegado lá, entrou no noviciado de Loreto, em Darjeerling. Fez a profissão perpétua como irmã de Loreto no dia 24 de maio de 1937, e daquele dia em diante foi chamada Madre Teresa. Quando viveu em Calcutá durante os anos 1930-40, ensinou na escola secundária bengalês, Sta Mary. 

No dia 10 de setembro de 1946, no trem que a conduzia de Calcutá para Darjeeling, Madre Tereza recebeu aquilo que ela chamou “a chamada na chamada”, que teria feito nascer a família dos Missionários da Caridade, Irmãs, Irmãos, Padres e Colaboradores. O conteúdo desta inspiração é revelado no objetivo e na missão que ela teria dado ao seu novo Instituto: “Saciar a infinita sede de Jesus sobre a cruz de amor e pelas almas, trabalhando para a salvação e para a santificação dos mais pobres entre os pobres”. No dia 7 de outubro de 1950, a nova congregação das Missionárias da Caridade foi instituída oficialmente como instituto religioso pela Arquidiocese de Calcutá. 

Ao longo dos anos 50 e no inicio dos anos 60, Madre Teresa estendeu a ação das Missionárias da Caridade para toda a Índia. No dia 1 de fevereiro de 1965, Paulo VI concedeu à Congregação o “Decretum Laudis”, elevando-a a direito pontifício. A primeira casa de missão aberta fora de Calcutá foi a Cocorote na Venezuela em 1965. A congregação se expandiu em toda a Europa (na periferia de Roma, a Torre Fiscale) e na África (em Tabora capital da Tanzânia) em 1968. 

Do final dos anos 60 até 1980, as Missionárias da Caridade cresceram em número de casas de missão abertas em todo o mundo, e também em número dos seus membros. Madre Teresa abriu fundações na Austrália, no Vizinho Oriente, na América do Norte, e o primeiro noviciado fora de Calcutá em Londres. Em 1979 Madre Teresa recebeu o Premio Nobel pela Paz. No mesmo ano já existiam 158 casas de missão. 

As Missionárias da Caridade chegaram aos países comunistas em 1979, abrindo uma fundação em Zagabria, na Croácia, e em 1980 em Berlim. Continuaram a estender a sua missão nos anos 80 e 90 abrindo casas em quase todos os países comunistas, incluindo 15 fundações na ex-União Soviética. Não obstante os repetidos esforços, Madre Teresa não pode abrir nenhuma fundação na China. 
Em outubro de 1985 Madre Teresa falou no quadragésimo aniversário da Assembléia Geral das Nações Unidas. Na vigília de Natal do mesmo ano, abriu em Nova York o “Dom de Amor”, a primeira casa para os doentes de AIDS. 

No final dos anos 80 e durante os anos 90, não obstante os crescentes problemas de saúde, Madre Teresa continuou a viajar pelo mundo para a profissão das noviças, para abrir novas casas de missão e para servir os pobres e aqueles que tinham sido atingidos por diversas calamidades. Foram fundadas novas comunidades na África do Sul, Albânia, Cuba e Iraque, que estava dilacerado por causa da guerra. Em 1997 as irmãs eram cerca de 4000, presentes em 123 países do mundo nas mais ou menos 600 fundações.  

Depois de ter viajado por todo o verão a Roma, New York e Washington, em condições de saúde delicadas, Madre Teresa voltou a Calcutá em 1997. Às 9h30 da noite do dia 05 de setembro de 1997, ela morreu na Casa Geral. O seu corpo foi transferido para a Igreja de São Tomas, adjacente ao Convento de Loreto, exatamente onde tinha chegado 69 anos antes. Centenas de milhões de pessoas de todas as classes sociais e de diferentes religiões da Índia e do exterior lhe renderam homenagem. No dia 13 de setembro recebeu o funeral de Estado e o seu corpo foi conduzido em um longo cortejo através as estradas de Calcutá, sobre uma carreta de canhão que tinha trazido também os corpos de Mohandas Gandhi Jawaharlal Nehru. Chefes de Nações, primeiros Ministros, Rainhas e enviados especiais chegaram para representar os países de todo o mundo. 


Relembre a história de vida da Madre Teresa de Calcutá - Parte 1 


Relembre a história de vida da Madre Teresa de Calcutá - Parte 2 

MISSIONÁRIAS DA CARIDADE 
Em meados de 1950, Madre Teresa foi autorizada pelo Papa Pio XII a iniciar uma ordem religiosa, que deveria, segundo o Vaticano, se chamar Congregação Diocesana de Calcutá. A principal missão da ordem seria de cuidar dos "pobres, necessitados, doentes e excluídos do meio social". A ordem foi finalmente fundada em Calcutá, cidade que acolheu Madre Teresa em sua vida religiosa, com apenas 12 membros. Com o apoio do governo indiano, Madre Teresa reformou um templo hindu e o transformou num abrigo para desabrigados e doentes. Madre Teresa também abriu um centro de tratamento de leprosos em Titagarh. 

Em 1965, o Papa Paulo VI autorizou Madre Teresa a expandir o projeto em outros países. A congregação experimentou, então, rápido crescimento e Madre Teresa pôde abrir várias comunidades em todo o mundo. O primeiro país a receber as Missionárias foi a Venezuela, sendo seguida pela Itália e Tanzânia. A primeira filial na América do Norte foi aberta no Bronx, na cidade de Nova Iorque. 

Hoje a ordem conta com A ordem tem cerca de 4500 membros em 133 países do globo. 

PENSAMENTOS 
  • É fácil amar os que estão longe. Mas nem sempre é fácil amar os que vivem ao nosso lado. 
  • O importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá. 
  • Mais nos aproximamos de Deus e mais percebemos a gravidade dos nossos defeitos. 
  • Sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele, o oceano seria menor. 
  • O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso. 
  • Uma prova de que Deus esteja conosco não é o fato de que não venhamos a cair, mas que nos levantemos depois de cada queda. 
  • Um coração feliz é o resultado inevitável de um coração ardente de amor. 
  • As palavras de amizade e conforto podem ser curtas e sucintas, mas o seu eco é infindável. 
  • Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las. 
  • Não é o que você faz, mas quanto amor você dedica no que faz o que realmente importa. 
  • A falta de amor é a maior de todas as pobrezas. 
  • A todos os que sofrem e estão sós, dai sempre um sorriso de alegria. Não lhes proporciones apenas os vossos cuidados, mas também o vosso coração. 
  • O que eu faço é simples: ponho pão nas mesas e compartilho-o. 
  • É uma grande virtude considerar todos melhores que nós. 
  • A oração torna nossos corações transparentes e só um coração transparente pode escutar a Deus ! 
  • Não ame pela beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiracão, pois um dia você se decepciona. Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação. 
  • Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz. 
  • Ontem foi embora. Amanhã ainda não veio. Temos somente hoje, comecemos! Qualquer ato de amor, por menor que seja, é um trabalho pela paz 
  • Se aceitarmos que uma mãe mate seu filho dentro do próprio ventre, como poderemos impedir que as pessoas matem umas as outras? 

ASSIM MESMO 
Muitas vezes as pessoas são egocêntricas, ilógicas e insensatas.
Perdoe-as assim mesmo.

Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de egoísta, interesseiro.
Seja gentil, assim mesmo.

Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros.
Vença assim mesmo.

Se você é honesto e franco, as pessoas podem enganá-lo.
Seja honesto assim mesmo.

O que você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para outra.
Construa assim mesmo.

Se você tem Paz e é Feliz, as pessoas podem sentir inveja.
Seja Feliz assim mesmo.

Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o bastante.
Dê o melhor de você assim mesmo.

Veja que, no final das contas, é entre você e DEUS.
Nunca foi entre você e as outras pessoas.

ORAÇÃO
Mantenha seus olhos puros para que Jesus possa olhar através deles.
Mantenha sua língua pura para que Jesus possa falar por sua boca.

Mantenha suas mãos puras para que Jesus possa trabalhar com suas mãos.
Mantenha sua mente pura para que Jesus possa pensar seus pensamentos em sua mente.

Mantenha seu coração puro para que Jesus possa amar com seu coração.
Peça a Jesus para viver sua própria vida em você porque:

Ele é a Verdade da humildade.
Ele é a Luz da caridade.
Ele é a Vida da santidade. 

APLICAÇÃO
Madre Teresa foi uma missionária entre os pobres, alguém que conseguiu encarnar o bom samaritano da parábola contada por Jesus (Lucas 10). Ela conseguiu amar o próximo e contagiar outros para obedecerem à lei régia (a lei do Reino) – amar o próximo como a si mesmo (Tiago 2:8), quem conseguiu olhar para o próximo que sofria e enxergar dignidade, valor, a imagem do próprio Deus refletida no homem por maior que seja a sua miséria e assim responder com misericórdia (Mateus 25:31-46).

A vida de Teresa de Calcutá é uma inspiração e exemplo de que é possível viver bem e amar o próximo em nossa geração. 

Filme completo sobre a vida de Madre Teresa



MATERIAL UTILIZADO 

domingo, 25 de setembro de 2011

ERA DAS MISSÕES

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 30)


TEXTO BASE: Mateus28:18-20

INTRODUÇÃO
Por muito tempo as igrejas protestantes ficaram focadas com os desafios e os novos rumos da Europa. Missões não era o foco da Igreja, e muito do trabalho evangelístico realizado até então não era intencional, como por exemplo, os imigrantes oriundos de países protestantes, que ao desbravar e explorar suas colônias (nas Américas, África e Ásia), comunicava a sua fé através da cultura que apresentavam ou impunham aos moradores locais.

Nesta lição vamos estudar como esse espírito começou a mudar na Igreja Protestante, e o que ocorreu para que uma preocupação com a urgência na evangelização de povos não alcançados pelo evangelho sobreviesse sobre as igrejas, proliferando assim as agências e sociedades missionárias para cumprir essa tarefa dada por Jesus aos seus discípulos.

MISSÕES MORÁVIA
por Alderi de Souza Matos

Com o seu zelo por Cristo, os irmãos morávios escreveram uma das páginas mais nobres das missões cristãs em todos os tempos. Nenhum grupo protestante teve maior consciência do dever missionário e nenhum demonstrou tamanha consagração a esse serviço em proporção ao número de seus membros. Seu grande líder inicial e incentivador na obra missionária foi o piedoso conde alemão Nikolaus Ludwig Von Zinzendorf (1700-1760).

Numa viagem a Copenhague para assistir a coroação do rei dinamarquês Cristiano VI, o conde Zinzendorf conheceu alguns nativos das Índias Ocidentais e da Groenlândia. Regressou a Herrnhut, na Saxônia, a sede do movimento, cheio de fervor missionário e, em conseqüência disso, dois obreiros, Leonhard Dober e David Nitschmann, iniciaram uma missão aos escravos africanos em Saint Thomas, nas Ilhas Virgens, em 1732. Christian David e outros missionários foram para a Groenlândia no ano seguinte.

Em 1734, um grupo liderado por August Gottlieb Spangenberg (1704-1792) começou a trabalhar na Geórgia, no sul dos futuros Estados Unidos. No Natal de 1741, o próprio Zinzendorf visitou a América e deu o nome de Bethlehem (Belém) à colônia que os morávios da Geórgia estavam criando mais ao norte, na Pensilvânia. Essa cidade se tornaria a sede americana do movimento. O mais famoso missionário morávio aos índios norte-americanos foi David Zeisberger (1721-1808), que trabalhou entre os creeks da Geórgia a partir de 1740 e entre os iroqueses desde 1743 até a sua morte.

Herrnhut, na Alemanha, tornou-se um vigoroso centro de atividade missionária, iniciando missões no Suriname, Costa do Ouro, África do Sul, Argélia, Guiana, Jamaica, Antigua e outros locais. Em 1748, foi iniciada uma missão aos judeus em Amsterdã. Até 1760, o ano da morte de Zinzendorf, os morávios haviam enviado 226 missionários a dez países e cerca de 3.000 mil conversos tinham sido batizados. Outros locais alcançados posteriormente foram o Egito, Labrador, Espanha, Ceilão, Romênia e Constantinopla.

Em 1832, havia 42 estações missionárias morávias ao redor do mundo. Os nomes dos primeiros campos missionários mostram uma característica do trabalho morávio: em geral eram locais difíceis e inóspitos, exigindo uma paciência e dedicação toda especial, traço que até hoje caracteriza o trabalho missionário desse grupo.

Uma reunião de oração excepcional
O renascimento da igreja morávia, em maio de 1727, havia resultado em grande parte de uma forte ênfase na oração. Nos meses seguintes, um espírito de oração tomou conta da pequena comunidade evangélica. No dia 27 de agosto daquele ano, 24 homens e 24 mulheres comprometeram-se a orar uma hora por dia de forma seqüencial, de modo que sempre houve alguém orando por missões.

Essa “vigília de oração” sensibilizou Zinzendorf e a comunidade morávia a tentarem alcançar outros para Cristo. Seis meses após o início da vigília, o conde desafiou os companheiros a evangelizarem as Índias Ocidentais, a Groenlândia, a Turquia e a Lapônia. No dia seguinte, 26 morávios se ofereceram como voluntários para as missões mundiais, aonde quer que Deus quisesse levá-los.

A vigília de oração prosseguiu sem interrupção, vinte e quatro horas por dia, durante mais de 100 anos. Em 1792, sessenta e cinco anos após o início da vigília, a pequena comunidade morávia havia enviado 300 missionários até os confins da terra.

A teoria de missões de Zinzendorf
Zinzendorf estabeleceu alguns princípios que deveriam nortear a atividade missionária dos morávios. Eles são os seguintes:

·         Busquem os primeiros frutos. Zinzendorf dizia aos voluntários que partiam de Herrnhut: “Não tenham como alvo a conversão de nações inteiras. Simplesmente procurem pessoas interessadas pela verdade, que, como o eunuco etíope, pareçam prontas para abraçar o evangelho” (ver Atos 8.27-28). Assim, os missionários morávios não saíam para o campo com expectativas exageradas. Isso os capacitava a enfrentar muitas situações em que os frutos surgiam lentamente, mas também lhes proporcionava profunda alegria quando grandes números de pessoas estavam prontas para abraçar a Cristo. Associada a isso estava a sua dependência do Espírito Santo, que, como o verdadeiro evangelista, os conduziria a almas como Cornélio ou o eunuco.
·         Preguem a Cristo. “Em segundo lugar”, instruía Zinzendorf, “vocês devem ser objetivos e falar-lhes sobre a vida e a morte de Cristo”. Alguns missionários haviam ido para culturas pagãs e tinham tentado em vão ensinar teologia ou começar com verdades sobre Deus. Zinzendorf partia do pressuposto de que os pagãos já sabiam sobre Deus, mas precisavam conhecer sobre o Salvador, especialmente seus sofrimentos sobre a cruz.
·         Vão para os povos esquecidos. As primeiras pessoas buscadas pelos morávios foram os escravos negros. Nos anos seguintes eles foram para os leprosos, os esquimós, os índios, os africanos, e parecem ter sido os primeiros a buscarem sistematicamente a conversão dos judeus.
·         Pelo reino de Cristo. Os morávios têm buscado aumentar o reino de Cristo, e não a sua própria expansão denominacional. Inúmeras sociedades de cristãos zelosos das igrejas tradicionais da Europa e da Inglaterra oraram, contribuíram e forneceram voluntários para a causa missionária mundial dos morávios no século 18.
·         Sejam auto-sustentados. Hutton observou que, na missão das Índias Ocidentais, “por mais de cem anos ninguém recebeu um centavo da Igreja Morávia por seus serviços; cada um... primeiro tinha de ganhar o seu próprio sustento”. Essa política era seguida em toda parte. Na década de 1750, uma carta do Suriname dizia: “O irmão Kam está colhendo café; o irmão Wenzel conserta sapatos; o irmão Schmidt está fazendo uma roupa para um freguês”.

Com seu heroísmo, apego às Escrituras e consagração a Deus, os irmãos morávios, embora pouco numerosos, exerceram uma forte influência espiritual sobre outros grupos e movimentos protestantes, especialmente na Inglaterra.

A convivência com alguns morávios causou profundo impacto em João Wesley e contribuiu para a sua conversão e o surgimento do metodismo. William Carey, o pioneiro das missões batistas, os admirava grandemente e apelou para o seu exemplo de obediência. Eles também inspiraram a criação de duas das primeiras agências protestantes de missões – a Sociedade Missionária de Londres (1795) e a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (1804).

WILLIAM CAREY, O PAI DAS MISSÕES MODERNAS
por Marcos Granconato

Durante certo tempo, William Carey acumulou as funções de pastor, professor de tempo parcial e sapateiro na sua pequena aldeia. Na verdade, desde a juventude ele atuara como pregador leigo, mas só em 1785 recebeu o convite para ser pastor em uma pequena igreja batista. Mais tarde, foi chamado para pastorear uma igreja maior em Leicester, mas mesmo assim ainda precisava trabalhar em outras atividades para sustentar a família.

Como pastor, Carey revelava uma preocupação muito grande com o estudo. Quem chegasse em sua humilde casa, caracterizada pelas lindas flores que ele mesmo cultivava, sempre o encontraria com um livro. Foi durante seus anos de pastorado, marcados especialmente pela leitura, que Carey passou a desenvolver sua visão missionária, concluindo, para surpresa da igreja e dos ministros cristãos de seus dias, que a evangelização do mundo era a principal responsabilidade da noiva de Cristo.

Uma das dificuldades que William Carey teve de enfrentar para incutir a necessidade do envio de missionários às nações pagãs foi o hipercalvinismo reinante em seus dias, segundo o qual a conversão dos pagãos ocorreria, caso o Senhor quisesse, sem o auxílio de quem quer que fosse.

Foi para quebrar essa mentalidade que o pai das missões modernas escreveu um tratado intitulado Uma investigação sobre o dever dos cristãos de empregarem meios para a conversão dos pagãos" (1792). Tratava-se de uma exposição e análise do mundo de seus dias que refletia a necessidade urgente da pregação do Evangelho às nações de todos os continentes. Nesse tratado, Carey também expõe argumentos lógicos e teológicos apresentando-os como fundamentos para o envio de missionários aos pagãos, frisando especialmente que o Reino de Cristo tem de ser proclamado a toda a terra.

Num sermão sobre Isaías 54.2-3, dirigido a um grupo de pastores batistas em Nottingham, no dia 31 de maio de 1792, Carey reforçou os apelos constantes da sua Investigação e pronunciou a frase que se tornou célebre como a filosofia de trabalho do grande missionário: "Realizar grandes coisas para Deus; esperar grandes coisas de Deus".

A força dos argumentos de Carey e o vigor do seu entusiasmo resultaram na formação da Sociedade Missionária Batista, organizada em setembro de 1792. Menos de um ano depois, em junho de 1793, ele e sua família partiram para a Índia como membro da referida sociedade. Carey chegou em Hooghly no dia 11 de novembro de 1793, marcando o início da grande era das missões além mar, promovidas pela Inglaterra e Estados Unidos.

Dois missionários se juntaram à William Carey em 1799, William Ward e Joshua Marshman. Juntos eles fundaram 26 igrejas, 126 escolas com 10.000 alunos, traduziram as Escrituras em 44 línguas, produziram gramáticas e dicionários, organizaram a primeira missão médica na Índia, seminários, escola para meninas, e o jornal na língua Bengali. Além disso, William Carey foi responsável pela erradicação do costume "suttee", o qual queimava a viúva juntamente com o corpo do defunto numa fogueira; fundação da Sociedade de Agricultura e Horticultura na Índia em 1820; primeira imprensa, a tradução da Bíblia em Sânscrito, Bengali, Marati, Telegu e nos idiomas dos Siques.

 Em 1800, William Carey fez o batismo do primeiro hindu convertido ao Evangelho. Durante mais de trinta anos, William Carey foi professor de línguas orientais no Colégio de Fort Williams. Fundou, também, o Serampore College para ensinar os obreiros. Sob a sua direção, o colégio prosperou, preenchendo um grande vácuo na evangelização do país. Os seus esforços inspiraram a fundação de outras missões, dentre elas: a Associação Missionária de Londres, em 1795; a Associação Missionária da Holanda, em 1797; a Associação Missionária Americana, em 1810; e a União Missionária Batista Americana, em 1814.

Para conhecer mais da vida e obra de William Carey, visite < http://www.williamcarey.co.uk >.


ASHBEL GREEN SIMONTON, UM PIONEIRO DO EVANGELHO NO BRASIL
por Dom Robinson Cavalcanti

Embora as igrejas protestantes de imigrantes (anglicanas e luteranas) já estivessem estabelecidas no Brasil durante os períodos do Reino Unido e do Primeiro Reinado, é na segunda metade do século XIX (Segundo Reinado e Primeira República) que aportaram aqui os pioneiros do protestantismo de missão aos brasileiros, e em língua portuguesa, são eles:

1.    Igreja Congregacional: Rev. Robert Reid Kalley – 1855;
2.    Igreja Presbiteriana: Rev. Ashbel Green Simonton – 1859;
3.    Igreja Metodista: Rev. Junius E. Newman – 1867;
4.    Igreja Batista: Reverendos William Buck Bagby e Zacarias Clay Taylor;
5.    Igreja Episcopal (Anglicana): Reverendos Lucien Lee Kinsolving (primeiro bispo) e James Watson Morris – 1890.

Esses cinco ramos reformados foram os únicos entre 1855 e 1909, conseguindo se expandir nacionalmente, sob as restrições legais da Constituição Imperial, de 1824, e sob a severa perseguição social durante o período republicano (após 1889).

Simonton destacou-se por organizar o primeiro jornal protestante da América do Sul (1864), a primeira escola paroquial (1866), o primeiro seminário (1867) e ordenou o primeiro pastor brasileiro (1865). Ele desembarcou no Rio de Janeiro em 1859 e morreu de febre amarela em São Paulo, aos 34 anos, em 1867. Uma vida breve, que mudou a história”.

Para conhecer mais a história da evangelização do Brasil, consulte o livro: História da Evangelização do Brasil, Elben Lenz César. Editora Ultimato.

APLICAÇÃO
A evangelização do mundo é uma missão dada por Jesus aos seus discípulos. Todo cristão está encarregado do compromisso de comunicar o evangelho com o seu próximo e sinalizar o reino de Deus em sua cultura, e a Igreja de Jesus está incumbida de anunciar as boas novas do evangelho de Jesus aos confins da terra. Isso significa que de alguma forma nós temos responsabilidade nessa nobre tarefa, seja contribuindo com aqueles que irão fazer essa obra, ou seja, se voluntariando para a obra missionária.

A aula de hoje nos mostra como comunidades e homens de Deus foram usados para a proclamação e promoção do reino de Deus em lugares distantes e até então inalcançados. Dentre esses lugares, encontra-se a nossa terra amada Brasil. Nós somos fruto do esforço e obediência de homens e mulheres que ofertaram sua vida para que o evangelho chegasse até nós. Hoje, com uma igreja nacional desenvolvida, nos cabe a responsabilidade de pensar, sonhar, orar, investir e se voluntariar nessa grande comissão dada a nós pelo próprio Senhor Jesus Cristo, missão essa que vai passando de povo a povo, como numa corrida de bastão, na qual o precioso tesouro que carregamos é as boas novas do reino de Deus.

MEMORIZAR VERSÍCULO
Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.Mateus 28:19-20


QUESTÕES
Quais princípios deveriam nortear a atividade missionária dos moravianos? Você concorda com eles?
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Como William Carey enfrentou a oposição da sua geração a obra missionária?
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Através da breve apresentação biográfica de Carey, como você percebe que ele enxergava a obra missionária?
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Simonton foi um dos missionários pioneiros na evangelização do Brasil. Você sabe quais foram os desafios enfrentados por ele?
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MATERIAL UTILIZADO
·      Cairns, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos, São Paulo 2008. Editora Vida Nova.
·    Até aos confins da terra: as missões morávias, por Alderi de Souza Matos. Universidade Mackenzie < http://www.mackenzie.br/6979.html>
·    William Carey: a vida e a obra do pai das missões modernas. Marcos Granconato. Igreja Batista da Redenção < http://www.igrejaredencao.org.br/ibr>
·  Dom Robinson Cavalcanti. Simonton: um pioneiro do Evangelho. Editora Ultimato < http://www.ultimato.com.br >
·      Williams, Terri. Cronologia da História Eclesiástica, São Paulo 1993. Edições Vida Nova.