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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A NECESSIDADE DE UMA NOVA REFORMA



A Reforma protestante é mais do que um acontecimento histórico restrito à Europa do século 16. Seus questionamentos ainda são aplicáveis aos dias atuais.

Para falar da Reforma protestante é preciso falar de Martinho Lutero, “o gigante da Reforma”. Ele era monge da Ordem de Santo Agostinho e estudioso da teologia e das Sagradas Escrituras. O cenário religioso em que ele vivia o incomodava: via de regra, a religião não passava de adoração externa e física, baseada em símbolos sagrados, mas com pouca ou sem nenhuma importância para a vida pessoal do povo que se dizia cristão; muitos se diziam adoradores de Deus, mas o negavam por meio de suas obras. Proclamavam a existência de Deus, mas viviam como se ele não existisse. No geral, Deus não era adorado nem “em espírito”, nem “em verdade” (João 4.23-24).

Havia algo em especial que deixava Lutero indignado: a venda de indulgências (o perdão da punição pelos pecados). Naqueles dias, era comum a crença de que, depois da morte, as almas não totalmente purificadas de seus pecados tinham de sofrer por um tempo no purgatório. Entretanto, seus familiares poderiam abreviar essas aflições por meio de “cartas de indulgência” ou de perdão concedidas pelo papa. Havia também a possibilidade de alguém comprar o perdão em vida como uma espécie de seguro depois da morte ou de pecados futuros. Como obtê-las? Pagando por elas. Havia muitos vendedores de indulgências nos dias de Lutero. Era uma atividade bastante lucrativa. Esse negócio financiava projetos megalomaníacos de um clero cada vez mais corrompido pela ganância, pela ostentação e pelo amor ao dinheiro.

Lutero decidiu agir. Em 31 de outubro de 1517, ele se dirigiu à Abadia de Wittenberg, na Alemanha, e seguiu uma prática comum entre os acadêmicos de seus dias: apresentar, sustentar e defender teses (enunciados) em público. Ele expôs 95 teses, com as quais procurou discutir e questionar os mandos e desmandos por parte do papa e do clero na venda de indulgências. Ele queria discutir essas teses e promover o debate dessas ideias.

O impacto dessas teses tomou proporções inimagináveis e afetou grandemente a Europa desde então. Lutero desejava incentivar uma reforma, não uma rebelião na Igreja, mas os cismas foram inevitáveis.

Se você nunca leu essas teses, faça isso imediatamente. Elas são facilmente encontradas na Internet. A título de exemplo, eis 12 dessas teses:
1ª
Quando Jesus Cristo, nosso Senhor e Mestre, disse "Arrependei-vos", certamente queria que toda a vida dos seus crentes na terra fosse de contínuo arrependimento.
3ª
Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda espécie de modificações da carne.
6ª
O papa não pode perdoar dívida senão declarar e confirmar aquilo que já foi perdoado por Deus.
24ª
Assim sendo, a maioria do povo é ludibriada com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando se o homem singelo com as penas pagas.
27ª
Pregam futilidades humanas quantos alegam que a alma se vai do purgatório no momento em que a moeda soa ao cair no gazofilácio.
28ª
Certo é que no momento em que a moeda soa no gazofilácio o lucro vem e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; porém, somente a ajuda ou a intercessão da Igreja correspondem à vontade e ao agrado de Deus.
46ª
Deve-se ensinar aos cristãos que se não tiverem fartura, fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências.
50ª
Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa tivesse conhecimento da traficância dos pregadores de indulgências, preferiria ver a catedral de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
52º
Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da Palavra do Senhor.
54ª
Esperar ser salvo mediante cartas de indulgência é inutilidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências, mesmo se o próprio papa oferecesse sua alma como garantia.
86ª
Ainda: Por que o papa, cuja fortuna hoje é mais principesca do que a de qualquer homem rico, não prefere edificar a catedral de S. Pedro de seu próprio bolso em vez de o fazer com o dinheiro de fiéis pobres?
92ª
Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo de Cristo: Paz! Paz! e não há Paz.

Tudo isso foi dito no século 16, no seio da Igreja Romana. Mas algumas dessas teses poderiam ser adaptadas ao atual cenário evangélico. Uma breve analogia revela a veracidade dessa afirmação.
24ª
Assim sendo, a maioria do povo é ludibriada com as pomposas promessas de prosperidade financeira, impressionando-se o homem singelo com as riquezas desses pregadores.
27ª
Pregam futilidades humanas quantos alegam que o crente prosperará no momento em que a moeda soa ao cair no gazofilácio, em que ele fizer sacrifícios financeiros e barganhar com Deus.
28ª
Certo é que no momento em que a moeda soa no gazofilácio o lucro vem para esses pregadores e o amor ao dinheiro cresce e aumenta.
50ª
Deve-se ensinar aos cristãos que se os pastores que pregam a teologia da prosperidade financeira levassem a Palavra de Deus a sério, eles prefeririam ver seu império religioso ser reduzido a cinzas a ser edificado com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
52º
Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo ao dinheiro ou às palavras de autoajuda do que à pregação da Palavra do Senhor.
86ª
Ainda: Por que muitos pastores e apóstolos, cuja fortuna hoje é mais principesca do que a de qualquer milionário, não prefere edificar seus templos gigantescos e suntuosos de seu próprio bolso em vez de fazê-lo com o dinheiro de fiéis pobres?
92ª
Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo de Cristo: Prosperidade! Prosperidade!, quando só há prosperidade real para eles.

A comunidade evangélica, com boas exceções, tem se rendido à Teologia da Prosperidade. Como escrevi no prefácio à segunda edição do livro Supercrentes (Mundo Cristão), do pastor Paulo Romeiro, a aplicação dessa teologia tem produzido líderes ricos, poderosos e gananciosos, e cada vez mais distanciados da simplicidade de Cristo, enxergando a vida piedosa como meio de ganho. Ávidos pelo poder, criaram megaigrejas, compraram mansões, tornaram-se celebridades. O poder os corrompeu. Essa teologia não produziu crentes melhores, mas crentes doentes, confusos e em eterno conflito, pois estes não veem os resultados práticos da aplicação dos princípios que fazem de seus líderes o que eles mesmos gostariam de ser.

Estamos vivendo um período como o que deu origem à Reforma, mas desta vez no meio evangélico. Alas da Igreja evangélica estão cada vez mais sedentas e possuídas pelo poder político e pelas coisas do mundo. Alianças políticas são traçadas a fim de atingir esses objetivos. Eles financiam “Marchas para Jesus” com o intuito de se prostituírem com os poderosos e obterem favores políticos e financeiros. Valem-se das boas intenções de eventos desse tipo para alcançarem seus objetivos nefastos. Muitos afirmam que querem "O Brasil para o Senhor Jesus", mas suas práticas revelam que querem o Brasil do Senhor Jesus.

A mídia, infelizmente, vem se fartando com a quantidade de matéria-prima na área ética produzida por uma liderança corrompida. Foi-se o tempo em que a designação "evangélico" era símbolo de seriedade e respeito. Hoje, é motivo de chacota. É lamentável e vergonhoso ver líderes religiosos sendo acusados de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, entre outras práticas dessas categorias. Os exemplos pululam por aí.

Precisamos orar para que surja uma geração de novos Luteros, de gente que pensa antes de dar aceitação a qualquer nova doutrina ou a qualquer novo líder, por mais carismático que seja. Que surja a geração do "ponham à prova todas as coisas e fiquem com o que é bom" (1Ts 5:21; NVI) e do "não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus..." (1Jo 4:1; NVI).

Que o espírito da Reforma não morra por nossa covardia nos calabouços da Teologia da Prosperidade, das práticas supersticiosas (sal grosso, rosa ungida, óleos milagrosos, lágrimas curativas etc.), dos falsos mestres, apóstolos, pastores, primazes, bispos e missionários (seja qual for a nomenclatura que adotem), que tosquiam seus rebanhos para financiar o culto aos seus egos e sua vida luxuosa.

Mas não podemos olhar para a Reforma pensando apenas nos outros. Precisamos também nos avaliar. Aproveitemos também o momento para refletir nos aspectos de nossa vida que necessitam de reforma. Como anda nosso padrão de vida no Senhor? Estamo-nos parecendo cada vez mais com Jesus? Nosso caráter tem sido moldado à imagem de Cristo? Temos cultivado as disciplinas espirituais, as quais nos conduzem a um estilo de vida que agrada a Deus, como a oração e a leitura da Palavra? Estamos sendo fiéis mordomos, administrando corretamente nossos dons, nossas paixões e nossa personalidade? Estamos lutando contra as tentações, enfrentando os perigos do dinheiro, do sexo e do poder? (Para ajudar nessa tarefa, quero lhe recomendar o livro “Elementos essenciais da liderança: visão, influência, caráter”, de Greg Ogden e Daniel Meyer, publicado pela Editora Vida).

 Aldo Menezes é Presbítero na Diocese do Recife; editor de teologia e filosofia; sendo clérigo na Região Eclesiástica 1, no Arcediagado PB/RN da Diocese.

domingo, 25 de setembro de 2011

ERA DAS MISSÕES

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 30)


TEXTO BASE: Mateus28:18-20

INTRODUÇÃO
Por muito tempo as igrejas protestantes ficaram focadas com os desafios e os novos rumos da Europa. Missões não era o foco da Igreja, e muito do trabalho evangelístico realizado até então não era intencional, como por exemplo, os imigrantes oriundos de países protestantes, que ao desbravar e explorar suas colônias (nas Américas, África e Ásia), comunicava a sua fé através da cultura que apresentavam ou impunham aos moradores locais.

Nesta lição vamos estudar como esse espírito começou a mudar na Igreja Protestante, e o que ocorreu para que uma preocupação com a urgência na evangelização de povos não alcançados pelo evangelho sobreviesse sobre as igrejas, proliferando assim as agências e sociedades missionárias para cumprir essa tarefa dada por Jesus aos seus discípulos.

MISSÕES MORÁVIA
por Alderi de Souza Matos

Com o seu zelo por Cristo, os irmãos morávios escreveram uma das páginas mais nobres das missões cristãs em todos os tempos. Nenhum grupo protestante teve maior consciência do dever missionário e nenhum demonstrou tamanha consagração a esse serviço em proporção ao número de seus membros. Seu grande líder inicial e incentivador na obra missionária foi o piedoso conde alemão Nikolaus Ludwig Von Zinzendorf (1700-1760).

Numa viagem a Copenhague para assistir a coroação do rei dinamarquês Cristiano VI, o conde Zinzendorf conheceu alguns nativos das Índias Ocidentais e da Groenlândia. Regressou a Herrnhut, na Saxônia, a sede do movimento, cheio de fervor missionário e, em conseqüência disso, dois obreiros, Leonhard Dober e David Nitschmann, iniciaram uma missão aos escravos africanos em Saint Thomas, nas Ilhas Virgens, em 1732. Christian David e outros missionários foram para a Groenlândia no ano seguinte.

Em 1734, um grupo liderado por August Gottlieb Spangenberg (1704-1792) começou a trabalhar na Geórgia, no sul dos futuros Estados Unidos. No Natal de 1741, o próprio Zinzendorf visitou a América e deu o nome de Bethlehem (Belém) à colônia que os morávios da Geórgia estavam criando mais ao norte, na Pensilvânia. Essa cidade se tornaria a sede americana do movimento. O mais famoso missionário morávio aos índios norte-americanos foi David Zeisberger (1721-1808), que trabalhou entre os creeks da Geórgia a partir de 1740 e entre os iroqueses desde 1743 até a sua morte.

Herrnhut, na Alemanha, tornou-se um vigoroso centro de atividade missionária, iniciando missões no Suriname, Costa do Ouro, África do Sul, Argélia, Guiana, Jamaica, Antigua e outros locais. Em 1748, foi iniciada uma missão aos judeus em Amsterdã. Até 1760, o ano da morte de Zinzendorf, os morávios haviam enviado 226 missionários a dez países e cerca de 3.000 mil conversos tinham sido batizados. Outros locais alcançados posteriormente foram o Egito, Labrador, Espanha, Ceilão, Romênia e Constantinopla.

Em 1832, havia 42 estações missionárias morávias ao redor do mundo. Os nomes dos primeiros campos missionários mostram uma característica do trabalho morávio: em geral eram locais difíceis e inóspitos, exigindo uma paciência e dedicação toda especial, traço que até hoje caracteriza o trabalho missionário desse grupo.

Uma reunião de oração excepcional
O renascimento da igreja morávia, em maio de 1727, havia resultado em grande parte de uma forte ênfase na oração. Nos meses seguintes, um espírito de oração tomou conta da pequena comunidade evangélica. No dia 27 de agosto daquele ano, 24 homens e 24 mulheres comprometeram-se a orar uma hora por dia de forma seqüencial, de modo que sempre houve alguém orando por missões.

Essa “vigília de oração” sensibilizou Zinzendorf e a comunidade morávia a tentarem alcançar outros para Cristo. Seis meses após o início da vigília, o conde desafiou os companheiros a evangelizarem as Índias Ocidentais, a Groenlândia, a Turquia e a Lapônia. No dia seguinte, 26 morávios se ofereceram como voluntários para as missões mundiais, aonde quer que Deus quisesse levá-los.

A vigília de oração prosseguiu sem interrupção, vinte e quatro horas por dia, durante mais de 100 anos. Em 1792, sessenta e cinco anos após o início da vigília, a pequena comunidade morávia havia enviado 300 missionários até os confins da terra.

A teoria de missões de Zinzendorf
Zinzendorf estabeleceu alguns princípios que deveriam nortear a atividade missionária dos morávios. Eles são os seguintes:

·         Busquem os primeiros frutos. Zinzendorf dizia aos voluntários que partiam de Herrnhut: “Não tenham como alvo a conversão de nações inteiras. Simplesmente procurem pessoas interessadas pela verdade, que, como o eunuco etíope, pareçam prontas para abraçar o evangelho” (ver Atos 8.27-28). Assim, os missionários morávios não saíam para o campo com expectativas exageradas. Isso os capacitava a enfrentar muitas situações em que os frutos surgiam lentamente, mas também lhes proporcionava profunda alegria quando grandes números de pessoas estavam prontas para abraçar a Cristo. Associada a isso estava a sua dependência do Espírito Santo, que, como o verdadeiro evangelista, os conduziria a almas como Cornélio ou o eunuco.
·         Preguem a Cristo. “Em segundo lugar”, instruía Zinzendorf, “vocês devem ser objetivos e falar-lhes sobre a vida e a morte de Cristo”. Alguns missionários haviam ido para culturas pagãs e tinham tentado em vão ensinar teologia ou começar com verdades sobre Deus. Zinzendorf partia do pressuposto de que os pagãos já sabiam sobre Deus, mas precisavam conhecer sobre o Salvador, especialmente seus sofrimentos sobre a cruz.
·         Vão para os povos esquecidos. As primeiras pessoas buscadas pelos morávios foram os escravos negros. Nos anos seguintes eles foram para os leprosos, os esquimós, os índios, os africanos, e parecem ter sido os primeiros a buscarem sistematicamente a conversão dos judeus.
·         Pelo reino de Cristo. Os morávios têm buscado aumentar o reino de Cristo, e não a sua própria expansão denominacional. Inúmeras sociedades de cristãos zelosos das igrejas tradicionais da Europa e da Inglaterra oraram, contribuíram e forneceram voluntários para a causa missionária mundial dos morávios no século 18.
·         Sejam auto-sustentados. Hutton observou que, na missão das Índias Ocidentais, “por mais de cem anos ninguém recebeu um centavo da Igreja Morávia por seus serviços; cada um... primeiro tinha de ganhar o seu próprio sustento”. Essa política era seguida em toda parte. Na década de 1750, uma carta do Suriname dizia: “O irmão Kam está colhendo café; o irmão Wenzel conserta sapatos; o irmão Schmidt está fazendo uma roupa para um freguês”.

Com seu heroísmo, apego às Escrituras e consagração a Deus, os irmãos morávios, embora pouco numerosos, exerceram uma forte influência espiritual sobre outros grupos e movimentos protestantes, especialmente na Inglaterra.

A convivência com alguns morávios causou profundo impacto em João Wesley e contribuiu para a sua conversão e o surgimento do metodismo. William Carey, o pioneiro das missões batistas, os admirava grandemente e apelou para o seu exemplo de obediência. Eles também inspiraram a criação de duas das primeiras agências protestantes de missões – a Sociedade Missionária de Londres (1795) e a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (1804).

WILLIAM CAREY, O PAI DAS MISSÕES MODERNAS
por Marcos Granconato

Durante certo tempo, William Carey acumulou as funções de pastor, professor de tempo parcial e sapateiro na sua pequena aldeia. Na verdade, desde a juventude ele atuara como pregador leigo, mas só em 1785 recebeu o convite para ser pastor em uma pequena igreja batista. Mais tarde, foi chamado para pastorear uma igreja maior em Leicester, mas mesmo assim ainda precisava trabalhar em outras atividades para sustentar a família.

Como pastor, Carey revelava uma preocupação muito grande com o estudo. Quem chegasse em sua humilde casa, caracterizada pelas lindas flores que ele mesmo cultivava, sempre o encontraria com um livro. Foi durante seus anos de pastorado, marcados especialmente pela leitura, que Carey passou a desenvolver sua visão missionária, concluindo, para surpresa da igreja e dos ministros cristãos de seus dias, que a evangelização do mundo era a principal responsabilidade da noiva de Cristo.

Uma das dificuldades que William Carey teve de enfrentar para incutir a necessidade do envio de missionários às nações pagãs foi o hipercalvinismo reinante em seus dias, segundo o qual a conversão dos pagãos ocorreria, caso o Senhor quisesse, sem o auxílio de quem quer que fosse.

Foi para quebrar essa mentalidade que o pai das missões modernas escreveu um tratado intitulado Uma investigação sobre o dever dos cristãos de empregarem meios para a conversão dos pagãos" (1792). Tratava-se de uma exposição e análise do mundo de seus dias que refletia a necessidade urgente da pregação do Evangelho às nações de todos os continentes. Nesse tratado, Carey também expõe argumentos lógicos e teológicos apresentando-os como fundamentos para o envio de missionários aos pagãos, frisando especialmente que o Reino de Cristo tem de ser proclamado a toda a terra.

Num sermão sobre Isaías 54.2-3, dirigido a um grupo de pastores batistas em Nottingham, no dia 31 de maio de 1792, Carey reforçou os apelos constantes da sua Investigação e pronunciou a frase que se tornou célebre como a filosofia de trabalho do grande missionário: "Realizar grandes coisas para Deus; esperar grandes coisas de Deus".

A força dos argumentos de Carey e o vigor do seu entusiasmo resultaram na formação da Sociedade Missionária Batista, organizada em setembro de 1792. Menos de um ano depois, em junho de 1793, ele e sua família partiram para a Índia como membro da referida sociedade. Carey chegou em Hooghly no dia 11 de novembro de 1793, marcando o início da grande era das missões além mar, promovidas pela Inglaterra e Estados Unidos.

Dois missionários se juntaram à William Carey em 1799, William Ward e Joshua Marshman. Juntos eles fundaram 26 igrejas, 126 escolas com 10.000 alunos, traduziram as Escrituras em 44 línguas, produziram gramáticas e dicionários, organizaram a primeira missão médica na Índia, seminários, escola para meninas, e o jornal na língua Bengali. Além disso, William Carey foi responsável pela erradicação do costume "suttee", o qual queimava a viúva juntamente com o corpo do defunto numa fogueira; fundação da Sociedade de Agricultura e Horticultura na Índia em 1820; primeira imprensa, a tradução da Bíblia em Sânscrito, Bengali, Marati, Telegu e nos idiomas dos Siques.

 Em 1800, William Carey fez o batismo do primeiro hindu convertido ao Evangelho. Durante mais de trinta anos, William Carey foi professor de línguas orientais no Colégio de Fort Williams. Fundou, também, o Serampore College para ensinar os obreiros. Sob a sua direção, o colégio prosperou, preenchendo um grande vácuo na evangelização do país. Os seus esforços inspiraram a fundação de outras missões, dentre elas: a Associação Missionária de Londres, em 1795; a Associação Missionária da Holanda, em 1797; a Associação Missionária Americana, em 1810; e a União Missionária Batista Americana, em 1814.

Para conhecer mais da vida e obra de William Carey, visite < http://www.williamcarey.co.uk >.


ASHBEL GREEN SIMONTON, UM PIONEIRO DO EVANGELHO NO BRASIL
por Dom Robinson Cavalcanti

Embora as igrejas protestantes de imigrantes (anglicanas e luteranas) já estivessem estabelecidas no Brasil durante os períodos do Reino Unido e do Primeiro Reinado, é na segunda metade do século XIX (Segundo Reinado e Primeira República) que aportaram aqui os pioneiros do protestantismo de missão aos brasileiros, e em língua portuguesa, são eles:

1.    Igreja Congregacional: Rev. Robert Reid Kalley – 1855;
2.    Igreja Presbiteriana: Rev. Ashbel Green Simonton – 1859;
3.    Igreja Metodista: Rev. Junius E. Newman – 1867;
4.    Igreja Batista: Reverendos William Buck Bagby e Zacarias Clay Taylor;
5.    Igreja Episcopal (Anglicana): Reverendos Lucien Lee Kinsolving (primeiro bispo) e James Watson Morris – 1890.

Esses cinco ramos reformados foram os únicos entre 1855 e 1909, conseguindo se expandir nacionalmente, sob as restrições legais da Constituição Imperial, de 1824, e sob a severa perseguição social durante o período republicano (após 1889).

Simonton destacou-se por organizar o primeiro jornal protestante da América do Sul (1864), a primeira escola paroquial (1866), o primeiro seminário (1867) e ordenou o primeiro pastor brasileiro (1865). Ele desembarcou no Rio de Janeiro em 1859 e morreu de febre amarela em São Paulo, aos 34 anos, em 1867. Uma vida breve, que mudou a história”.

Para conhecer mais a história da evangelização do Brasil, consulte o livro: História da Evangelização do Brasil, Elben Lenz César. Editora Ultimato.

APLICAÇÃO
A evangelização do mundo é uma missão dada por Jesus aos seus discípulos. Todo cristão está encarregado do compromisso de comunicar o evangelho com o seu próximo e sinalizar o reino de Deus em sua cultura, e a Igreja de Jesus está incumbida de anunciar as boas novas do evangelho de Jesus aos confins da terra. Isso significa que de alguma forma nós temos responsabilidade nessa nobre tarefa, seja contribuindo com aqueles que irão fazer essa obra, ou seja, se voluntariando para a obra missionária.

A aula de hoje nos mostra como comunidades e homens de Deus foram usados para a proclamação e promoção do reino de Deus em lugares distantes e até então inalcançados. Dentre esses lugares, encontra-se a nossa terra amada Brasil. Nós somos fruto do esforço e obediência de homens e mulheres que ofertaram sua vida para que o evangelho chegasse até nós. Hoje, com uma igreja nacional desenvolvida, nos cabe a responsabilidade de pensar, sonhar, orar, investir e se voluntariar nessa grande comissão dada a nós pelo próprio Senhor Jesus Cristo, missão essa que vai passando de povo a povo, como numa corrida de bastão, na qual o precioso tesouro que carregamos é as boas novas do reino de Deus.

MEMORIZAR VERSÍCULO
Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.Mateus 28:19-20


QUESTÕES
Quais princípios deveriam nortear a atividade missionária dos moravianos? Você concorda com eles?
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Como William Carey enfrentou a oposição da sua geração a obra missionária?
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Através da breve apresentação biográfica de Carey, como você percebe que ele enxergava a obra missionária?
______________________________________________

Simonton foi um dos missionários pioneiros na evangelização do Brasil. Você sabe quais foram os desafios enfrentados por ele?
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MATERIAL UTILIZADO
·      Cairns, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos, São Paulo 2008. Editora Vida Nova.
·    Até aos confins da terra: as missões morávias, por Alderi de Souza Matos. Universidade Mackenzie < http://www.mackenzie.br/6979.html>
·    William Carey: a vida e a obra do pai das missões modernas. Marcos Granconato. Igreja Batista da Redenção < http://www.igrejaredencao.org.br/ibr>
·  Dom Robinson Cavalcanti. Simonton: um pioneiro do Evangelho. Editora Ultimato < http://www.ultimato.com.br >
·      Williams, Terri. Cronologia da História Eclesiástica, São Paulo 1993. Edições Vida Nova.

domingo, 4 de setembro de 2011

DESDOBRAMENTOS DA REFORMA - PURITANISMO (História da Igreja VIII)

Aula preparada a partir do artigo Os puritanos: sua origem e história, por Alderi de Souza Matos. Universidade Mackenzie

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 28)

TEXTO BASE: Romanos 12:1-2

INTRODUÇÃO
O puritanismo foi um movimento em prol da reforma completa da Igreja da Inglaterra que teve início no reinado de Elizabete I (1558) e continuou por mais de um século como uma grande força religiosa na Inglaterra e também nos Estados Unidos. “Uma versão militante da fé reformada” (Dewey D. Wallace, Jr.).
O termo puritanismo tem um sentido positivo original do termo “puritano” e outro sentido pejorativo atual (rigidez, moralismo, intolerância). A ênfase principal do movimento foi a preocupação com a pureza e integridade da igreja, do indivíduo e da sociedade.

CONTEXTO
O puritanismo é uma mentalidade ou atitude religiosa que começou cedo na história da Inglaterra. Desde o século 14, surgiu uma tradição de profundo apreço pelas Escrituras e questionamento de dogmas e práticas da igreja medieval com base nas mesmas.

Começou com o “pré-reformador” João Wycliffe e os seus seguidores, os lolardos, através da publicação da primeira Bíblia Inglesa completa em 1384, na época do “Grande Cisma”. Wycliffe afirmou a autoridade suprema das Escrituras, definiu a igreja verdadeira como o conjunto dos eleitos, questionou o papado e a transubstanciação.

O protestantismo inglês sofreu a influência de Lutero e especialmente da teologia reformada continental, a Reforma Suíça de Zurique (Zuínglio, Bullinger) e Genebra (Calvino, Beza). As ênfases foram: colocação da verdade antes da tradição e da autoridade; e insistência na liberdade de servir a Deus da maneira que se julgava mais acertada.

Alguns protestantes que se destacaram:

• William Tyndale (†1536) – compromisso com as Escrituras, ênfase na teologia do pacto. Tradutor da Bíblia - NT (1525); cruelmente perseguido; estrangulado e queimado em Antuérpia, na Bélgica.

• John Hooper (†1555) – as Escrituras devem regular a estrutura eclesiástica e o comportamento pessoal.

• John Knox (†1572) – reforma completa da igreja e do estado.

UM POUCO DE HISTÓRIA
(a) Henrique VIII (1509-1547) – criou a Igreja Anglicana, uma igreja nacional inglesa de orientação nitidamente católica. Em 1539, impôs os Seis Artigos, com severas punições para os transgressores (“o açoite sangrento de seis cordas”). Incluíam a transubstanciação, a comunhão em uma só espécie, o celibato clerical, votos de castidade para leigos, missas particulares, confissão auricular, etc.

Duas reações dos protestantes: conformação – por exemplo, o arcebispo Thomas Cranmer a princípio de opôs, mas depois se submeteu e separou-se da esposa; protesto – Miles Coverdale, John Hooper e outros, que tiveram de fugir do país e foram para a Suíça. Sob a influência continental, começaram a se opor ao cerimonialismo religioso.

(b) Eduardo VI (1547-1553) – nessa época, a influência dos partidários de uma reforma profunda da igreja inglesa se tornou mais forte. John Hooper dispôs-se a aceitar um bispado que lhe foi oferecido, mas não a ser investido no ofício do modo prescrito, com o uso das vestes litúrgicas. Acabou sendo lançado na prisão por algum tempo. Foi o primeiro a expor claramente o argumento acerca das vestes. Não eram coisas indiferentes, e sim resquícios do catolicismo. Começa a surgir uma nítida distinção entre anglicanismo e puritanismo.

(c) Maria I (1553-1558) – tentou restaurar a Igreja Católica na Inglaterra e perseguiu os líderes protestantes. Muitos foram executados – Hugh Latimer (†1555), Nicholas Ridley (†1555) e Thomas Cranmer (†1556) – mártires marianos. Outros fugiram para o continente (Genebra, Zurique, Frankfurt), entre eles John Knox e William Whittingham, o principal responsável pela Bíblia de Genebra. Nesse período surgiram em Londres as primeiras igrejas independentes.

(d) Elizabete I (1558-1603) – inicialmente esperançosos, os puritanos se decepcionaram amargamente. A rainha insistiu em controlar a igreja, manteve os bispos e as cerimônias. A mesma divisão anterior se manifestou entre os líderes imbuídos de convicções protestantes – alguns, como Matthew Parker, Richard Cox, Edmund Grindal e John Jewel, protestaram no início, mas acabaram acomodando-se ao status quo. Aceitaram bispados e outras posições eclesiásticas sob o argumento de que, se recusassem esses ofícios, Elizabete nomearia católicos romanos em lugar deles. Outros, como Thomas Sampson, Miles Coverdale, John Foxe e Lawrence Humphrey, desafiaram a rainha.

Os puritanos surgem com esse nome no contexto da “Controvérsia das Vestimentas” (1563-1567) – protesto contra vestimentas clericais (propunham o uso de togas genebrinas) e cerimônias como ajoelhar-se à Ceia do Senhor, dias santos e sinal da cruz no batismo. Nas décadas seguintes, intensificaram-se as medidas disciplinares da igreja e do estado contra os puritanos estritos (“não-conformistas”). Cristalizou-se o anglicanismo clássico, cujo principal teórico foi Richard Hooker, com sua obra Leis de Política Eclesiástica (1593). Em 1593 foi aprovado o rigoroso “Ato contra os Puritanos”.

(e) Tiago I (1603-1625) – esse rei havia recebido uma educação calvinista na Escócia, o que encheu de esperanças os puritanos. Eles lhe apresentaram a Petição Milenária, que foi totalmente rejeitada na Conferência de Hampton Court (1604). Alguns puritanos se desligaram inteiramente da Igreja da Inglaterra, entre eles um grupo que foi para a Holanda e depois para a América, fundando em 1620 a Colônia de Plymouth, em Massachusetts.

(f) Carlos I (1625-1649) – esse rei manteve a política de repressão contra os puritanos, o que levou um grupo não-separatista a ir para Massachusetts em 1630. No final do seu reinado, entrou em guerra contra os presbiterianos escoceses e contra os puritanos ingleses. Estes eram maioria no Parlamento e convocaram a Assembléia de Westminster (1643-49), que elaborou os famosos e influentes documentos da fé reformada.
Infelizmente, os puritanos não formavam um movimento coeso. Estavam divididos principalmente no que se refere à forma de governo da igreja. Existiam vários grupos: presbiterianos, congregacionais, episcopais, batistas. Alguns eram separatistas e outros não-separatistas, como os “independentes” (congregacionais moderados). A Guerra Civil terminou com a derrota e execução do rei.

(g) Oliver Cromwell – congregacional, líder das forças parlamentares que derrotaram o rei Carlos I. Tornou-se o “Lorde Protetor” da Inglaterra. Durante o Protetorado ou Comunidade Puritana (1649-1658), a Igreja da Inglaterra foi inicialmente presbiteriana e depois congregacional. Todavia, as rivalidades religiosas levaram ao restabelecimento da monarquia – a Restauração.

(h) Carlos II (1660-1685) - expulsou cerca de 2000 ministros puritanos da Igreja da Inglaterra. A Grande Expulsão (1662) marcou o fim do puritanismo anglicano. Embora perseguidos, sobreviveram como dissidentes (“dissenters”) fora da igreja estatal e eventualmente criaram igrejas batistas, congregacionais e presbiterianas.

(i) Tiago II (1685-1689) – tentou restaurar o catolicismo, mas foi derrotado pelo holandês Guilherme de Orange, esposo de sua filha Maria – a Revolução Gloriosa.

(j) Guilherme e Maria (1689-1702) – mediante um decreto, foi concedida tolerância aos “dissenters” (presbiterianos, congregacionais e batistas), cerca de um décimo da população. A essa altura, os melhores dias do puritanismo já haviam ficado para trás.

O puritanismo americano foi muito dinâmico e influente por pouco mais de um século, desde os primórdios na Nova Inglaterra (1620) até o Grande Despertamento (1740). Alguns nomes notáveis dessa tradição foram John Cotton, William Bradford, John Winthrop, John Eliot, Thomas Hooker, Cotton Mather e Jonathan Edwards.

Curiosidade 1
Herdeiros recentes da tradição puritana: Charles H. Spurgeon, D. M. Lloyd-Jones, J. I. Packer e James M. Boice.

Curiosidade 2
A Igreja Presbiteriana do Brasil adota a confissão de fé de Westminster.

O PERFIL PURITANO

O puritanismo influenciou a tradição reformada no culto, o governo eclesiástico, a teologia, a ética e a espiritualidade. Quatro convicções básicas os moviam: (1) a salvação pessoal vem inteiramente de Deus; (2) a Bíblia constitui o guia indispensável para a vida; (3) a igreja deve refletir o ensino expresso das Escrituras; (4) a sociedade é um todo unificado.

O sentido original do termo “puritano” apontava para a purificação da igreja. Os puritanos não estavam interessados somente na purificação do culto e do governo eclesiástico. Todo o corpo político também precisava de purificação. Apoiando-se em Martin Bucer e João Calvino, eles insistiram na criação de uma sociedade cristã disciplinada. Achavam que uma nação inteira podia fazer uma aliança com Deus para a realização desse ideal. Esperanças milenaristas e o exemplo do Israel bíblico os impeliram nessa direção.

Os pregadores-teólogos puritanos escreveram com detalhes sobre a maneira pela qual a graça de Deus poderia ser identificada na experiência humana, indo além de religiosidade formal e expressando-se numa transformação interior da morte no pecado para a vida em Cristo, com base na fé. Os diários e autobiografias dos puritanos revelam quão intensa essa luta podia ser e como se tornaram pessoais os grandes temas da teologia reformada.

Sem negligenciar a obra e o ser de Deus ou os grandes temas da eleição, vocação, justificação, adoção, santificação e glorificação, a ênfase dos teólogos puritanos na experiência religiosa e na piedade prática deu aos seus escritos um teor incomum entre os teólogos reformados de outras partes da Europa. Um bom exemplo disso é O Peregrino (1676), de John Bunyan.

A ênfase prática da teologia puritana levou-a a dar grande atenção à ética pessoal e social em casos de consciência, discussões sobre vocação e o relacionamento entre a família, a igreja e a comunidade no propósito redentor de Deus.

A reforma do culto e da prática religiosa popular, ouvindo e obedecendo a palavra de Deus, bem como a santificação do tempo convergiram no desenvolvimento do sabatarianismo, um dos legados mais duradouros da teologia puritana aplicada.

TEOLOGIA
Segundo William Ames, a teologia “é para nós a suprema e a mais nobre das disciplinas exatas. É um guia e plano-mestre para o nosso fim mais elevado, enviado por Deus de maneira especial, tratando das coisas divinas... Não existe preceito de verdade universal relevante para se viver bem em economia doméstica, moralidade, vida política e legislação que não pertença legitimamente à teologia” (A medula da teologia, 1623).

Os puritanos eram estritos defensores da teologia reformada, que inicialmente tinham em comum com a Igreja da Inglaterra (os Trinta e Nove Artigos ensinavam a doutrina reformada da Ceia do Senhor e afirmavam a predestinação). Depois que muitos anglicanos adotaram uma posição mais arminiana (1620), os puritanos defenderam vigorosamente o calvinismo devido à sua afirmação intransigente da graça imerecida de Deus.

Os puritanos escreveram uma enorme literatura sobre a vida espiritual, incluindo sermões, meditações, exposições bíblicas práticas, biografias e autobiografias. Essa literatura dava ênfase a temas como a experiência pessoal de conversão, a regeneração pelo Espírito Santo, a união mística da alma com Cristo, a busca de certeza da salvação e o crescimento em santidade de vida.

A maior expressão dessa “teologia afetiva” foi a alegoria de John Bunyan (†1688), O Peregrino, que retratou a vida cristã como peregrinação e luta espiritual.

PURITANOS NOTÁVEIS
William Perkins (1558-1602) – sua teologia foi o primeiro grande exemplo de uma síntese da teologia reformada aplicada à transformação da sociedade, igreja e indivíduos da Inglaterra elizabetana. Em sua obra mais famosa, Armilla Aurea (A corrente de ouro – 1590), ele expôs a tradição reformada em torno do tema da teologia como “a arte de viver bem”. Deu ênfase à majestade da ordem de Deus e sua implicações sociais e pessoais. Foi o primeiro teólogo elizabetano com uma reputação internacional. Também destacou-se extraordinariamente como pregador.

Richard Sibbes (1577-1635) – foi estudante e professor em Cambridge. Exemplificou a síntese entre profundidade bíblica e sensibilidade pastoral que caracterizou a teologia puritana no que tinha de melhor. Seus escritos são práticos antes que sistemáticos e mostram claramente porque as ênfases puritanas foram assimiladas tão plenamente pelos leigos. Escritos seus como A Porção do Cristão e A Exaltação de Cristo Comprada por sua Humilhação revelam não só uma rica soteriologia, mas profundas percepções sobre a criação e a encarnação.

Richard Baxter (1615-1691) – foi ordenado em 1638 e dois anos depois rejeitou o episcopalismo. De 1641 a 1660 foi ministro de uma paróquia em Kidderminster. Após a guerra civil, apoiou a Restauração e tornou-se capelão de Carlos II. Excluído da Igreja da Inglaterra após o Ato de Uniformidade (1662), continuou a pregar e foi encarcerado em 1685 e 1686. Tomou parte na deposição de Tiago II e deu as boas-vindas ao Ato de Tolerância de Guilherme e Maria. Suas obras incluem O Repouso Eterno dos Santos (1650) e O Pastor Reformado (1656).

John Owen (1616-1683) – ao lado de Baxter, o grande pensador sistemático da tradição teológica puritana. Educado em Oxford, enfrentou uma longa luta espiritual em busca da certeza de salvação, que terminou por volta de 1642. Dedicou seus formidáveis dotes intelectuais à causa parlamentar. Inicialmente presbiteriano, converteu-se à posição independente através da leitura de John Cotton. Fez uma vigorosa exposição do calvinismo clássico em Uma Exibição do Arminianismo (1643). Em A Morte da Morte na Morte de Cristo (1647) fez uma brilhante apresentação da doutrina da expiação limitada. Até o fim da vida trabalhou por uma igreja nacional mais abrangente e pela reconciliação dos dissidentes rivais.

John Bunyan (1628-1688) – após lutar na guerra civil, em 1653 filiou-se a uma igreja independente em Bedford. Um ou dois anos depois, começou a pregar com boa aceitação. Foi aprisionado de modo intermitente entre 1660 e 1672, o que lhe permitiu escrever sua obra-prima, O Progresso do Peregrino (1678), e outros escritos. Após 1672, dedicou-se à pregação e ao evangelismo em sua região. Outras obras famosas de sua lavra são A Guerra Santa (1682) e Graça Abundante para o Principal dos Pecadores (1666).

APLICAÇÃO
A contribuição do movimento puritano é enorme para o cristianismo, com ênfase na ética pessoal e social. E isso está de acordo com os ensinos das Escrituras, uma vez que o apóstolo Paulo nos lembra que o verdadeiro culto a Deus envolve a consagração de toda a nossa vida e desemboca nas tarefas ordinárias da vida. A fé cristã combate o pensamento dominante de um mundo secular e nos convoca ao desenvolvimento de uma cosmovisão cristã, na qual Deus está reconciliando consigo o mundo através de Cristo.

MEMORIZAR VERSÍCULO
Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês. Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Romanos 12:1-2
QUESTÕES
Quais as divergências dos puritanos com a igreja inglesa?
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Como os puritanos acreditavam que a fé cristã se relacionava com a sociedade e o mundo?
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Qual a relação do movimento puritano com a famosa Confissão de Fé de Westiminster?
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Quais as contribuições do movimento puritano para nós hoje?
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Qual a importância de ler e estudar a Bíblia para o desenvolvimento da sua fé?
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MATERIAL UTILIZADO
Os puritanos: sua origem e história, por Alderi de Souza Matos. Universidade Mackenzie