Mostrando postagens com marcador Martinho Lutero. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Martinho Lutero. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A NECESSIDADE DE UMA NOVA REFORMA



A Reforma protestante é mais do que um acontecimento histórico restrito à Europa do século 16. Seus questionamentos ainda são aplicáveis aos dias atuais.

Para falar da Reforma protestante é preciso falar de Martinho Lutero, “o gigante da Reforma”. Ele era monge da Ordem de Santo Agostinho e estudioso da teologia e das Sagradas Escrituras. O cenário religioso em que ele vivia o incomodava: via de regra, a religião não passava de adoração externa e física, baseada em símbolos sagrados, mas com pouca ou sem nenhuma importância para a vida pessoal do povo que se dizia cristão; muitos se diziam adoradores de Deus, mas o negavam por meio de suas obras. Proclamavam a existência de Deus, mas viviam como se ele não existisse. No geral, Deus não era adorado nem “em espírito”, nem “em verdade” (João 4.23-24).

Havia algo em especial que deixava Lutero indignado: a venda de indulgências (o perdão da punição pelos pecados). Naqueles dias, era comum a crença de que, depois da morte, as almas não totalmente purificadas de seus pecados tinham de sofrer por um tempo no purgatório. Entretanto, seus familiares poderiam abreviar essas aflições por meio de “cartas de indulgência” ou de perdão concedidas pelo papa. Havia também a possibilidade de alguém comprar o perdão em vida como uma espécie de seguro depois da morte ou de pecados futuros. Como obtê-las? Pagando por elas. Havia muitos vendedores de indulgências nos dias de Lutero. Era uma atividade bastante lucrativa. Esse negócio financiava projetos megalomaníacos de um clero cada vez mais corrompido pela ganância, pela ostentação e pelo amor ao dinheiro.

Lutero decidiu agir. Em 31 de outubro de 1517, ele se dirigiu à Abadia de Wittenberg, na Alemanha, e seguiu uma prática comum entre os acadêmicos de seus dias: apresentar, sustentar e defender teses (enunciados) em público. Ele expôs 95 teses, com as quais procurou discutir e questionar os mandos e desmandos por parte do papa e do clero na venda de indulgências. Ele queria discutir essas teses e promover o debate dessas ideias.

O impacto dessas teses tomou proporções inimagináveis e afetou grandemente a Europa desde então. Lutero desejava incentivar uma reforma, não uma rebelião na Igreja, mas os cismas foram inevitáveis.

Se você nunca leu essas teses, faça isso imediatamente. Elas são facilmente encontradas na Internet. A título de exemplo, eis 12 dessas teses:
1ª
Quando Jesus Cristo, nosso Senhor e Mestre, disse "Arrependei-vos", certamente queria que toda a vida dos seus crentes na terra fosse de contínuo arrependimento.
3ª
Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda espécie de modificações da carne.
6ª
O papa não pode perdoar dívida senão declarar e confirmar aquilo que já foi perdoado por Deus.
24ª
Assim sendo, a maioria do povo é ludibriada com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando se o homem singelo com as penas pagas.
27ª
Pregam futilidades humanas quantos alegam que a alma se vai do purgatório no momento em que a moeda soa ao cair no gazofilácio.
28ª
Certo é que no momento em que a moeda soa no gazofilácio o lucro vem e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; porém, somente a ajuda ou a intercessão da Igreja correspondem à vontade e ao agrado de Deus.
46ª
Deve-se ensinar aos cristãos que se não tiverem fartura, fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências.
50ª
Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa tivesse conhecimento da traficância dos pregadores de indulgências, preferiria ver a catedral de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
52º
Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da Palavra do Senhor.
54ª
Esperar ser salvo mediante cartas de indulgência é inutilidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências, mesmo se o próprio papa oferecesse sua alma como garantia.
86ª
Ainda: Por que o papa, cuja fortuna hoje é mais principesca do que a de qualquer homem rico, não prefere edificar a catedral de S. Pedro de seu próprio bolso em vez de o fazer com o dinheiro de fiéis pobres?
92ª
Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo de Cristo: Paz! Paz! e não há Paz.

Tudo isso foi dito no século 16, no seio da Igreja Romana. Mas algumas dessas teses poderiam ser adaptadas ao atual cenário evangélico. Uma breve analogia revela a veracidade dessa afirmação.
24ª
Assim sendo, a maioria do povo é ludibriada com as pomposas promessas de prosperidade financeira, impressionando-se o homem singelo com as riquezas desses pregadores.
27ª
Pregam futilidades humanas quantos alegam que o crente prosperará no momento em que a moeda soa ao cair no gazofilácio, em que ele fizer sacrifícios financeiros e barganhar com Deus.
28ª
Certo é que no momento em que a moeda soa no gazofilácio o lucro vem para esses pregadores e o amor ao dinheiro cresce e aumenta.
50ª
Deve-se ensinar aos cristãos que se os pastores que pregam a teologia da prosperidade financeira levassem a Palavra de Deus a sério, eles prefeririam ver seu império religioso ser reduzido a cinzas a ser edificado com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
52º
Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo ao dinheiro ou às palavras de autoajuda do que à pregação da Palavra do Senhor.
86ª
Ainda: Por que muitos pastores e apóstolos, cuja fortuna hoje é mais principesca do que a de qualquer milionário, não prefere edificar seus templos gigantescos e suntuosos de seu próprio bolso em vez de fazê-lo com o dinheiro de fiéis pobres?
92ª
Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo de Cristo: Prosperidade! Prosperidade!, quando só há prosperidade real para eles.

A comunidade evangélica, com boas exceções, tem se rendido à Teologia da Prosperidade. Como escrevi no prefácio à segunda edição do livro Supercrentes (Mundo Cristão), do pastor Paulo Romeiro, a aplicação dessa teologia tem produzido líderes ricos, poderosos e gananciosos, e cada vez mais distanciados da simplicidade de Cristo, enxergando a vida piedosa como meio de ganho. Ávidos pelo poder, criaram megaigrejas, compraram mansões, tornaram-se celebridades. O poder os corrompeu. Essa teologia não produziu crentes melhores, mas crentes doentes, confusos e em eterno conflito, pois estes não veem os resultados práticos da aplicação dos princípios que fazem de seus líderes o que eles mesmos gostariam de ser.

Estamos vivendo um período como o que deu origem à Reforma, mas desta vez no meio evangélico. Alas da Igreja evangélica estão cada vez mais sedentas e possuídas pelo poder político e pelas coisas do mundo. Alianças políticas são traçadas a fim de atingir esses objetivos. Eles financiam “Marchas para Jesus” com o intuito de se prostituírem com os poderosos e obterem favores políticos e financeiros. Valem-se das boas intenções de eventos desse tipo para alcançarem seus objetivos nefastos. Muitos afirmam que querem "O Brasil para o Senhor Jesus", mas suas práticas revelam que querem o Brasil do Senhor Jesus.

A mídia, infelizmente, vem se fartando com a quantidade de matéria-prima na área ética produzida por uma liderança corrompida. Foi-se o tempo em que a designação "evangélico" era símbolo de seriedade e respeito. Hoje, é motivo de chacota. É lamentável e vergonhoso ver líderes religiosos sendo acusados de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, entre outras práticas dessas categorias. Os exemplos pululam por aí.

Precisamos orar para que surja uma geração de novos Luteros, de gente que pensa antes de dar aceitação a qualquer nova doutrina ou a qualquer novo líder, por mais carismático que seja. Que surja a geração do "ponham à prova todas as coisas e fiquem com o que é bom" (1Ts 5:21; NVI) e do "não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus..." (1Jo 4:1; NVI).

Que o espírito da Reforma não morra por nossa covardia nos calabouços da Teologia da Prosperidade, das práticas supersticiosas (sal grosso, rosa ungida, óleos milagrosos, lágrimas curativas etc.), dos falsos mestres, apóstolos, pastores, primazes, bispos e missionários (seja qual for a nomenclatura que adotem), que tosquiam seus rebanhos para financiar o culto aos seus egos e sua vida luxuosa.

Mas não podemos olhar para a Reforma pensando apenas nos outros. Precisamos também nos avaliar. Aproveitemos também o momento para refletir nos aspectos de nossa vida que necessitam de reforma. Como anda nosso padrão de vida no Senhor? Estamo-nos parecendo cada vez mais com Jesus? Nosso caráter tem sido moldado à imagem de Cristo? Temos cultivado as disciplinas espirituais, as quais nos conduzem a um estilo de vida que agrada a Deus, como a oração e a leitura da Palavra? Estamos sendo fiéis mordomos, administrando corretamente nossos dons, nossas paixões e nossa personalidade? Estamos lutando contra as tentações, enfrentando os perigos do dinheiro, do sexo e do poder? (Para ajudar nessa tarefa, quero lhe recomendar o livro “Elementos essenciais da liderança: visão, influência, caráter”, de Greg Ogden e Daniel Meyer, publicado pela Editora Vida).

 Aldo Menezes é Presbítero na Diocese do Recife; editor de teologia e filosofia; sendo clérigo na Região Eclesiástica 1, no Arcediagado PB/RN da Diocese.

domingo, 10 de julho de 2011

Reforma Protestante (História da Igreja VI)

Por Pedro Paulo Valente

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 20)

TEXTO BASE: Efésios 2:1-10

INTRODUÇÃO
Um mundo em mudanças, assim foi o ambiente do século XVI, o qual propiciou a reforma da Igreja Ocidental, que já havia sido ensaiada por reformadores sinceros como Wycliffe e Huss, místicos, concílios reformadores e humanistas. Um período marcado pelo otimismo nas mudanças e no rompimento com a velha forma de viver, um período no qual o Cristianismo passou por grandes mudanças.

CONTEXTO
A insatisfação com a Igreja Católica Romana crescia devido o desenvolvimento de um papado corrupto e extravagante, com cobrança abusiva de impostos dos Estados nacionais que começavam a surgir, um culto que se tornara muito formalistas, no qual não se compreendia, de fato, a graça de Deus, sendo uma época marcada pelo medo do castigo divino e do inferno, venda de indulgências e relicários, simonia, entre outros equívocos.

Além dos desvios da Igreja no Ocidente, a Europa passava por uma reorientação cultural em que os homens trocaram a compreensão corporativa, religiosa e medieval da vida por uma visão individualista, secular e moderna. A concepção teocêntrica medieval do mundo, em que Deus era a medida de todas as coisas, foi substituída por uma interpretação antropocêntrica da vida, em que o homem se tornara a medida de todas as coisas. As classes médias se tornaram mais importantes do que a velha sociedade agrária rural do período feudal. O comércio passou a ter mais importância do que a agricultura como meio de subsistência. Adotou-se uma forma humanista, otimista e experimental de ver as coisas desta vida.

Também houve mudanças geográficas. A América acabara de ser descoberta por Colombo, e em meio à era das grandes navegações, os mares do mundo tornaram-se como estradas, abrindo os continentes para a exploração e colonização pelo Velho Mundo.

E por fim, a invenção da imprensa por Gutenberg (1398-1468), teve um papel fundamental no desenvolvimento da renascença, reforma e na revolução científica, lançando as bases materiais para a moderna economia baseada no conhecimento e a disseminação da aprendizagem em massa.

A RAZÃO DA REFORMA
Os reformadores buscavam uma volta da Igreja aos ensinos bíblicos, ao modelo de vida da igreja primitiva, descentralizado o poder das mãos de uma liderança eclesiástica corrupta e distante dos leigos, para uma experiência de fé pessoal e comunitária acessível a todos. Porém as idéias dos reformadores não foram bem aceitas pela Igreja Romana, excomungando e condenando o ensino daqueles que protestavam.

Os reformadores protestantes estabeleceram o que seria conhecido como as “cinco solas” (sola é a palavra latina para única) da Reforma. Estes cinco pontos da doutrina formam o coração da Reforma Protestante. São eles:

1. Sola Scriptura – somente a Bíblia.
Afirma que somente a Bíblia é a única autoridade para todos os assuntos de fé e prática. A Bíblia é o fundamento da fé cristã. Ela é a revelação de Deus para a humanidade e digna de toda aceitação, ela é como uma lâmpada que ilumina os nossos passos e luz que clareia os nossos caminhos (II Tm 3:17, Sl 119).

Quando foi pedido que Lutero se retratasse, ele disse: “A menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou pelo mais claro raciocínio; a menos que eu seja persuadido por meio das passagens que citei; a menos que assim submetam minha consciência pela Palavra de Deus, não posso retratar-me e não me retratarei, pois é perigoso a um cristão falar contra a consciência. Aqui permaneço, não posso fazer outra coisa; Deus me ajude. Amém”.

2. Solus Christus – somente Cristo.
Afirma que a salvação é encontrada somente em Cristo e que unicamente Sua vida sem pecado e expiação substitutiva são suficiente para nossa justificação e reconciliação com Deus o Pai.

Falando de Cristo a Bíblia afirma que “não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4:12). Ele mesmo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (Jo 14:6). Daí a afirmação dos teólogos reformados, “pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus” (1 Tm 2:5).

3. Sola Gratia – somente a graça.
Afirma que a salvação é pela graça de Deus apenas, e que nós somos resgatados de Sua ira apenas por Sua graça. A graça de Deus em Cristo não é meramente necessária, mas é a única causa eficiente da salvação. 

A Bíblia diz: “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus;não por obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2:8-9). O homem e a mulher são aceitos por Deus sem méritos próprios. Tudo que recebemos de Deus é por seu favor, não por nossa bondade. “Todos os nossos atos de justiça são como trapo imundo” (Is 64:6). Como pecadores não podemos nos redimir diante de Deus, mas podemos receber o seu perdão por causa de sua graça estendida a nós em Jesus.

4. Sola Fide – somente a fé.
Afirma que a justificação é pela graça somente, através da fé somente, por causa somente de Cristo. É pela fé em Cristo que Sua justiça é imputada a nós como a única satisfação possível da perfeita justiça de Deus. Devemos tudo a Deus!

A Bíblia diz: “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5:1). O texto bíblico que revolucionou a vida de Lutero diz: “O justo viverá pela fé” (Rm 1:17). “Sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11:6).

5. Soli Deo Gloria – somente a glória de Deus.
Afirma que a salvação é de Deus, e foi alcançada por Deus apenas para Sua glória.

A Bíblia diz: “Eu sou o Senhor; este é o meu nome. Não darei a outro a minha glória nem a imagens o meu louvor” (Is 42:8). Fomos redimidos em Cristo para o louvor da sua glória (Ef 1:12). “Façam tudo para a glória de Deus” (1Co 10:31).

LUTERO E A REFORMA NA ALEMANHA
Contrariando o desejo de seu pai, o alemão Martinho Lutero (1483-1546) e futuro reformador deixou a faculdade de Direito e ingressou em um mosteiro agostiniano em 1505, com a idade de 22 anos. Ele sofria um desespero espiritual agudo, marcado pelo medo do inferno e do juízo de Deus, fomentado pela noção equivocada de que o homem precisa ser ativo na sua salvação, cumprindo boas obras. Obviamente, o sofrimento é decorrente da constatação da nossa incapacidade de agirmos conforme a vontade de Deus. Foi o seu superior no convento, Johann von Staupitz, quem lhe aconselhou a estudar mais a Bíblia e a não passar excessivas horas em penitência frenética. Em 1507, Lutero ordenou-se padre e, no ano seguinte, começou a ensinar teologia na Universidade de Wittenberg, onde também conseguiria o doutorado anos mais tarde.

Nos anos precedentes à publicação das 95 teses, Lutero se dedicou a ensinar os livros da Bíblia no vernáculo, porque até então eles só eram ensinados em Latim e, para tal, começou a estudar as línguas originais das Escrituras. Assim, com esse encontro com a desconhecida Palavra de Deus, foi desenvolvendo a idéia de que a maior autoridade da fé estava naquelas letras, Sola Scriptura. Entre 1515 e 1517, lecionou sobre Romanos, Gálatas e Hebreus e foi lendo o verso dezessete do primeiro capítulo de Romanos que ele descobriu o alívio para suas crises espirituais, o verso que lhe causou mais impacto gerando uma verdadeira mudança de pensamento: 'o justo viverá pela fé' independentemente das boas obras. Isso ocorreu depois da sua decepcionante estadia em Roma, aonde a ordem o havia enviado a negócios. Na sede da Igreja, ele pôde perceber um pouco de sua corrupção moral e doutrinária e a luxúria do sacerdócio; essa percepção o levou a compreender a necessidade de uma reforma eclesiástica.

Por isso, quando, em 1517, o dominicano Tetzel, a fim de arrecadar recursos para a reforma da catedral de São Pedro em Roma, começou a venda de indulgências próximo a Wittenberg, Lutero reagiu vorazmente. O protesto do reformador, ao escrever as 95 teses e convocar um debate, não era apenas contra a imoralidade e exploração do vendedor de perdão em relação aos camponeses alemães pobres, ele estava combatendo uma teologia que dava suporte àquela prática.

A recente invenção da imprensa foi fundamental para a divulgação da reforma. Após a publicação das 95 teses, o final inevitável seria a ruptura com Roma, embora Lutero não o imaginasse nem o quisesse em princípio. Na Dieta de Augsburg (1518), Lutero se recusou a se retratar a menos que lhe provassem pelas Escrituras que ele estava errado. No mesmo interrogatório, ele também negou que o papa fosse a autoridade final em questões de fé e moral, e a utilidade dos sacramentos sem fé.

No ano seguinte, Lutero se viu obrigado a reconhecer que seus pensamentos eram muito semelhantes aos de John Hus – condenado havia cem anos pelo Concílio de Constança e queimado vivo. “Eu sou um hussita!” foram as palavras ditas por Lutero que, de fato, selaram a sua ruptura com Roma, pois, dessa maneira, demonstrava o seu repúdio tanto à autoridade dos concílios gerais quanto a do papa. Mas, cabe ressaltar que o reformador não rejeitou a tradição e a história de 1500 anos da Igreja, apenas repudiou a teoria das duas fontes da tradição, isto é, que ao lado da tradição bíblica há uma tradição extra bíblica transmitida oralmente ao longo dos séculos.

A excomunhão de Lutero veio com a bula Exsurge Domine do papa Leão X, em junho de 1520. As publicações do reformador foram queimadas em Colônia, ao passo que ele queimou em público a referida bula papal em dezembro do mesmo ano.

Sem dúvida alguma, Lutero foi um gigante da igreja devido à sua influência tanto sobre épocas posteriores quanto sobre o seu próprio tempo. As igrejas luteranas da Alemanha e dos países escandinavos (Dinamarca, Noruega, Suécia e Finlândia) nasceram do seu trabalho. Foi para elas que ele elaborou os Catecismos Maior e Menor; preparou apostilas para ajudar os ministros em seus sermões; desenvolveu um sistema de governo eclesiástico; deu a Bíblia ao povo alemão, que em muito contribui para padronizar a língua, além de compor belos hinos, como “Castelo Forte”.

Além disso, estimulou Filipe Melanchton (1497-1560), um teólogo da Reforma, a criar um sistema universal de educação elementar para que o povo pudesse aprender a ler a Bíblia em Alemão.

Sugestão
Para conhecer mais sobre Martinho Lutero, verifique a aula anterior sobre sua biografia - aqui

ZUÍNGLIO, CALVINO E A REFORMA NA SUÍÇA
A Reforma Protestante na pátria suíça tem dois personagens principais, Zuínglio e Calvino. Zuínglio nasceu em 1484 e, com uma boa formação humanista, tornou-se um sacerdote. Foi por essa influência humanista que o reformador se encontrou com a Bíblia. Com efeito, o encontro com a Palavra de Deus levaria muitos naquela época a questionar os abusos eclesiásticos, tradições anti-bíblicas e o papado. Não tardaria para Zuínglio levantar sua corajosa voz. Ele começou a se opor às indulgências enquanto era pároco da igreja de Einsiedeln, entre os anos 1516 e 1518.

O ensino de Zuínglio, a partir da autoridade exclusiva das Escrituras Sagradas, começou a produzir reformas na igreja local de Zurique, inclusive sobre a liturgia que, começando pela retirada das imagens, passando pela rejeição da doutrina medieval da transubstanciação, culminou com a supressão da missa em 1525. As autoridades católicas evidentemente reagiram convocando o reformador para um debate público em que o lado vencedor seria escolhido pelo conselho da cidade como a forma legítima da religião. Para esse debate, Zuínglio preparou 67 artigos em que defendia, entre outras coisas, a salvação pela fé, a autoridade da Bíblia, a supremacia de Cristo na Igreja, o casamento dos sacerdotes e condenava todas as práticas que não repousassem sobre a Palavra de Deus. É óbvio que os papistas estavam convictos de que venceriam, entretanto, perderam e a reforma da Igreja de Zurique foi legalizada pela autoridade civil. A mesma vitória se repetiu mais tarde nas cidades de Berna e Basiléia.

Zuínglio, aos 47 anos (1531), morreu prematuramente em combate enquanto trabalhava como capelão na guerra entre os cantões protestantes e católicos do território suíço. Mas estava para se levantar outra poderosa voz que naquela terra se tornaria o teólogo da Reforma por excelência: Jean Cauvin (1509-1564), simplesmente, João Calvino. Como um reformador da segunda geração, ele sentia ainda mais a necessidade de sistematizar a teologia reformada, o que fez prodigiosamente trazendo contribuições duradouras para o Corpo de Cristo. Aos 27 anos, ele publicou as Institutas (Instituições da Religião Cristã), uma obra que revisaria durante toda a sua vida e que terminaria sendo uma colossal descrição da fé cristã. As Institutas subdividem-se em quatro livros seguindo a ordem temática do credo apostólico. O primeiro livro trata sobre o Deus criador e sua soberania sobre toda a criação; o segundo, sobre a necessidade de salvação para o homem caído através de Jesus; o terceiro, sobre a maneira por que o homem é redimido; e o quarto livro, sobre a Igreja e seu relacionamento com a sociedade.

O mote cunhado por Calvino “post tenebras lux” (luz após as trevas) ilustra o que a teologia reformada fez naquele contexto em que a Igreja gemia por reformas. Ninguém escreveu mais do que ele naquele período. Além das Institutas, Calvino escreveu vários comentários de livros bíblicos, inúmeros sermões, folhetos e tratados, cartas pastorais e escritos litúrgicos e catequéticos. Era acima de tudo um pastor consciente de que a única forma de recuperar a vida moral e religiosa do povo era instruindo-o na “escola da fé”. Exerceu o seu ministério em Genebra, mas era francês e fora em Paris que aceitara a mensagem evangélica.

Em 1533, no Dia de Todos os Santos, Nicolas Cop, amigo de Calvino e reitor da Universidade de Paris, fez um caloroso discurso que chocou os seus ouvintes, dentre eles também estava o futuro reformador. Cop não louvou os santos, mas proclamou a Jesus Cristo como o único mediador com Deus, um verdadeiro insulto aos defensores da ortodoxia católica. Como estava ligado a Cop, Calvino também teve que fugir às pressas de Paris para salvar a sua vida, indo parar em Basileia. Três anos depois, viajando de Paris para Estraburgo, teve que desviar da rota por causa de manobras militares de exércitos hostis à Reforma e acabou chegando a Genebra, onde pretendia passar apenas uma noite. Aquela cidade havia recentemente abraçado a Reforma e agora recebia aquele que se tornaria o seu maior líder. Ali, Calvino faria os seus famosos sermões e Genebra, sob a sua liderança, tornar-se-ia um refúgio para os perseguidos ao se considerar uma cidade modelo da Reforma.

Curiosidade
A cidade de Genebra havia abraçado a Reforma através do voto unânime de uma assembléia realizada em maio de 1536. Guilherme Farel (1489-1565) era o líder desse movimento reformador na cidade, e sabendo que Calvino estaria em Genebra por uma noite, foi até seu quarto de hotel e lhe implorou que permanecesse na cidade para que o ajudasse a consolidar a Reforma recentemente abraçada. Calvino ficou chocado com a idéia, pois se sentiu despreparado para a tarefa. Ele pensava que poderia fazer mais pela igreja através de seus tranqüilos estudos e escritos. Nesse momento, Farel trovejou a ira de Deus sobre Calvino com palavras que este jamais esqueceria – Deus amaldiçoaria o seu lazer e os seus estudos se em tão grave emergência ele se retirasse, recusando-se a ajudar. A partir daquele momento, o destino de Calvino ficou ligado a Genebra. (Alderi de Souza Matos, historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil)
The wall of the Reformers in Geneva
© Photo Geneva Civil security
Guillaume Farel, Jean Calvin, Theodore de Bère and John Knox (from left to right)

A FÉ REFORMADA FORA DA SUIÇA
Enquanto o luteranismo ganhou terreno entre os escandinavos, o calvinismo fez adeptos durante o século XVI em outras regiões européias, especialmente no vale do Reno na Alemanha, na Hungria, na Morávia, na França, na Holanda, na Escócia, na Irlanda do Norte e, por um breve período, na Polônia.

A fé reformada na França
Embora o impulso para a Reforma francesa de início tenha vindo das idéias dos humanistas bíblicos e de Lutero, a conversão de João Calvino deu à Reforma um escritor capaz de popularizá-la, tanto que em 1532 os valdenses do sul da França aceitaram o calvinismo. Foi a perseguição aos protestantes franceses que levou Calvino a publicar a primeira edição das suas Institutas em 1536; sua intensão era defender os cristãos franceses como pessoas leais e sugerir o fim da perseguição.

A partir de 1560 os protestantes franceses passaram a ser conhecidos como huguenotes, e havia cerca de 400 mil protestantes. Com constantes perseguições, como a terrível carnificina de São Bartolomeu em 1572, na qual milhares de huguenotes foram assassinados, e as constantes intervenções do estado proibindo a fé protestante, o protestantismo reformado não têm exercido grande influencia na França, sendo os huguenotes uma minoria da população.

A fé reformada na Escócia
O primeiro pregador do protestantismo na Escócia foi Patrick Hamilton, um jovem erudito, simpatizante de Lutero, que foi morto na fogueira em 1528. O pioneiro da fé reformada foi George Wishart, um jovem culto que estudou na Suíça e lecionou na Universidade de Cambridge. Condenado por heresia foi igualmente queimado vivo, em 1546. Sua vida, pregação e morte causaram vívida impressão no povo escocês. O líder seguinte foi John Knox, nascido entre 1505 e 1515, que havia sido guarda-costas de Wishart. Depois de passar um ano e meio como escravo em um navio francês, ele fugiu para a Inglaterra, onde se tornou capelão do jovem rei Eduardo VI. No reinado sangrento de Maria Tudor (1553-1558), foi para o continente e passou três anos em Genebra, onde estudou aos pés de Calvino. Pastoreou uma igreja de refugiados de língua inglesa e retornou à Escócia em 1559, tornando-se o líder da Reforma em seu país. Naqueles dias conturbados, ele clamou: “Ó Deus, dá-me a Escócia ou morrerei!” 

Em agosto de 1560, sob a liderança de Knox, o Parlamento renunciou ao catolicismo e adotou a fé reformada para a Escócia. Em poucos dias, Knox e outros quatro homens redigiram a Confissão Escocesa, nitidamente calvinista, que foi prontamente adotada pelo Parlamento. Em dezembro reuniu-se a primeira Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana da Escócia, que redigiu o Livro de Disciplina ou constituição da igreja. Compareceram apenas seis pastores e 36 presbíteros. Na época, havia somente doze ministros protestantes em todo o país. No ano seguinte, subiu ao trono a rainha Maria Stuart, que se esforçou por restaurar o catolicismo, no que foi firmemente combatida por Knox. Forçada a abdicar, Maria fugiu para a Inglaterra, onde foi executada muitos anos mais tarde. Knox continuou o seu trabalho de reformador e pregador até a sua morte em 1572. Diante de seu túmulo, um líder declarou: “Aqui jaz alguém que nunca temeu a face do homem”. (Alderi de Souza Matos, historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil).

A fé reformada na Holanda
A fé reformada começou a se fazer sentir em 1523, através de contatos do estudioso holandês Hinne Rode com o reformador suíço Ulrico Zuínglio, e no final da década de 1550, já havia se implantado solidamente, principalmente nas regiões de língua francesa ao sul. Muitos neerlandeses foram influenciados por Calvino em Estrasburgo e Genebra e pelo reformador polonês Jan Laski em Emden e Londres. Em 1561, o belga Guido de Brès escreveu uma confissão de fé “para os fiéis que estão dispersos por todos os Países Baixos”. Esse documento, conhecido como Confissão Belga, foi adotado por um sínodo em Antuérpia, em 1566, vindo a se tornar o principal padrão doutrinário dos calvinistas holandeses. Seu autor foi martirizado em 1567. 

O primeiro sínodo reformado holandês reuniu-se em Turcoing em 1563, mas os dois primeiros sínodos gerais reuniram-se em Wesel (1568) e Emden (1571), ambos fora das fronteiras do país. Este último foi especialmente importante, porque efetivamente uniu todas as congregações em uma Igreja Nacional, adotando três documentos doutrinários: a Confissão Belga, o Catecismo de Genebra (para as igrejas de idioma francês) e o Catecismo de Heidelberg (para as de língua holandesa). Seguindo o modelo francês, havia quatro níveis administrativos: consistórios locais, classes (presbitérios), sínodos regionais e sínodo nacional. 
Guilherme de Orange

O nascimento da Igreja Reformada Holandesa coincidiu com um período de intensas lutas entre os neerlandeses e seu soberano, o rei católico espanhol Filipe II. Este havia declarado que preferia morrer cem mortes a ser um rei de hereges. Em 1566, os nacionalistas entraram em guerra contra os espanhóis. No ano seguinte, Filipe enviou o implacável Duque de Alba para destruir a heresia e sufocar a resistência. A ditadura que se seguiu (1567-1573) custou milhares de vidas, mas não conseguiu vencer a rebelião. Sob a liderança de Guilherme de Orange, que abraçou o calvinismo em 1573, o Holanda declarou a sua independência em 26 de julho de 1581. Guilherme foi assassinado por um fanático em 1584, sendo sucedido por seu filho Maurício, que consolidou a independência da nova República. 

Em conseqüência das lutas político-religiosas, os Países Baixos se subdividiram em três nações: Bélgica e Luxemburgo (católicas) e Holanda (majoritariamente protestante). Sob o influxo da fé reformada e da recém-conquistada autonomia política, a Holanda se tornou rapidamente uma das nações mais prósperas da Europa, criando um império comercial que se estendeu por todos os continentes. Tornou-se também uma das regiões da Europa marcadas por maior tolerância religiosa, atraindo dissidentes e refugiados de diversos países. (Alderi de Souza Matos, historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil).

APLICAÇÃO
A Reforma provocou mudanças vitais que fizeram com que a Igreja Católica Romana universal e única fosse substituída na Europa ocidental por igrejas nacionais. Essas igrejas tomaram a Bíblia como autoridade final e entendiam que não era necessário nenhum mediador humano entre o homem e Deus para a obtenção da salvação, já adquirida por Cristo na cruz para todos.

Precisamos lembrar sempre que a Igreja é de Jesus (Mt 16:18). Ela deve ser edificada nos pilares bíblicos: somente a Bíblia, somente Cristo, somente a graça, somente a fé, e, somente a glória de Deus. Qualquer outro evangelho deve ser rejeitado (Gl 1.8).

MEMORIZAR VERSÍCULO
Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. Efésios 2:8-9.

QUESTÕES
Quais as divergências dos reformadores com a Igreja Católica?
_________________________________________________________________
Quais os cinco pilares da Reforma Protestante?
_________________________________________________________________
O que a vida de Lutero e Calvino pode lhe inspirar no seu dia a dia?
_________________________________________________________________
Qual a importância de ler e estudar a Bíblia para o desenvolvimento da sua fé?
_________________________________________________________________
Como a Igreja deve enfrentar as mudanças que acontecem no mundo?
_________________________________________________________________

MATERIAL UTILIZADO
• Cairns, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos, São Paulo 2008. Editora Vida Nova.
• Textos de José Cristiano de Oliveira Sampaio escritos especialmente para a comemoração da Reforma Protestante no ano de 2010. Publicados originalmente no boletim da Igreja Esperança/BH.
• Movimento Reformado, por Alderi de Souza Matos. Universidade Mackenzie
• Matos, Alderi Souza. Amando a Deus e ao Próximo: João Calvino e o Diaconato em Genebra. Revista Fides Reformata. Volume II, nº2, 1997.
• Williams, Terri. Cronologia da História Eclesiástica, São Paulo 1993. Edições Vida Nova.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

As 95 Teses de Martinho Lutero


As 95 Teses afixadas por Martinho Lutero na Abadia de Wittenberg a 31 de outubro de 1517, fundamentalmente "Contra o Comércio das Indulgências":

Movido pelo amor e pelo empenho em prol do esclarecimento da verdade, discutir-se-á em Wittemberg, sob a presidência do Rev. Padre Martinho Lutero, o que segue. Aqueles que não puderem estar presentes para tratarem o assunto verbalmente conosco, o poderão fazer por escrito.

Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

1ª Tese
Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-vos... etc., certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo e ininterrupto arrependimento.

2ª Tese
E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como referindo-se ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a cargo dos sacerdotes.

3ª Tese
Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda sorte de mortificação da carne.

4ª Tese
Assim sendo, o arrependimento e o pesar, isto é, a verdadeira penitência, perdura enquanto o homem se desagradar de si mesmo, a saber, até à entrada para a vida eterna.

5ª Tese
O papa não quer e não pode dispensar de outras penas além das que impôs ao seu alvitre ou nem acordo com os cânones, que são estatutos papais.

6ª Tese
O papa não pode perdoar dívida, senão declarar e confirmar aquilo que já foi perdoado por Deus, ou então o faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes casos, se desprezados, a dívida em absoluto deixaria de ser anulada ou perdoada.

7ª Tese
Deus a ninguém perdoa a dívida sem que ao mesmo tempo o subordine, em sincera humildade, ao ministro, seu substituto.

8ª Tese
Cânones poenitentiales, que são as ordenanças de prescrição da maneira em que se deve confessar e expiar, apenas são impostos aos vivos, e, de acordo com as mesmas ordenanças, não dizem respeito aos moribundos.

9ª Tese
Eis por que o Espírito Santo nos faz bem mediante o papa, excluindo este de todos os seus decretos ou direitos o artigo da morte e da necessidade suprema.

10ª Tese
Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que reservam e impõe aos moribundos penitências canônicas ou para o purgatório a fim de ali serem cumpridas.

11ª Tese
Este joio, que é o de transformar a penitência e satisfação, prevista pelos cânones ou estatutos, em penitência ou penas do purgatório, foi semeado enquanto os bispos dormiam.

12ª Tese
Outrora canônica poenae, ou seja, penitência e satisfação por pecados cometidos, eram impostos, não depois, mas antes da absolvição, com a finalidade de provar a sinceridade do arrependimento e do pesar.

13ª Tese
Os moribundos tudo satisfazem com a sua morte e estão mortos para o direito canônico, sendo, portanto, dispensados, com justiça, de sua imposição.

14ª Tese
Piedade ou amor imperfeitos da parte daquele que se acha às portas da morte, necessariamente resultam em grande temor; logo, quanto menos o amor, tanto maior o temor.

15ª Tese
Este temor e espanto em si tão só, sem nos referirmos a outras coisas, basta para causar o tormento e o horror do purgatório, pois se avizinham da angústia do desespero.

16ª Tese
Inferno, purgatório e céu parecem ser tão diferentes quanto o são um do outro o desespero completo, incompleto ou quase desespero e certeza.

17ª Tese
Parece que assim como no purgatório diminuem a angústia e o espanto das almas, também deve crescer e aumentar o amor.

18ª Tese
Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas razões e nem pela Escritura, que as almas do purgatório se encontram fora da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor.

19ª Tese
Parece ainda não ter sido provado que todas as almas do purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem mais por ela, não obstante nós termos esta certeza.

20ª Tese
Por isso o papa não quer dizer e nem compreender com as palavras “perdão plenário de todas as penas” o perdão de todo o tormento, mas tão só as penas por ele impostas.

21ª Tese
Eis por que erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante indulgência do papa.

22ª Tese
Com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às almas do purgatório das que, segundo os cânones da igreja, deviam ter expiado e pago na presente vida.

23ª Tese
Verdade é que se houver qualquer perdão plenário das penas, este apenas será dado aos mais perfeitos, que são muitos poucos.

24ª Tese
Logo, a maioria do povo é ludibriado com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando-se o homem singelo com as penas pagas.

25ª Tese
Exatamente o mesmo poder geral que o papa tem sobre o purgatório, qualquer bispo e cura d’almas o tem no seu bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer para com os seus em particular.

26ª Tese
O papa faz muito bem em não conceder o perdão às almas em virtude do poder das chaves (coisa que não possui), mas pela ajuda ou em forma de intercessão.

27ª Tese
Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório.

28ª Tese
Certo é que, no momento em que a moeda soa na caixa, vem lucro, e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; a ajuda, porém, ou a intercessão da igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus.

29ª Tese
E quem sabe, se todas as almas do purgatório querem ser libertadas, quando há quem diga o que sucedeu com S. Severino e Pascoal.

30ª Tese
Ninguém tem certeza da suficiência do arrependimento e pesar verdadeiros, muito menos certeza pode ter de haver alcançado pleno perdão dos seus pecados.

31ª Tese
Tão raro como existe alguém que possui arrependimento e pesar verdadeiros, tão raro também é aquele que verdadeiramente alcança indulgência, sendo bem poucos os que se encontram.

32ª Tese
Irão para o diabo, juntamente com os seus mestres, aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgência.

33ª Tese
Há que acautelar-se muito e ter cuidado daqueles que dizem: A indulgência do papa é a mais sublime e mais preciosa graça ou dádiva de Deus, pela qual o homem é reconciliado com Deus.

34ª Tese
Tanto assim que a graça da indulgência apenas se refere à pena satisfatória, estipulada por homens.

35ª Tese
Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar.

36ª Tese
Todo o cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados e sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência.

37ª Tese
Todo e qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, é participante de todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem breve de indulgência.

38ª Tese
Entretanto se não devem desprezar o perdão e a distribuição deste pelo papa. Pois, conforme declarei, o seu perdão consiste numa declaração do perdão divino.

39ª Tese
Ë extremamente difícil, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a grande riqueza da indulgência e, ao contrário, o verdadeiro arrependimento e pesar.

40ª Tese
O verdadeiro arrependimento e pesar buscam e amam o castigo; mas a profusão da indulgência livra das penas e faz com que se as aborreça, pelo menos quando há oportunidade para tanto.

41ª Tese
É necessário pregar cautelosamente sobre a indulgência papal, para que o homem singelo não julgue erradamente ser a indulgência preferível às demais obras de caridade ou melhor do que elas.

42ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos, não ser pensamento e opinião do papa que a aquisição de indulgências de alguma maneira possa ser comparada com qualquer obra de caridade.

43ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos, proceder melhor quem dá aos pobres ou empresta ao necessitado do que os que compram indulgência.

44ª Tese
É que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena.

45ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que vê seu próximo padecer necessidade e a despeito disto gasta dinheiro com indulgências, não adquire indulgência do papa, mas desafia a ira de Deus.

46ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem fartura, fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências.

47ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos ser a compra de indulgência livre e não ordenada.

48ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que se o papa precisa conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa do que de dinheiro.

49ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos serem muito boas as indulgências do papa enquanto o homem não confiar nelas; mas muito prejudiciais quando, em conseqüência delas, se perde o temor de Deus.

50ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que se o papa tivesse conhecimento da traficância dos apregoadores de indulgência, preferiria ver a basílica de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, por um dever seu, preferiria distribuir o seu dinheiro aos que em geral são despojados do dinheiro pelos apregoadores de indulgência, vendendo, se necessário, a própria basílica de São Pedro.

52ª Tese
Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências e o próprio papa oferecessem sua alma como garantia.

53ª Tese
São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da prédica de indulgências proíbem a palavra de Deus nas demais igrejas.

54ª Tese
Comete-se injustiça contra a palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da palavra do Senhor.

55ª Tese
A intenção do papa não pode ser outra do que celebrar a indulgência, que é a coisa menor, com um toque de sino, uma pompa, uma cerimônia, enquanto o evangelho, que é o essencial, importa ser anunciado mediante cem toques de sino, centenas de pompas e solenidades.

56ª Tese
Os tesouros da igreja, dos quais o papa tira e distribui as indulgências, não são bastante mencionados e nem suficientemente conhecidos na Igreja de Cristo.

57ª Tese
É evidente que não são bens temporais, porquanto muitos pregadores não os distribuem com facilidade, antes os ajuntam.

58ª Tese
Também não são os merecimentos de Cristo e dos santos, porquanto este sempre são suficientes, e, independente do papa, operam graça do homem interior e são a cruz, a morte e o inferno do homem exterior.

59ª Tese
São Lourenço chama aos pobres, os quais são membros da Igreja, tesouros da Igreja, mas no sentido em que a palavra era usada na sua época.

60ª Tese
Afirmamos com boa razão, sem temeridade ou leviandade, que estes tesouros são as chaves da Igreja, que lhe foram dadas pelo merecimento de Cristo.

61ª Tese
Evidente é que, para o perdão das penas e para a absolvição em determinados casos, o poder do papa por si só basta.

62ª Tese
O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus.

63ª Tese
Este tesouro, porém, é muito desprezado e odiado, porquanto faz com que os primeiros sejam os últimos.

64ª Tese
Enquanto isso o tesouro das indulgências é notoriamente o mais apreciado, porque faz com que os últimos sejam os primeiros.

65ª Tese
Por essa razão os tesouros evangélicos foram outrora as redes com que se apanhavam os ricos e abastados.

66ª Tese
Os tesouros das indulgências, porém, são as redes com que hoje se apanham as riquezas dos homens.

67ª Tese
As indulgências, apregoadas pelos seus vendedores como a mais sublime graça, decerto assim são consideradas porque lhes trazem grandes proventos.

68ª Tese
Nem por isso semelhante indulgência é a mais ínfima graça, comparada com a graça de Deus e a piedade da cruz.

69ª Tese
Os bispos e os sacerdotes são obrigados a receber os comissários das indulgências apostólicas com toda reverência.

70ª Tese
Entretanto tem muito maior dever de conservar abertos os olhos e ouvidos, para que estes comissários, em vez de cumprirem as ordens recebidas do papa, não apregoem os seus próprios sonhos.

71ª Tese
Quem levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito.

72ª Tese
Aquele, porém, que se insurgir contra as palavras insolentes e arrogantes dos apregoadores de indulgências, seja abençoado.

73ª Tese
Da mesma maneira em que o papa usa de justiça ao fulminar com a excomunhão aos que em prejuízo do comércio de indulgências procedem astuciosamente.

74ª Tese
Muito mais deseja atingir com o desfavor e a excomunhão àqueles que, sob pretexto de indulgências, prejudicam a santa caridade e a verdade pela sua maneira de agirem.

75ª Tese
Considerar a indulgência do papa tão poderosa, a ponto de absolver alguém dos pecados, mesmo que (coisa impossível de se expressar) tivesse deflorado a mãe de Deus, significa ser demente.

76ª Tese
Bem ao contrário afirmamos que a indulgência do papa nem mesmo pode anular o menor pecado venial no que diz respeito a culpa que representa.

77ª Tese
Afirmar que nem mesmo São Pedro, se no momento fosse papa, poderia dispensar maior indulgência, constitui insulto contra São Pedro e o papa.

78ª Tese
Dizemos, ao contrário, que o atual papa, e todos os que o sucederam, é detentor de muito maior indulgência, isto é, o evangelho, dom de curar, etc., de acordo com o que diz 1 Corinto 12.6-9.

79ª Tese
Alegar ter a cruz de indulgências, erguida e adornada com as armas do papa, tanto valor como a própria cruz de Cristo é blasfêmia.

80ª Tese
Os bispos, padres e teólogos que consentem em semelhante linguagem diante do povo, terão de prestar contas desta atitude.

81ª Tese
Semelhante pregação, a enaltecer atrevida e insolentemente a indulgência, torna difícil até homens doutos defenderem a honra e dignidade do papa contra a calúnia e as perguntas mordazes e astutas dos leigos.

82ª Tese
Haja vista exemplo como este: Por que o papa não livra duma só vez todas as almas do purgatório, movido pela santíssima caridade e considerando a mais premente necessidade das mesmas, havendo santa razão para tanto, quando, em troca de vil dinheiro para a construção da basílica de São Pedro, livra inúmeras delas, logo por motivo bastante infundado?

83ª Tese
Outrossim: Por que continuam as exéquias e missas de ano em sufrágio das almas dos defuntos e não se devolve o dinheiro recebido para esse fim ou não se permite os doadores busquem de novo os benefícios ou prebendas oferecidos em favor dos mortos, quando já não é justo continuar a rezar pelos que se acham remidos?

84ª Tese
E: Que nova santidade de Deus e do papa é esta a consentir a um ímpio e inimigo resgate uma alma piedosa e agradável a Deus por amor ao dinheiro e não livrar esta mesma alma piedosa e amada por Deus do seu tormento por amor espontâneo e sem paga?

85ª Tese
E: Por que os cânones de penitência, isto é, os preceitos de penitência, que faz muito caducaram e morreram de fato pelo desuso, tornam a remir mediante dinheiro, pela concessão de indulgência, como se continuassem em vigor e bem vivos?

86ª Tese
E: Por que o papa, cuja fortuna é maior do que a de qualquer Creso, não prefere construir a basílica de São Pedro de seu próprio bolso em vez de o fazer com o dinheiro de cristãos pobres?

87ª Tese
E: Que perdoa ou concede o papa pela sua indulgência àqueles que pelo arrependimento completo tem direito ao perdão ou indulgência plenária?

88ª Tese
Afinal: Que benefício maior poderia receber a igreja se o papa, que atualmente o faz uma vez ao dia cem vezes ao dia concedesse aos fiéis este perdão a título gratuito?

89ª Tese
Visto o papa visar mais a salvação das almas mediante a indulgência do que o dinheiro, por que razão revoga os breves de indulgência outrora por ele concedidos, quando tem sempre as mesmas virtudes?

90ª Tese
Desfazer estes argumentos muito sutis dos leigos, recorrendo apenas à força e não por razões sólidas apresentadas, significa expor a igreja e o papa ao escárnio dos inimigos e desgraçar os cristãos.

91ª Tese
Se, portanto, a indulgência fosse apregoada no espírito e sentido do papa, estas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.

92ª Tese
Fora, pois, com todos este pregadores que dizem à igreja de Cristo: Paz! Paz! Sem que haja paz!

93ª Tese
Abençoados, porém, sejam todos os pregadores que dizem à igreja de Cristo: Cruz! Cruz! Sem que haja cruz!

94ª Tese
Admoeste-se os cristãos a que se empenhem em seguir seu Cabeça, Cristo, através da cruz, da morte e do inferno;

95ª Tese
E desta maneira mais esperem entrar no reino dos céus por muitas aflições do que confiando em promessas de paz infundadas.

domingo, 8 de maio de 2011

Martinho Lutero, 1483-1546 d.C. (Biografia III)

Por Pedro Paulo Valente

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 13)

Lutero em 1529 por Lucas Cranach

“Eu estou atado as Escrituras”

TEXTO BASE: Romanos 3:21-31

OS PRIMEIROS ANOS
Martinho Lutero (em alemão: Martin Luther) nasceu no dia 10 de novembro de 1483 em Eisleben, Alemanha. A posição e condição de seus pais eram originalmente humildes, e a profissão de seu pai era trabalhar nas minas; porém, é provável que por seu esforço e trabalho ajuntara uma fortuna para a sua família. Lutero foi prontamente iniciado nos estudos, e aos treze anos de idade foi enviado a uma escola de Magdeburgo, e dali a Eisenach, na Turíngia, onde permaneceu por quatro anos e recebeu o ensino superior de Latin, condição essencial para a sua entrada na universidade.

Em 1501, foi enviado à Universidade de Erfurt, onde passou pelos costumeiros cursos de lógica e filosofia. Aos vinte anos de idade, recebeu o título de licenciado, e passou logo a ensinar a filosofia de Aristóteles, ética e outros assuntos ligados à filosofia. Posteriormente, por indicação de seus pais, dedicou-se à lei civil, a fim de trabalhar como advogado; porém, foi separado desta atividade devido ao incidente relatado a seguir.

VOCAÇÃO MONÁSTICA
Ao andar certo dia pelos campos, foi lançado ao solo por um raio, e ficou tão apavorado que prometeu a Santa Ana tornar-se monge caso fosse poupado. Este fato afetou-o de tal modo que se retirou do mundo e enclausurou-se junto à ordem dos eremitas de Santo Agostinho.

Dedicou-se ali à leitura das obras de Santo Agostinho e dos escolásticos; porém, ao vasculhar a biblioteca, encontrou, acidentalmente, uma cópia da Bíblia latina que jamais havia visto antes. Esta atraiu poderosamente a sua curiosidade; leu-a ansiosamente e sentiu-se atônito ao perceber que apenas uma pequena porção das Escrituras era ensinada ao povo.

Fez a sua profissão de fé no mosteiro de Erfurt, após ter sido noviço durante um ano; e tomou ordens sacerdotais, ao celebrar a sua primeira missa em 1507. Um ano mais tarde lecionou teologia por um semestre na nova universidade de Wittenberg. Assim prosseguiu os seus estudos em Erfurt pelo período de quatro anos no mosteiro dos agostinianos, principalmente teológicos.

O PAVOR DO PECADO
Em Erfurt havia certo ancião no convento dos agostinianos, com quem Lutero, que pertencia à mesma ordem, como frade agostiniano, conversou sobre vários assuntos, especialmente a remissão dos pecados. Sobre este tema, este sábio padre foi franco com Lutero, ao dizer-lhe que o expresso mandamento de Deus é que cada homem creia particularmente que os seus pecados foram perdoados em Cristo; disse-lhe ainda que esta interpretação particular fora confirmada por São Bernardo: “Este é o testemunho que o Espírito Santo te dá em teu coração, quando diz: Os teus pecados te são perdoados. Porque este é o ensino do apóstolo, que o homem é livremente justificado pela fé”.

Estas palavras não serviram somente para fortalecer Lutero, mas também para ensinar-lhe o pleno sentido do ensino do apóstolo Paulo, que insiste tantas vezes na seguinte frase: “Somos justificados pela fé”. E, após ler as exposições de muitos sobre esta passagem, logo percebeu, tanto pelo discurso do ancião como pelo conselho que recebeu em seu espírito, o quão vãs eram as interpretações que antes havia lido nos trabalhos dos escolásticos. E assim, pouco a pouco, ao ler e comparar os ditos e os exemplos dos profetas e dos apóstolos, com uma contínua invocação a Deus, e com a excitação da fé pelo poder da oração, deu-se conta desta doutrina com a maior evidência.

DECEPICIONANTE VISITA A ROMA
Entre 1510-11, sete mosteiros de sua ordem tiveram uma divergência com o seu vigário geral. Lutero foi escolhido para ir a Roma e defender a sua causa. Lá ele viu um pouco da corrupção e luxúria da Igreja Romana e começou a compreender a necessidade de uma reforma. Passou muito tempo visitando igrejas e vendo as numerosas relíquias que estavam em Roma. Ficou chocado com a leviandade dos sacerdotes italianos, capazes de rezar várias missas enquanto ele rezava uma.

LUTERO E A BÍBLIA
Em 1511, Lutero foi transferido para Wittenberg. Durante o ano seguinte, tornou-se professor de Bíblia e recebeu o título de doutor em teologia. Lutero, então, passou a ensinar os livros da Bíblia no latin e, para fazê-lo melhor, começou a estudar as línguas originais da Bíblia (Grego e Hebraico). Aos poucos desenvolveu a idéia de que somente na Bíblia se podia encontrar a verdadeira autoridade. De 1513 a 1515, deu aulas sobre Salmos; de 1515 a 1517, sobre Romanos e depois, Gálatas e Hebreus.

A leitura do versículo 1:17 de Romanos convenceu-o de que somente pela fé em Cristo era possível alguém tornar-se justo diante de Deus. O estudo da Bíblia o levara a crer em Cristo somente para a sua salvação.

AS INDULGÊNCIAS E AS 95 TESES
Leão X, que sucedeu a Júlio II em março de 1513, teve o desígnio de reconstruir a magnífica Catedral de São Pedro em Roma, cujas obras haviam sido iniciadas por Júlio, mas que ainda precisava de muito dinheiro para ser concluída. Por esta razão, Leão X, em 1517, aprovou a concessão de indulgências gerais a toda Europa, em favor de todos os que contribuíssem com qualquer soma de dinheiro para a reedificação da catedral; e designou pessoas em diferentes países para proclamarem estas indulgências e receberem o dinheiro das mesmas. Estes estranhos procedimentos provocaram muito escândalo em Wittenberg e, de modo particular, inflamaram o zelo de Lutero. Neste caso, por ser incapaz de conter-se, estava decidido a declarar-se contrário a tais indulgências em todas as circunstâncias.


Por esta razão, na véspera do dia de todos os santos, em 31 de outubro de 1517, fixou publicamente, na igreja adjacente ao castelo naquela cidade, as noventa e cinco teses contra as indulgências, onde desafiava a qualquer que se opusesse a elas, fosse por escrito ou por debate oral.
Em pouco tempo toda a Alemanha tomou conhecimento do conteúdo dessas teses e elas espalharam-se também pelo resto da Europa. Embora tivesse sido pressionado de muitas formas - excomungado e cassado - para abandonar suas idéias e os seus escritos, Lutero manteve suas convicções. Suas idéias atingiram rapidamente o povo e essa divulgação foi facilitada pelo recém inventado sistema de impressão de textos em série.

A RESPOSTA DO PAPADO
Após 2 anos de embate entre Lutero e representantes do papa, em 15 de junho de 1520, Leão X advertiu Lutero, com a bula "Exsurge Domine", onde o ameaçava com a excomunhão, a menos que, num prazo de sessenta dias, repudiasse 41 pontos de sua doutrina, destacados pela Igreja.

Em outubro de 1520, Lutero enviou seu escrito "A Liberdade de um Cristão" ao Papa, acrescentando a frase significativa:
"Eu não me submeto a leis ao interpretar a palavra de Deus".

MATRIMÔNIO E FAMÍLIA
Em abril de 1523, Lutero ajudou 12 freiras a escaparem do cativeiro no Convento de Nimbschen. Entre essas freiras encontrava-se Catarina von Bora, filha de nobre família, com quem veio a se casar, em 13 de junho de 1525. Dessa união nasceram seis filhos: Johannes, Elisabeth, Magdalena, Martin, Paul e Margaretha. Dos seis filhos, Margaretha foi a única que manteve a linhagem até os dias de hoje. Um descendente ilustre da família Lutero é o ex-presidente alemão Paul von Hindenburg.

O casamento de Lutero com a ex-freira cisterciense incentivou o casamento de outros padres e freiras que haviam adotado a Reforma. Foi um rompimento definitivo com a Igreja Romana.

LEGADO DE LUTERO
Lutero morreu no dia 18 de fevereiro de 1546, com sessenta e três anos de idade. A herança de Lutero permanece até hoje na Igreja Protestante, como o pai de um movimento que procurava uma reforma na Igreja através das Escrituras como fonte exclusiva de autoridade para a fé cristã, proclamando a salvação pela fé genuína e pessoal em Jesus Cristo, o único mediador entre Deus e o homem.

Lutero foi o autor de uma das primeiras traduções da Bíblia para alemão, algo que não era permitido sem especial autorização eclesiástica. Com isso os alemães passaram a ter acesso as Escrituras no seu próprio idioma e um forte incentivo pela sua leitura e redescoberta dos ensinos da Palavra de Deus.

APLICAÇÃO
A vida de Lutero se assemelha muito a vida do rei Josias (2 Crônicas 34 e 35), um jovem que começou a reinar aos 8 anos e fez o que era reto perante o Senhor. Através de diversas reformas políticas e religiosas pôs fim a corrupção dos sacerdotes e da idolatria de Israel, reencontrando as Sagradas Escrituras e voltando-se para os seus ensinos. Tanto Josias quanto Lutero foram líderes de um avivamento espiritual na sua geração.

  • Qual o valor das Escrituras na reforma religiosa promovido por Josias e Lutero? Comente sobre o zelo que ambos tinham para com a Bíblia.
  • Por que Lutero valorizou tanto a Bíblia?
  • Como Lutero encontrou absolvição para os seus pecados?
  • Quais as divergências de Lutero com a Igreja Católica?
  • Qual a repercussão e as conseqüências dos ensinos e da reforma promovida e liderada por Lutero?
  • O que a vida de Lutero pode lhe inspirar no cotidiano?

MEMORIZAR VERSÍCULO
Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu, depois do grego. Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: "O justo viverá pela fé". Romanos 1:16-17
FILME LUTERO
O filme Lutero conta a história de Martinho Lutero, um padre alemão que inconformado com a decadência espiritual e moral da Igreja Católica, começa a questionar a igreja, a autoridade do Papa e o poder de Roma.

Com uma ótima produção, o filme é bastante envolvente. Mostra o lado absolutamente negro que a Igreja Católica estava envolvida e os motivos que levaram Lutero a escrever as 95 teses que iniciou a Reforma Protestante.



MATERIAL UTILIZADO
• Foxe, John. História da Vida e Perseguições de Martinho Lutero. Livro dos Mártires, 2003. Editora Mundo Cristão.
• César, Elben L. Conversas com Lutero. História e Pensamento, Viçosa/MG 2006. Editora Ultimato.
• Cairns, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos, São Paulo 2008. Editora Vida Nova.
• McGrath, Alister E. Sistemática, Histórica e Filosófica. Uma Introdução a Teologia Cristã, São Paulo 2005. Shedd Publicações.
• Williams, Terri. Cronologia da História Eclesiástica, São Paulo 1993. Edições Vida Nova.