domingo, 16 de outubro de 2011

Movimento pentecostal e neopentecostal

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 32)
Por Alderi Sousa de Matos
William Seymour

Introdução

O objetivo deste estudo é refletir sobre um fenômeno recente e controvertido do cenário religioso do Brasil que é o movimento neopentecostal. Esse movimento é importante por causa do grande impacto que tem causado e pela visibilidade que tem adquirido nos últimos anos na sociedade brasileira. Os métodos arrojados e agressivos da Igreja Universal do Reino de Deus, o estilo de vida sofisticado do casal que dirige a Igreja Renascer em Cristo, os onipresentes programas de televisão das igrejas neopentecostais, os testemunhos de fé de artistas, atletas e outras celebridades, tudo isso e muito mais tem contribuído para tornar esse movimento conhecido e discutido.


O impacto do neopentecostalismo tem sido particularmente sentido pelas igrejas evangélicas do Brasil. O protestantismo brasileiro não é mais o mesmo desde que surgiu o novo movimento. Esse impacto tem sido experimentado de duas maneiras: primeiramente, muitas igrejas, sejam elas históricas ou pentecostais, têm perdido membros para o neopentecostalismo; em segundo lugar, essas igrejas, especialmente as históricas ou tradicionais, tem sido influenciadas em sua teologia, liturgia e organização pelas práticas neopentecostais. O “sucesso” do novo movimento tem sido especialmente cativante para os líderes de muitas igrejas, levando-os a acreditar que, se adotarem os mesmos métodos e ênfases, suas igrejas também irão obter o tão sonhado crescimento.


O objetivo deste estudo não é simplesmente criticar ou condenar o movimento neopentecostal como um todo. A Igreja Presbiteriana do Brasil já tem se pronunciado oficialmente sobre a questão, reconhecendo que as igrejas neopentecostais são cristãs e são evangélicas. Todavia, tais igrejas apresentam desvios ou distorções em seus ensinos e práticas que as afastam do cristianismo histórico em alguns aspectos e que, mais especificamente, as põem em conflito com a fé reformada.[1] À luz da Confissão de Fé de Westminster, podemos considerá-las como “igrejas menos puras”. Diz a Confissão de Fé que a Igreja de Cristo “tem sido ora mais, ora menos visível. As igrejas particulares, que são membros dela, são mais ou menos puras conforme nelas é, com mais ou menos pureza, ensinado e abraçado o Evangelho, administradas as ordenanças e celebrado o culto público. As igrejas mais puras debaixo do céu estão sujeitas à mistura e ao erro...” ( cap. 25, itens IV e V).


Por outro lado, essa reflexão deve conduzir-nos a uma séria autocrítica e ao reconhecimento de que o novo movimento tem ocupado espaços que já deveriam ter sido ocupados pelas igrejas mais antigas, inclusive a presbiteriana. Portanto, o propósito desta análise é tríplice: conhecer melhor o neopentecostalismo em seus diferentes ângulos; identificar os seus pontos fracos nas áreas já aludidas; apontar maneiras como melhor se pode enfrentar esse desafio e quais as áreas em que as igrejas reformadas devem progredir.


É importante ressaltar que não se pretende nem é possível neste breve estudo fazer uma análise profunda e exaustiva do neopentecostalismo. Para tomar apenas a área da doutrina, existem dezenas de questões altamente complexas sobre os quais muitos livros têm sido escritos. O interesse primordial é dar uma visão ampla do movimento e destacar os seus aspectos mais relevantes no que diz respeito à igreja presbiteriana.


Inicialmente será feita uma breve abordagem histórica, destacando alguns exemplos interessantes de movimentos “carismáticos” ao longo da história da igreja até se chegar ao pentecostalismo brasileiro. Em seguida, se fará um apanhado das principais peculiaridades desse movimento nas áreas da teologia, culto, métodos, liderança e ética. Procurar-se-á avaliar esses pontos à luz das Escrituras e da fé reformada.



1. Aspectos históricos


São mencionados a seguir alguns poucos exemplos ilustrativos de movimentos e fenômenos carismáticos extraídos da história da igreja.



1.1 A igreja primitiva



1.1.1 Corinto


Já nos dias da igreja primitiva houve a ocorrência de manifestações que hoje chamamos de carismáticas. O exemplo clássico é o da comunidade cristã de Corinto. Como todos sabem, naquela igreja apostólica houve manifestações extraordinárias de línguas, profecias e outros fenômenos. Todavia, tais manifestações estavam diretamente associadas com muitos dos problemas e conflitos vividos por aquela comunidade. Era como se os dons do Espírito, ao invés de serem um fator de união, estivessem sendo um fator de divisão no corpo de Cristo. Portanto, desde o início os fenômenos carismáticos foram um elemento tanto de vitalidade quanto de controvérsia no seio da cristandade. Curiosamente, tais fenômenos espetaculares parecem ter estado especialmente ligados à igreja de Corinto. Pouco se diz a respeito dos mesmos nos outros documentos do Novo Testamento (por exemplo, as línguas são mencionadas apenas em Mc 16.17; At 2.3-11; 10.46; 19.6; e 1 Co 12-14). Parece que nas outras igrejas apostólicas, essas manifestações eram inexistentes, moderadas ou exercidas de modo mais equilibrado e menos egocêntrico do que em Corinto.



1.1.2 Montanismo


Com o passar do tempo, o exercício dos ministérios e dons carismáticos entrou em declínio na vida da igreja. Uma das razões principais foi a luta contra as heresias que caracterizou os primeiros séculos do cristianismo. Houve casos em que as manifestações carismáticas estavam associadas com ensinos e práticas que a igreja antiga considerou divergentes da fé bíblica e apostólica. Um bom exemplo disso foi o movimento conhecido como montanismo ou “nova profecia”, que surgiu por volta do ano 157 na Frígia, uma província da Ásia Menor. Dizendo-se inspirado pelo Espírito Santo, um cristão chamado Montano começou a profetizar extaticamente, sendo seguido por duas profetizas, Priscila e Maximila. Eles afirmavam serem os últimos de uma linhagem de profetas e convocaram os crentes a se prepararem para a descida da Jerusalém Celestial. O montanismo teve algumas ênfases positivas (o Espírito Santo, a santidade da igreja) e chegou a atrair um grande teólogo, Tertuliano, que abraçou o movimento. Ao fim, todavia, a “nova profecia” foi rejeitada pela igreja, principalmente por seu emocionalismo, desobediência às autoridades da igreja e revelações extrabíblicas. Os profetas montanistas afirmavam receber comunicações diretas de Deus, e as suas profecias ou oráculos eram considerados como normativos pelos seguidores, praticamente no mesmo nível das Escrituras. Além disso, foram acusados de falsas profecias, pois suas previsões acerca do iminente final dos tempos não se cumpriram. Mesmo assim, o montanismo subsistiu por vários séculos.


Durante a Idade Média, continuaram a surgir movimentos esporádicos que tinham as mesmas características básicas do montanismo. Mais tarde, com a Reforma do século 16, também houve ocorrências similares entre grupos protestantes, como foi o caso de alguns anabatistas e dos quakers. Os quakers surgiram na Inglaterra, no século 17, sob a liderança de George Fox (1624-1691), que pregou a mensagem da “nova era do Espírito.” O movimento enfatizava a “luz interior,” ou comunicações diretas do Espírito, que eram tão importantes quanto as Escrituras. Nas suas reuniões, os quakers aguardavam que o Espírito Santo falasse a eles e através deles.



1.2 O século 19



1.2.1 Edward Irving




Um interessante exemplo do início do século 19 é o de Edward Irving (1792-1834), considerado um dos precursores do moderno movimento carismático.[2] Irving era um pastor da Igreja Presbiteriana da Escócia que se transferiu para Londres após um ministério inicial em Glasgow. Logo, seus dotes de oratória, seu carisma pessoal e suas mensagens ungidas começaram a atrair grandes multidões à igreja que pastoreava. Ele passou a fazer parte de um grupo que se reunia para estudar escatologia. Convicto da iminente volta de Cristo, o grupo passou a orar por um derramamento do Espírito. No início da década de 1830, após surgirem algumas manifestações carismáticas na Escócia, houve a ocorrência de línguas e profecias na igreja de Irving, que as considerou uma obra do Espírito Santo. Em 1832, Irving foi afastado do pastorado da igreja, sendo acompanhado por cerca de 600 seguidores, que criaram uma nova denominação, a Igreja Católica Apostólica, caracterizada por uma eclesiologia complexa e uma liturgia altamente elaborada, além da sua ênfase carismática. No ano seguinte, Irving foi deposto do ministério sob acusação de heresia. Ele afirmava que Cristo havia nascido com uma natureza humana pecaminosa, que foi, todavia, preservada sem pecado e incorruptível graças à atuação do Espírito Santo. No final de 1834, Irving veio a falecer com apenas 42 anos, vitimado pela tuberculose. Nos seus últimos meses de vida, ele estava convicto de que seria curado da sua enfermidade; porém, a cura não veio e ele deixou de tomar precauções que talvez pudessem ter evitado sua morte prematura.



1.2.2 Miguel Vieira Ferreira




Um exemplo mais próximo de um movimento com características carismáticas é aquele ligado ao Dr. Miguel Vieira Ferreira (1837-1885), um antigo membro da Igreja Presbiteriana do Rio Janeiro. Dr. Miguel era membro de uma família aristocrática do Maranhão e formou-se em engenharia na então capital do império. Antes de ingressar na Igreja Presbiteriana, havia tido contatos com o espiritismo. Foi recebido como membro da Igreja do Rio de Janeiro em 1874, durante o pastorado do Rev. Alexander L. Blackford. No início, teve um comportamento incomum. Certa vez, terminado o culto, permaneceu cerca de meia hora totalmente imóvel, sem poder mover as mãos ou os pés e abrir os olhos. Mais tarde, foi eleito presbítero e acompanhou o Rev. Blackford em viagens evangelísticas. O pastor-auxiliar da Igreja do Rio, Rev. Dilwin M. Hazlett, ocupado que estava com uma tipografia de sua propriedade, deixou o Dr. Miguel ocupar o púlpito da igreja. Este começou a fundamentar o seu ensino em sonhos e visões, pretendendo ter revelações diretas do céu (“Deus fala e quer falar de viva voz aos homens”). Em 1879, foi suspenso do presbiterato e da comunhão. Ele deixou a igreja presbiteriana com outros 27 membros e fundou a Igreja Evangélica Brasileira, que perdura até os dias atuais.[3]



1.3 O século 20



1.3.1 O pentecostalismo




O início do século 20 testemunhou um dos eventos mais marcantes da história do cristianismo. Fenômenos que até então haviam ocorrido um tanto esporadicamente, entre grupos minoritários, passaram a ser parte de um influente e vasto movimento composto de milhões de adeptos. Em muitos países, os pentecostais passaram a constituir a grande maioria dos evangélicos.


O pentecostalismo resultou de uma somatória de influências: o movimento pietista do século 18, os grandes despertamentos nos Estados Unidos, o metodismo de João Wesley e, mais especificamente, o chamado movimento de “santidade” (holiness) do final do século 19. A busca de avivamento e de santificação, ao lado de uma forte expectativa do final dos tempos, levou muitos cristãos à convicção de que haveria um derramamento especial do Espírito Santo, evidenciado pela ocorrência de manifestações sobrenaturais semelhantes àquelas mencionadas no Novo Testamento.[4]


Um importante pioneiro foi Charles Fox Parham (1873-1929), que fora criado em igrejas metodistas e “holiness,” e passou a ensinar aos seus alunos no Kansas e no Texas que os crentes deviam esperar um batismo “com o Espírito Santo e com fogo”. O evangelista R. A. Torrey (1856-1928), outrora companheiro de Dwight L. Moody, fez uma turnê mundial de reavivamento que teve o efeito de aproximar muitas pessoas que mais tarde iriam participar do movimento pentecostal. Finalmente, o evento decisivo ocorreu em um reavivamento iniciado em 1906 na Missão Fé Apostólica, na Rua Azusa, em Los Angeles, onde um ex-aluno de Parham, o pregador negro William J. Seymour (1870-1922) iniciou uma longa série de reuniões que enfatizavam o falar em línguas como evidência do batismo com o Espírito Santo, a marca registrada do pentecostalismo. Logo, o movimento difundiu-se para outras cidades norte-americanas (especialmente Chicago) e para outros países.



1.3.2 O pentecostalismo no Brasil


Pouco tempo depois do seu surgimento nos Estados Unidos o movimento pentecostal chegou ao Brasil. Quase que simultaneamente, duas igrejas pentecostais iniciaram suas atividades em solo brasileiro, uma no sul e a outra no norte do país. Em poucas décadas, esse movimento haveria de transformar de modo permanente e profundo a face do protestantismo nacional.


Em um conhecido ensaio sobre o pentecostalismo brasileiro, Paul Freston observa que a história desse movimento pode ser dividida em três “ondas” de implantação de igrejas.[5] A primeira onda iniciou-se na década de 1910, com a chegada da Congregação Cristã no Brasil (1910) e da Assembléia de Deus (1911). A Congregação Cristã foi fundada pelo italiano Luigi Francescon (1866-1964), que emigrou para os Estados Unidos, converteu-se ao evangelho, tornou-se um dos fundadores da Igreja Presbiteriana Italiana, em Chicago, e eventualmente foi alcançado pelo nascente movimento pentecostal. Chegou ao Brasil em 1910, em resposta a uma profecia para que levasse a obra pentecostal aos seus patrícios. Iniciou as suas atividades entre imigrantes italianos residentes em São Paulo e Santo Antonio da Platina, no Paraná. Já a Assembléia de Deus brasileira resultou dos esforços de dois suecos de origem batista, Gunnar Vingren (1879-1933) e Daniel Berg (1885-1963), que igualmente emigraram para os Estados Unidos e foram alcançados pelo movimento pentecostal na cidade de Chicago. Os dois obreiros fixaram-se em Belém do Pará, onde passaram a freqüentar a igreja batista, cujo pastor também era de nacionalidade sueca. Alguns meses mais tarde, a mensagem pentecostal de Vingren e Berg produziu um cisma na igreja, surgindo assim o primeiro grupo da nova denominação.


Essas igrejas virtualmente dominaram o campo pentecostal durante 40 anos, pois as suas rivais eram poucas e inexpressivas.[6] Das duas pioneiras, a Assembléia de Deus foi a que mais se expandiu numérica e geograficamente, a ponto de ser praticamente a única expressão do protestantismo em alguns estados do norte.[7] A Congregação Cristã no Brasil, após um período em que ficou mais limitada à comunidade italiana, sentiu a necessidade de assegurar a sua sobrevivência por meio do trabalho entre os brasileiros.[8] Após um rápido crescimento inicial, foi ultrapassada pela Assembléia de Deus no final dos anos 40.


A segunda onda pentecostal ocorreu na década de 50 e início dos anos 60, quando o campo pentecostal se fragmentou e surgiram, entre muitos outros, três grandes grupos ainda ligados ao pentecostalismo clássico: a Igreja do Evangelho Quadrangular (1951), a Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo (1955) e a Igreja Pentecostal Deus é Amor (1962), todas elas acentuando de maneira especial a cura divina. Essa segunda onda começou quando a urbanização e o surgimento de uma sociedade de massas possibilitam um crescimento pentecostal que rompeu com as limitações dos modelos existentes, especialmente em São Paulo. Freston argumenta que o estopim foi a chegada da Igreja Quadrangular, com seus métodos arrojados, forjados precisamente no berço dos modernos meios de comunicação de massa, a Califórnia do período entre as duas guerras mundiais.[9] Todavia, quem lucrou com o novo modelo, no primeiro momento, não foi a Igreja Quadrangular, excessivamente estrangeira, e sim a sua criativa dissidência nacionalista, a Igreja O Brasil para Cristo.


A Igreja do Evangelho Quadrangular foi fundada nos Estados Unidos pela controvertida evangelista Aimee Semple McPherson (1890-1944) e chegou ao Brasil através do missionário Harold Williams, um ex-ator de filmes de faroeste, que fundou a primeira igreja em novembro de 1951 em São João da Boa Vista, São Paulo. Em 1953 teve início a Cruzada Nacional de Evangelização, sendo Raymond Boatright o principal evangelista. Desde então a Igreja Quadrangular tem crescido constantemente, sendo uma de suas peculiaridades a forte ênfase dada ao ministério feminino.[10]


Um dos primeiros pastores da Igreja Quadrangular brasileira foi um ex-evangelista da Assembléia de Deus chamado Manoel de Mello. Em 1956, ele separou-se da Cruzada Nacional de Evangelização, organizando a campanha “O Brasil Para Cristo”, da qual eventualmente surgiu a igreja de mesmo nome. Manoel de Mello surpreendeu o mundo evangélico em 1969, quando filiou a sua igreja ao Conselho Mundial de Igrejas, filiação essa que perdurou até 1986.[11] Em 1979, a Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil Para Cristo inaugurou o seu gigantesco templo em São Paulo, sendo orador oficial Philip Potter, secretário-geral do CMI, e estando entre os presentes o cardeal arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns.[12]


Outra importante denominação da segunda onda pentecostal, a Igreja Deus é Amor, foi fundada por David Miranda (nascido em 1936), filho de um agricultor do Paraná. Vindo para São Paulo, converteu-se numa pequena igreja pentecostal e em 1962 iniciou a sua igreja em Vila Maria. Pouco depois, a igreja transferiu-se para o centro da cidade e em 1979 foi adquirida a “sede mundial” da Baixada do Glicério, um dos maiores templos evangélicos do Brasil, com capacidade para dez mil pessoas.[13]


A terceira onda histórica do pentecostalismo brasileiro começou no final dos anos 70 e ganhou força na década de 80. Sua representante máxima é a Igreja Universal do Reino de Deus (1977), mas existem outros grupos expressivos como a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980), as Comunidades Evangélicas, Igreja Renascer em Cristo, Comunidade Sara Nossa Terra, etc. Segundo Paul Freston, essas igrejas representam “uma atualização inovadora da inserção social e do leque de possibilidades teológicas, litúrgicas, éticas e estéticas do pentecostalismo”.[14] A terceira onda começou após a modernização autoritária do país, principalmente na área das comunicações, quando a urbanização já atingia dois terços da população, o milagre econômico estava exaurido e iniciava-se a “década perdida” dos anos 80. A onda começou e se firmou no Rio de Janeiro economicamente decadente, com sua violência, máfias de jogo e política populista. O novo pentecostalismo, também denominado “pentecostalismo autônomo”[15] por alguns estudiosos, adaptou-se facilmente à cultura urbana influenciada pela televisão e pela ética da nova geração. Uma das características do movimento é o uso inteligente dos meios de comunicação de massa, nacionalizando um pentecostalismo bem-sucedido nos Estados Unidos.[16]


Uma importante precursora dos grupos neopentecostais foi a Igreja de Nova Vida, fundada pelo canadense Robert McAlister, que rompeu com a Assembléia de Deus em 1960. A Nova Vida foi pioneira de um pentecostalismo de classe média, menos legalista, e investiu fortemente na mídia. Foi também a primeira igreja pentecostal a adotar o episcopado no Brasil. Sua maior contribuição foi ter sido um “estágio” para futuros líderes. Trabalhou com homens um pouco mais cultos e conhecedores do mundo que os líderes da primeira e segunda ondas, e sugeriu-lhes um modelo pentecostal mais culturalmente solto. Deu-lhes também uma formação indispensável para que se tornassem independentes: segundo um ex-pastor, “a primeira coisa que aprendi na Nova Vida foi como levantar uma boa oferta”.[17] Em sintonia com isso, a mensagem devia ser sempre positiva. Era o transplante do que havia de mais recente na religião americana, no estilo dos novos pregadores televisivos. A Vida Nova foi berço de três grupos da terceira onda: a IURD, a Igreja Internacional da Graça de Deus (fundada por Romildo R. Soares, cunhado de Edir Macedo, após um cisma na IURD) e a Igreja Cristo Vive.


Uma influência significativa na Igreja de Vida Nova e no surgimento do movimento neopentecostal como um todo foi a incipiente renovação carismática norte-americana. Esse movimento surgiu de modo distinto no início dos anos 60 com a ocorrência de fenômenos pentecostais fora das estruturas denominacionais do pentecostalismo clássico, ou seja, nas chamadas igrejas históricas e em grupos não denominacionais.[18] No Brasil, a chamada “renovação” produziu divisões em quase todas as igrejas históricas, com a criação de grupos como a Igreja Batista Nacional, a Igreja Metodista Wesleyana e a Igreja Presbiteriana Renovada. Para tornar esse quadro ainda mais complexo, os anos 60 também testemunharam o aparecimento da “renovação carismática católica”, que, apesar de uma relação nem sempre fácil com a hierarquia, tem adquirido crescente visibilidade em anos recentes. Em contraste com o pentecostalismo clássico, o movimento carismático, seja em sua modalidade evangélica ou católica, tem atraído principalmente pessoas de classe média, daí a sua maior preocupação com o decoro e a respeitabilidade do que se vê nos grupos populares.


Ao lado das manifestações espirituais extraordinárias como glossolália, curas, profecias e exorcismo, os carismáticos e neopentecostais brasileiros caracterizam-se por uma forte ênfase na “teologia da prosperidade,” outra influência norte-americana, difundida por líderes como Kenneth Hagin e Benny Hinn. Este tem sido um dos principais elementos do maior fenômeno ocorrido no protestantismo brasileiro nas últimas décadas: a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).[19] A igreja foi fundada por Edir Macedo (nascido em 1944), filho de um comerciante fluminense. Macedo trabalhou por 16 anos na Loteria do Estado do Rio de Janeiro, período em que subiu de contínuo até um cargo administrativo. De origem católica, ele ingressou na Igreja de Nova Vida na adolescência, deixando essa igreja para fundar a sua própria, inicialmente denominada Igreja da Bênção. Em 1977, deixou o emprego público para dedicar-se integralmente ao trabalho religioso. Nesse mesmo ano surgiu o nome Igreja Universal do Reino de Deus e o primeiro programa de rádio. Macedo residiu nos Estados Unidos de 1986 a 1989. Quando retornou ao Brasil, transferiu a sede da igreja para São Paulo e adquiriu a Rede Record. Em 1990, a IURD elegeu três deputados federais. Macedo esteve preso por doze dias em 1992, sob a acusação de estelionato, charlatanismo e curandeirismo.[20] O acontecimento que deu maior publicidade à IURD nos últimos anos foi o episódio do “chute na santa,” quando, em um programa de televisão transmitido em 12 de outubro de 1995, o bispo Sergio von Helde referiu-se de modo desairoso à virgem Maria, dando alguns chutes numa imagem da mesma.[21]


Outro grupo neopentecostal que também dá grande ênfase à teologia da prosperidade e tem despertado muito atenção da imprensa nos últimos meses é a Igreja Renascer em Cristo, fundada em 1985 pelo “apóstolo” Estevam Hernandes e sua esposa, a bispa ou “episcopisa” Sônia Hernandes. À semelhança de outros líderes pentecostais, Estevam teve uma origem humilde como filho de um jardineiro de cemitério e começou a trabalhar aos 7 anos, fazendo carreto em feiras livres. Mais tarde, desiludido com o catolicismo, filiou-se a uma igreja pentecostal, onde conheceu a futura esposa. Sete anos depois, casaram-se e decidiram fundar sua própria igreja, que hoje conta com cerca de 50 mil fiéis e mais de 200 templos.[22] À semelhança dos pastores da IURD, o casal Hernandes tem grande habilidade em conseguir contribuições dos fiéis; todavia, ao contrário de Edir Macedo, ostenta com orgulho sinais de riqueza, como roupas caras, jóias e automóveis importados. O casal é proprietário da rentável Rede Gospel de Comunicação e procurou assumir o controle da Rede Manchete de televisão.


Devido às suas características intrínsecas e à sua capacidade de adaptação às necessidades e expectativas de vastos setores da população brasileira, o movimento neopentecostal está longe de perder o seu ímpeto. É possível que surjam novos segmentos e os antigos grupos tomem rumos ainda insuspeitados.


2. Características do neopentecostalismo
Obviamente, o neopentecostalismo ou “pentecostalismo autônomo”[23] partilha das mesmas convicções, valores e práticas do pentecostalismo clássico: ênfase nos dons espirituais, especialmente os mais extraordinários (línguas, profecias, curas); forte emotividade, especialmente nos cultos; ênfase à pessoa e atividade do Espírito Santo; valorização da figura do líder (o “ungido do Senhor”); preocupação constante com as forças do mal; e grande ênfase ao conceito de “poder.”


Todavia, os grupos neopentecostais distinguem-se da sua matriz ou por darem uma ênfase incomum a determinados aspectos da herança pentecostal (por exemplo, curas, revelações e exorcismo), ou por adotarem novas idéias e práticas, muitas delas provindas dos Estados Unidos (como batalha espiritual, o “evangelho” da prosperidade, maldição hereditária e assim por diante). Aliás, um dos traços mais marcantes do neopentecostalismo é sua criatividade, sua capacidade de inovação. No esforço de manter o interesse dos fiéis e evitar a rotina, continuamente são apresentados novos slogans, ensinos e práticas. O melhor exemplo é a Igreja Universal do Reino de Deus, com suas correntes de oração e suas campanhas de prosperidade (por exemplo, a “fogueira santa de Israel”).


É curioso como a América do Norte continua a ser a fonte de inspiração para os neopentecostais brasileiros, assim como o foi e continua sendo para os pentecostais clássicos. Autores e pregadores como Kenneth Hagin, Morris Cerullo e Benny Hinn têm exercido poderosa influência através dos seus livros, vídeos, programas de televisão e visitas ao Brasil. Benny Hinn tem sido especialmente influente por encarnar alguns dos valores mais apreciados em muitos círculos neopentecostais, como o sucesso e a prosperidade, apesar de muitos de seus ensinos serem questionados por diferentes observadores. Há alguns anos os fenômenos ocorridos na famosa Igreja do Aeroporto de Toronto, no Canadá, também despertaram enorme curiosidade e desejo de imitação. Essa igreja inicialmente estava filiada ao ministério Vineyard, fundado por John Wimber na Califórnia, sendo depois desligada do mesmo devido aos seus excessos. A chamada “bênção de Toronto” incluía práticas como gargalhadas incontroláveis (o “riso santo”), cair no Espírito, ficar estendido no carpete, emitir sons de animais (urros, latidos), tudo supostamente como conseqüência da presença do Espírito Santo.


Vejamos de modo mais específico algumas características neopentecostais nas áreas doutrinária e prática.



2.1. Atitude quanto às Escrituras




A questão básica, da qual decorrem todas as demais, tem a ver com o lugar ocupado pelas Escrituras na teologia das igrejas neopentecostais. Três fatores, entre outros, contribuem para tornar relativo o valor das Escrituras em muitas igrejas:


(a) A ênfase na experiência: quando a experiência pessoal se torna um critério de verdade, a Escritura tende a ficar em segundo plano; se, por exemplo, uma determinada prática produz resultados ou faz a pessoa sentir-se bem, isso é o que importa.


(b) O apelo a revelações: obviamente, se alguém acredita que Deus continua a revelar-se de maneira direta, imediata, isso tende a relativizar as Escrituras; elas não mais são a revelação final de Deus, a única regra de fé e prática para o crente. Quando um pregador diz “o Senhor me revelou ou o Senhor me mostrou isso ou aquilo”, tudo pode acontecer, e é proibido questionar, pois é palavra do Senhor.


(c) Uso questionável das Escrituras: quando as Escrituras são utilizadas, muitas vezes isso é acompanhado de interpretações tendenciosas, uso seletivo de certas passagens ou ênfases inadequadas. Muitos ensinos e práticas neopentecostais têm alguma fundamentação bíblica, mas recebem uma ênfase muito maior do que se vê nas próprias Escrituras, no ensino de Cristo e dos apóstolos ou na prática da igreja primitiva. Veremos adiante alguns exemplos disso.


Nesse aspecto, os reformadores do século 16 têm muito a nos ensinar:


Em primeiro lugar, com o seu princípio fundamental de “sola Scriptura”. Ou seja, reagindo contra as tradições extrabíblicas do catolicismo medieval, os reformadores afirmaram que somente a Escritura deve ser a norma, o padrão de fé e de conduta para o cristão. Tudo o que não está de acordo com as Escrituras ou que não pode ser claramente fundamentado nelas, deve ser firmemente rejeitado.


Em segundo lugar, através de princípios saudáveis e equilibrados de interpretação bíblica: não isolar o texto do seu contexto, considerar o que a Bíblia inteira diz acerca de um determinado assunto (a “analogia da Escritura”), levar em conta as circunstâncias em que o texto ou livro foi escrito e a intenção original do autor (método histórico-gramatical).


Em terceiro lugar, mostrando que não se deve fazer separação entre o Espírito e a Palavra. Sendo o Espírito Santo o autor último das Escrituras, ele não pode dizer uma coisa na Bíblia e outra coisa através de revelações especiais que conflitam com a Escritura. Por exemplo, ele não pode dizer na Bíblia que ninguém sabe o dia da volta de Cristo e depois revelar a alguém que Cristo vai voltar no ano tal e tal.


Neste último ponto, Calvino foi muito enfático em suas Institutas (Livro I, Capítulo IX), ao condenar os “entusiastas” ou “libertinos” que queriam chegar a Deus por outros meios que não as Escrituras. O reformador aponta para a reverência demonstrada pelos primeiros cristãos para com a Escritura e mostra a contínua importância, necessidade e validade da Palavra de Deus escrita (2 Tm 3.16-17). O Espírito Santo foi enviado, não para revelar coisas novas, mas para lembrar aos cristãos o que Cristo havia ensinado (Jo 14.26). Qualquer “revelação” que vá além do evangelho bíblico deve ser rejeitada como mentirosa (Gl 1.6-9). O Espírito Santo sempre atua em consonância com as Escrituras, que dele provêm. Por outro lado, é o testemunho interno do Espírito que nos permite reconhecer a Escritura como Palavra de Deus e experimentar a sua eficácia.



2.2 Ensinos e práticas




Vejamos alguns ensinos e práticas neopentecostais que revelam um entendimento equivocado das Escrituras ou ênfases incompatíveis com as mesmas. É importante lembrar que nem todas as igrejas apresentam as mesmas ênfases.


(a) Confissão positiva: esse ensino também é conhecido como “palavra da fé”. Segundo o mesmo, se o cristão crê firmemente em algo e o declara de modo convicto e explícito, aquilo que ele confessa irá acontecer, pelo poder da fé. Assim, a fé é vista como um poder que tem eficácia em si mesmo. A idéia é que Deus já nos deu as suas bênçãos, as suas promessas. A única coisa que temos a fazer é nos apropriar das mesmas, pela fé. A fé libera o poder e as bênçãos de Deus. Sem essa fé, Deus nada pode fazer. E o que ativa essa força ou poder da fé são as palavras. Se alguém fala palavras de fé, obtém bons resultados e vice-versa (confissão positiva ou negativa). Tudo o que nos acontece é conseqüência direta das nossas palavras. (Esses ensinos foram emitidos por autores como Kenneth Copeland e Kenneth Hagin.)[24]


Esse conceito faz da fé e das palavras de fé algo mágico, supersticioso, como um talismã. A Escritura ensina que a fé é um dom de Deus e que Deus atua e abençoa mediante a fé ou independentemente dela, como Senhor que é. Por outro lado, fé não significa força ou poder, mas uma atitude de confiança e dependência de Deus.


Associada com a confissão positiva está a idéia de posse, herança, como nas palavras de um conhecido corinho: “Tudo que o Senhor conquistou na cruz, é direito nosso, é nossa herança”. Assim, o crente deve “exigir” que Deus conceda as bênçãos e cumpra as promessas. Com isso, o relacionamento com Deus deixa de ser baseado na sua livre e soberana graça para concentrar-se em direitos e exigências.



(b) Saúde e prosperidade: essa é outra criação norte-americana que tem exercido um fascínio tremendo em um país carente de recursos como o Brasil. Na realidade, essa ênfase está mais de acordo com os valores da cultura americana do que com os valores do evangelho. Certamente Deus promete bênçãos materiais aos seus filhos, entre as quais se incluem saúde física e prosperidade financeira. Todavia, isso nunca foi uma parte central da mensagem pregada por Cristo ou pelos apóstolos. Esses temas nunca tiveram nos ensinos e na pregação deles o destaque que ocupa no culto e na vida de tantas igrejas modernas.


Um dos aspectos mais preocupantes é a insistência unilateral em bênçãos materiais, muitas vezes em detrimento de saúde e prosperidade na vida espiritual, no relacionamento com Deus, na vida emocional, nas relações familiares, na vida comunitária. Essa preocupação materialista e individualista casa-se muito bem com os interesses da sociedade de consumo, mas não com o evangelho que nos conclama a repartir, a ser solidários com os outros, que nos convida a amar a Deus pelo que Deus é, independentemente do que ele possa nos dar.


A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) é a que mais se destaca nessa área, pois que toda a sua atividade gira em torno do trinômio exorcismo-cura-prosperidade. Daí vermos, pela TV ou em outros ambientes, cenas desagradáveis de pregadores que condicionam o recebimento de bênçãos à entrega das maiores ofertas possíveis, ou, como costumam dizer, ao “sacrifício” dos fiéis. Esse não é o evangelho da graça anunciado por Cristo e pregado pela igreja apostólica, um evangelho que não se baseia em merecimentos humanos ou conquistas humanas, mas que se fundamenta no amor de Deus oferecido gratuitamente em Cristo. (“De graça recebestes, de graça daí” – Mt 10.8b; ver 1 Co 2.12). Jesus ensinou claramente os seus discípulos a não buscarem prioritariamente bênçãos materiais, e sim a buscarem em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, “e todas estas coisas [alimento, vestes, saúde] vos serão acrescentadas” (Mt 6.33).


(c) Batalha espiritual:[25] dentre as várias correntes de batalha espiritual, uma das mais populares no Brasil é aquela liderada por C. Peter Wagner, diretor e professor da Escola de Missões Mundiais do Seminário Fuller, na Califórnia. Wagner é também um dos principais expoentes do “movimento do crescimento da igreja”. Um ensino característico dessa corrente é a noção de “espíritos territoriais”, isto é, demônios que mantêm determinadas regiões geográficas sob o domínio da incredulidade e do pecado. No Brasil, uma das principais divulgadoras dessas idéias é a autora Neuza Itioka, que já escreveu vários livros sobre o assunto.


A batalha espiritual vê a realidade acima de tudo em termos de um conflito mortal entre Deus e o maligno, tendo como campo de batalha o mundo e as vidas dos crentes. Deus passa a ser visto como um Deus guerreiro, um “homem de guerra”, e existe um grande número de corinhos que explora essa temática. Com muita freqüência essa questão é abordada em termos triunfalistas: como o Senhor está ao nosso lado, ninguém pode conosco, nenhum mal nos atingirá, como afirmam certos versículos dos Salmos e outros livros. Nos últimos anos, incorporaram-se ao vocabulário evangélico certas expressões que antes nunca haviam sido usadas pelos crentes: “Eu repreendo isso ou aquilo” ou “Está amarrado em nome de Jesus”.


Novamente, o problema com esse ensino não é o seu caráter extrabíblico. A Escritura certamente fala, e muito, sobre o conflito entre Deus (e seus filhos) e as hostes do mal, como na conhecida passagem de Efésios 6.10-20. O problema está em certas implicações ou conclusões, nem sempre fundamentadas de modo claro nas Escrituras, mas derivadas da imaginação fértil dos autores. Alguns exemplos: demônios territoriais, cristãos possuídos pelo demônio, demônios com nomes fantasiosos, demônios coloridos ou mal-cheirosos e assim por diante. Nada disso é apoiado pelas Escrituras.


Outra tendência preocupante é relacionar todo problema ou pecado com algum demônio. Se a pessoa é preguiçosa, está possuída ou influenciada pelo demônio da preguiça; se é ansiosa ou depressiva, está sob a influência do demônio da depressão. Daí a preocupação em expulsar ou em amarrar demônios a torto e a direto. Esses ensinos, que muitas vezes não passam de meras opiniões, deixam de levar em conta o ensino bíblico de que vivemos em um mundo decaído, que sofre as conseqüências do pecado e do juízo de Deus contra o mesmo. Nem todo “mal” vem do demônio: há males que decorrem das nossas limitações, das circunstâncias do mundo (catástrofes naturais, por exemplo, que atingem tanto crentes quanto descrentes) e o próprio Deus pode enviar males com propósitos de juízo ou de disciplina (Is 45.7; Hb 12.4-13).


A preocupação desmedida com as forças malignas não reflete o ensino equilibrado das Escrituras, cria temores desnecessários nas pessoas e pode ser um instrumento de manipulação emocional. Por outro lado, pode minimizar a responsabilidade individual ou coletiva por muitos pecados e erros: é mais fácil justificar certas coisas atribuindo-as à ação do inimigo. A obsessão pelo diabo também pode obscurecer a glória de Deus. Ainda que o maligno seja poderoso, ele não é todo-poderoso, como às vezes se imagina. Somente Deus é o Senhor supremo de todas as coisas. O próprio demônio está debaixo da sua autoridade.


Certamente, não devemos subestimar as forças espirituais do mal. O Senhor mesmo nos ensinou a orar: “Livra-nos do mal”. Mas nessa luta temos de usar as armas oferecidas pelo próprio Deus e não os artifícios humanos e as práticas supersticiosas que têm sido apregoados por tantos.


(d) Maldição hereditária: essa é outra área de sérias distorções. Toma-se um texto isolado como Êxodo 20.5, onde Deus afirma que castiga a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta gerações, e se constrói toda uma doutrina a partir daí, uma doutrina que nunca foi ensinada por Cristo e pelos apóstolos. Para a libertação ou quebra da maldição seria necessário fazer uma árvore genealógica da família, identificar as pragas, maldições, pecados e pactos com demônios feitos pelos antepassados e anulá-los, quebrando-os e rejeitando-os em nome de Jesus Cristo.


Porém, qual é o ensino mais amplo das Escrituras sobre o assunto? Se é verdade que os pecados de uma geração podem ter sérias conseqüências para os seus descendentes, existem outras passagens sobre o assunto que devem ser levadas em consideração. É o caso de Ezequiel 18, em que Deus mostra que a responsabilidade moral é pessoal e individual: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai...” (vv. 4b, 20). Pela conversão e retidão de vida, o indivíduo está livre da “maldição” dos pecados de seus antepassados (vv. 14-19). O segundo mandamento (Êxodo 20.5) prevê a visitação do juízo divino sobre os descendentes de ímpios que também aborrecem a Deus como seus pais. Além disso, o Novo Testamento nos ensina que Cristo resgatou os crentes da maldição da lei (Cl 2.13-15; Gl 3.13) e que nenhuma condenação resta para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1).


Isso nos leva a um outro ponto importante, que é a tendência de muitos neopentecostais de tirarem conclusões apressadas de passagens do Antigo Testamento, sem procurar entendê-las à luz da revelação mais plena de Deus em Jesus Cristo e no Novo Testamento. É preciso lembrar sempre que o Novo Testamento é a chave para a interpretação do Antigo. Como Jesus disse: “Ouvistes que foi dito aos antigos... eu, porém, vos digo...”.


(e) Exorcismos: a maneira como a expulsão de demônios é praticada em muitas igrejas ou mesmo em programas de televisão soa muito estranha à luz do ensino bíblico sobre a matéria. Jesus ocasionalmente expulsou demônios e o mesmo fizeram os apóstolos. Em igrejas como a IURD e outras, os exorcismos são parte regular dos cultos, recebendo uma ênfase totalmente desproporcional à sua importância. Novamente repete-se o mesmo padrão: toma-se um ensino ou elemento bíblico e dá-se a ele uma ênfase muito maior do que a encontrada nas próprias Escrituras.


Não raro, as sessões de exorcismo transformam-se em verdadeiros shows cheios de teatralidade, com a finalidade de impressionar o auditório. Os exorcistas dialogam com o “demônio”, brincam com ele e submetem a pessoa possessa a grandes humilhações, expondo o seu sofrimento diante de todos. Curiosamente, a maior parte das pessoas possessas pertence ao sexo feminino, como se as mulheres fossem mais pecadoras ou mais frágeis espiritualmente que os homens.


(f) Profecias: outra prática comum de certos grupos neopentecostais são as profecias, supostamente recebidas mediante revelações. Com freqüência, tais profecias expressam meros desejos ou expectativas do “profeta” em relação a uma pessoa ou grupo, mas são proferidas em tom dogmático, como se fossem tão inspiradas quanto a Bíblia. Muitas vezes, as profecias não se cumprem, os seja, são falsas profecias, o que faz de seus anunciadores falsos profetas, mas ninguém se lembra de pedir desculpas, de reconhecer que errou, que não estava falando a palavra do Senhor.


Em seu livro Evangélicos em crise, Paulo Romeiro cita uma profecia feita por Benny Hinn no dia 16 de março de 1994, quando falava na Igreja Renascer, em São Paulo.[26] Ele começou, dizendo: “O Deus Todo-Poderoso está me dizendo que esta cidade de São Paulo vai se dobrar ao nome de Jesus”. A seguir, ele afirmou que brevemente ocorreria a destruição dos poderes satânicos que controlavam a cidade e que dentro de seis meses a atmosfera espiritual de São Paulo iria começar a mudar. Como prova disso uma mulher muito conhecida, que estava enfeitiçando milhares de pessoas, iria morrer. Líderes políticos nasceriam de novo. Dentro de dois anos (1996), os crentes iriam dizer: “Deus tem feito grandes coisas”. Por fim, ele afirmou que Deus iria usar Estevam Hernandes para ser uma influência poderosa sobre os líderes políticos do Brasil, e concluiu: “Marquem minhas palavras. Não é Benny Hinn quem está falando. Assim diz o Senhor!”


Uma área em que as profecias continuam se multiplicando, apesar dos repetidos malogros de predições anteriores, diz respeito à data da volta de Cristo. Isso ocorreu de modo especial ao aproximar-se o ano 2000. Paulo Romeiro também narra as afirmações feitas pela conhecida pastora Valnice Milhomens no programa “Palavra da Fé”, transmitido em 1990 pela Rede Bandeirantes.[27] Ela afirmou inicialmente: “Deus reservou para nossa geração a plenitude de todas as coisas... Esta é a geração que verá cada palavra que está escrita na profecia vindo ao seu cumprimento. Nos próximos dez anos haverá mais profecias se cumprindo do que em todos os anos passados”. A seguir, apelando para várias revelações e fazendo uma série de cálculos aritméticos, ela concluiu que tudo se cumprirá na presente geração (40 anos), que começou em 1967 e terminará no ano 2007.


(g) Questões éticas: outra área que tem gerado preocupação quanto a algumas igrejas e líderes neopentecostais refere-se ao aspecto ético. É claro que todo e qualquer cristão está sujeito a cair, a cometer erros de maior ou menor gravidade. Todavia, certas práticas são difíceis de justificar à luz dos padrões bíblicos. Alguns exemplos: (1) Área financeira: existem igrejas e ministérios que não são transparentes quanto à maneira como recolhem e gastam as contribuições dos fiéis. Há alguns anos atrás, nos Estados Unidos, houve alguns casos notórios de desonestidade que resultaram até na prisão de um conhecido líder carismático, Jim Baker. Um caso famoso de chantagem na área financeira foi protagonizado pelo conhecido evangelista Oral Roberts. Será que no Brasil seria diferente? As práticas da IURD e o estilo de vida do casal Hernandes não têm contribuído para projetar uma boa imagem dos evangélicos junto à sociedade brasileira. (2) Área política: o crescente envolvimento dos neopentecostais com a política partidária não tem sido salutar para o testemunho evangélico em nosso país. Apesar do discurso de defesa dos interesses da comunidade evangélica ou da sociedade em geral, o que provavelmente está em vista é a defesa de agendas bem mais específicas e menos edificantes. Os precedentes nessa área não são nada animadores, como a troca de votos por concessões de rádio na época do presidente Sarney e a triste participação de evangélicos nas falcatruas do orçamento do Congresso, há alguns anos. (3) Área moral: o culto à personalidade que caracteriza certos movimentos e a noção de que não se pode tocar no “ungido do Senhor,” abre as portas para que certos líderes caiam em pecado e continuem a encontrar seguidores.



Conclusões




Muito mais poderia ser dito sobre o movimento neopentecostal. Estes são apenas alguns pontos salientes, que obviamente não esgotam o assunto. Por uma questão de justiça, é preciso reconhecer que há muitos pastores, crentes e igrejas neopentecostais que são íntegros, bem-intencionados e fiéis ao Senhor. Esses irmãos têm sido instrumentos para a conversão e transformação de vidas de milhares de brasileiros, muitos deles anteriormente escravizados pelos vícios, vivendo em miséria e violência. Um número incontável de pessoas tem encontrado nas igrejas pentecostais e neopentecostais um ambiente de calor humano, dignidade e valorização pessoal que jamais haviam experimentado até então. As igrejas neopentecostais têm trabalhado entre grupos não alcançados pelas igrejas tradicionais: de um lado, favelados, viciados, aidéticos, presidiários e outras pessoas marginalizadas; de outro lado, atletas, artistas e outros grupos mais elevados na escala social. Todavia, por mais que admiremos estes elementos positivos e sejamos gratos a Deus por eles, não podemos fechar os olhos para os aspectos preocupantes apontados anteriormente.


Há 250 anos viveu nos Estados Unidos o notável servo de Deus que foi Jonathan Edwards (1703-1758).[28] Um legítimo descendente dos puritanos, esse pastor e teólogo calvinista foi um dos instrumentos do Grande Despertamento ocorrido nas décadas de 1730 e 1740. Edwards foi um atento observador e crítico desse grande reavivamento, deixando suas impressões nos diversos livros que escreveu sobre o assunto. Ele constatou que o avivamento tinha aspectos positivos e negativos. De um lado, conversões, consagração de vidas, mudanças nos relacionamentos, atuação social; de outro lado, emocionalismo exacerbado, superficialidade, manipulação por pregadores inescrupulosos, atração por fenômenos espetaculares. Ele mesmo e a sua esposa tiveram experiências que consideraríamos incomuns. Sua conclusão geral sobre o assunto é que existem certos sinais, evidências ou frutos visíveis que demonstram se uma determinada experiência religiosa é genuína ou não: convicção de pecado, seriedade nas coisas espirituais, preocupação com a glória de Deus, apego às Escrituras, mudança no comportamento ético, relações pessoais transformadas e influência regeneradora na comunidade.


Portanto, o que se espera de nós, crentes presbiterianos, herdeiros da tradição reformada, diante do desafio do neopentecostalismo, é uma posição de equilíbrio e coerência, procurando aprender com o que as novas igrejas têm de positivo e saudável, mas rejeitando firmemente, com base nas Escrituras e na fé cristã histórica, os desvios, os exageros, as distorções humanas.



Algumas recomendações práticas:


a)      Procuremos ler bons livros sobre o assunto, principalmente aqueles escritos de uma perspectiva reformada.[29] Infelizmente, existe muita coisa ruim nas nossas livrarias evangélicas.


b)      Sejamos como os crentes bereanos (Atos 17.11), julgando todas as coisas e retendo o que é bom (1 Ts 5.21).


c)      Observemos o conselho de Paulo, seguindo a verdade em amor (Ef 4.15) e crescendo em tudo (inclusive na maturidade e discernimento) naquele que é o cabeça, Cristo.


d)      Sejamos estudantes sérios e criteriosos das Escrituras, dos nossos padrões doutrinários e da história da igreja.


Por Alderi Sousa de Matos

Publicado Originalmente no Mackenzie
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[1] Ver o estudo da Comissão Permanente de Doutrina da IPB. Igreja Universal do Reino de Deus: sua teologia e sua prática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 20-21.


[2] Ver Alderi S. Matos. Edward Irving: precursor do movimento carismático na igreja reformada. Fides Reformata 1:2 (Jul-Dez 1996), p. 5-12.


[3] Ver o estudo de Émile-G. Léonard, O iluminismo num protestantismo de constituição recente (São Paulo: Programa Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, 1988). Para o professor Léonard, “iluminismo” significa misticismo, iluminação interior.


[4] Para as origens teológicas e históricas do pentecostalismo norte-americano, ver Donald W. Dayton, Theological roots of Pentecostalism. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1987.


[5] Paul Freston. Breve história do pentecostalismo brasileiro. Em: Alberto Antoniazzi e outros. Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 70-71.


[6] Fazendo um levantamento do protestantismo brasileiro em 1931, Erasmo Braga curiosamente menciona apenas de passagem as igrejas pentecostais. Todavia, os dados estatísticos que aduz ao final do livro mostram que a Assembléia de Deus já despontava como uma das principais denominações presentes no país. Erasmo Braga e Kenneth G. Grubb. The Republic of Brazil: a survey of the religious situation. Londres: World Dominion Press, 1932, pp. 69, 101s, 141.


[7] Freston faz uma observação interessante sobre a Assembléia de Deus: no período em questão (1910-1950), ela tornou-se a igreja protestante nacional por excelência, sendo a única grande igreja evangélica a implantar-se e irradiar-se fora do eixo Rio-São Paulo. “Breve História”, p. 70-71.


[8] Escrevendo em 1952, o professor Émile-G. Léonard opinava haver nas Congregações Cristãs “uma profunda fraqueza, que faz com que não as possamos considerar absolutamente protestantes” – o limitado papel reservado à Bíblia. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 2ª ed. São Paulo: JUERP/ASTE, 1981, p. 350.


[9] Freston, “Breve História”, p. 72.


[10] Duncan Alexander Reily. História documental do protestantismo no Brasil. 2ª impr. rev. São Paulo: ASTE, 1993, p. 388-391.


[11] Ibid., 376-378; Freston, “Breve História”, p. 124-25. Freston opina que a filiação foi um “casamento de conveniências”. O CMI precisava de pentecostais e Manoel de Mello, embora discordasse da teologia do CMI, queria publicidade e auxílio para projetos sociais.


[12] Reily, História Documental, p. 378-79.


[13] A Igreja Deus é Amor até hoje não utiliza a televisão, mas é proprietária de uma rede de emissoras de rádio e transmite os seus programas para toda a América Latina. Ver Leonildo S. Campos, O milagre no ar: levantamento de técnicas persuasivas num programa radiofônico em São Paulo. Simpósio – Revista Teológica da ASTE 5/2 (dezembro de 1982).


[14] Freston, “Breve História”, p. 71.


[15] Nesse sentido, designa aqueles grupos pentecostais que surgiram fora das grandes denominações brasileiras, pentecostais ou protestantes, fundados e liderados por empreendedores religiosos que preferiram estabelecer-se por conta própria, sem vínculos, inclusive, com missões estrangeiras. Ver Leonildo Silveira Campos, Teatro, templo e mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis e São Paulo: Vozes/Simpósio/UMESP, 1997, p. 18.


[16] Leonildo Silveira Campos, “Protestantismo Histórico e Pentecostalismo no Brasil: Aproximações e Conflitos,” em Na Força do Espírito: Os Pentecostais na América Latina – Um Desafio às Igrejas Históricas (São Paulo: Pendão Real, 1996), 84.


[17] Freston, “Breve História”, p. 132-33.


[18] Ver Charismatic movement, em Stanley M. Burgess e Gary B. McGee (orgs.). Dictionary of Pentecostal and Charismatic movements. Grand Rapids: Zondervan, 1988, p. 130.


[19] Sobre a relação entre a IURD e a teologia da prosperidade, ver Freston, “Breve História”, p. 146-153.


[20] Freston, “Breve História”, 153-56. Para uma análise completa da IURD em toda a sua complexidade, ver a obra de Leonildo S. Campos, Teatro, Templo e Mercado. Campos é professor da Universidade Metodista de São Paulo, no programa de Ciências da Religião.


[21] A revista Veja publicou uma entrevista com o bispo Von Helde na sua edição de 1º de novembro de 1995, p. 50-53. O episódio do “chute na santa” exacerbou ainda mais uma confrontação entre a IURD e a Rede Globo que vinha ocorrendo há vários meses.


[22] Revista Veja, 20 de janeiro de 1999.


[23] Por “pentecostalismo autônomo” são designadas as denominações dissidentes do pentecostalismo clássico (oriundo dos Estados Unidos) e/ou formadas em torno de lideranças fortes.


[24] Ver Hank Hanegraaff. Christianity in crisis. Eugene, Oregon: Harvest House Publishers, 1993, p. 61-102.


[25] Sobre esse tema, ver o excelente estudo do Dr. Augustus Nicodemus Lopes. O que você precisa saber sobre batalha espiritual. 2ª ed. revisada e ampliada. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998.


[26] Paulo Romeiro. Evangélicos em crise: decadência doutrinária na igreja brasileira. 3ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1997, p. 88-89.


[27] Ibid., p. 183-84.


[28] Ver Alderi S. Matos. Jonathan Edwards: teólogo do coração e do intelecto. Fides Reformata 3/1 (Jan-Jun 1998), p. 72-87.


[29] Por exemplo, John F. MacArthur, Jr. Os carismáticos: um panorama doutrinário. 3ª ed. São José dos Campos: Editora Fiel, 1995.

domingo, 9 de outubro de 2011

DIZENDO ADEUS

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 31)


TEXTO BASE: Atos 20:1-21:17

Cada uma das três pessoas da Trindade tem uma participação na supervisão da Igreja. Para começar, a Igreja é a Igreja de Deus. Em seguida, lemos que ele a comprou com o seu próprio sangue – o sangue de Cristo. E sobre essa Igreja o Espírito Santo constituiu supervisores. Essa esplêndida afirmação trinitária deveria fazer-nos humildemente recordar que a Igreja não é nossa, mas de Deus. Isto deveria inspirar-nos a sermos mais fiéis. As pessoas da Igreja são as ovelhas de Deus Pai, compradas pelo precioso sangue de Jesus e supervisionadas por supervisores constituídos pelo Espírito Santo. Se as três pessoas da Trindade estão assim dedicadas ao bem-estar de seu povo, não deveríamos também estar?
"Mas eu não dou valor à minha própria vida. O importante é que eu complete a minha missão e termine o trabalho que o Senhor Jesus me deu para fazer. E a missão é esta: anunciar a boa notícia da graça de Deus. " Atos 20:24

A aula foi extraída do guia de estudos bíblicos: O Espírito em ação – John Stott

domingo, 25 de setembro de 2011

ERA DAS MISSÕES

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 30)


TEXTO BASE: Mateus28:18-20

INTRODUÇÃO
Por muito tempo as igrejas protestantes ficaram focadas com os desafios e os novos rumos da Europa. Missões não era o foco da Igreja, e muito do trabalho evangelístico realizado até então não era intencional, como por exemplo, os imigrantes oriundos de países protestantes, que ao desbravar e explorar suas colônias (nas Américas, África e Ásia), comunicava a sua fé através da cultura que apresentavam ou impunham aos moradores locais.

Nesta lição vamos estudar como esse espírito começou a mudar na Igreja Protestante, e o que ocorreu para que uma preocupação com a urgência na evangelização de povos não alcançados pelo evangelho sobreviesse sobre as igrejas, proliferando assim as agências e sociedades missionárias para cumprir essa tarefa dada por Jesus aos seus discípulos.

MISSÕES MORÁVIA
por Alderi de Souza Matos

Com o seu zelo por Cristo, os irmãos morávios escreveram uma das páginas mais nobres das missões cristãs em todos os tempos. Nenhum grupo protestante teve maior consciência do dever missionário e nenhum demonstrou tamanha consagração a esse serviço em proporção ao número de seus membros. Seu grande líder inicial e incentivador na obra missionária foi o piedoso conde alemão Nikolaus Ludwig Von Zinzendorf (1700-1760).

Numa viagem a Copenhague para assistir a coroação do rei dinamarquês Cristiano VI, o conde Zinzendorf conheceu alguns nativos das Índias Ocidentais e da Groenlândia. Regressou a Herrnhut, na Saxônia, a sede do movimento, cheio de fervor missionário e, em conseqüência disso, dois obreiros, Leonhard Dober e David Nitschmann, iniciaram uma missão aos escravos africanos em Saint Thomas, nas Ilhas Virgens, em 1732. Christian David e outros missionários foram para a Groenlândia no ano seguinte.

Em 1734, um grupo liderado por August Gottlieb Spangenberg (1704-1792) começou a trabalhar na Geórgia, no sul dos futuros Estados Unidos. No Natal de 1741, o próprio Zinzendorf visitou a América e deu o nome de Bethlehem (Belém) à colônia que os morávios da Geórgia estavam criando mais ao norte, na Pensilvânia. Essa cidade se tornaria a sede americana do movimento. O mais famoso missionário morávio aos índios norte-americanos foi David Zeisberger (1721-1808), que trabalhou entre os creeks da Geórgia a partir de 1740 e entre os iroqueses desde 1743 até a sua morte.

Herrnhut, na Alemanha, tornou-se um vigoroso centro de atividade missionária, iniciando missões no Suriname, Costa do Ouro, África do Sul, Argélia, Guiana, Jamaica, Antigua e outros locais. Em 1748, foi iniciada uma missão aos judeus em Amsterdã. Até 1760, o ano da morte de Zinzendorf, os morávios haviam enviado 226 missionários a dez países e cerca de 3.000 mil conversos tinham sido batizados. Outros locais alcançados posteriormente foram o Egito, Labrador, Espanha, Ceilão, Romênia e Constantinopla.

Em 1832, havia 42 estações missionárias morávias ao redor do mundo. Os nomes dos primeiros campos missionários mostram uma característica do trabalho morávio: em geral eram locais difíceis e inóspitos, exigindo uma paciência e dedicação toda especial, traço que até hoje caracteriza o trabalho missionário desse grupo.

Uma reunião de oração excepcional
O renascimento da igreja morávia, em maio de 1727, havia resultado em grande parte de uma forte ênfase na oração. Nos meses seguintes, um espírito de oração tomou conta da pequena comunidade evangélica. No dia 27 de agosto daquele ano, 24 homens e 24 mulheres comprometeram-se a orar uma hora por dia de forma seqüencial, de modo que sempre houve alguém orando por missões.

Essa “vigília de oração” sensibilizou Zinzendorf e a comunidade morávia a tentarem alcançar outros para Cristo. Seis meses após o início da vigília, o conde desafiou os companheiros a evangelizarem as Índias Ocidentais, a Groenlândia, a Turquia e a Lapônia. No dia seguinte, 26 morávios se ofereceram como voluntários para as missões mundiais, aonde quer que Deus quisesse levá-los.

A vigília de oração prosseguiu sem interrupção, vinte e quatro horas por dia, durante mais de 100 anos. Em 1792, sessenta e cinco anos após o início da vigília, a pequena comunidade morávia havia enviado 300 missionários até os confins da terra.

A teoria de missões de Zinzendorf
Zinzendorf estabeleceu alguns princípios que deveriam nortear a atividade missionária dos morávios. Eles são os seguintes:

·         Busquem os primeiros frutos. Zinzendorf dizia aos voluntários que partiam de Herrnhut: “Não tenham como alvo a conversão de nações inteiras. Simplesmente procurem pessoas interessadas pela verdade, que, como o eunuco etíope, pareçam prontas para abraçar o evangelho” (ver Atos 8.27-28). Assim, os missionários morávios não saíam para o campo com expectativas exageradas. Isso os capacitava a enfrentar muitas situações em que os frutos surgiam lentamente, mas também lhes proporcionava profunda alegria quando grandes números de pessoas estavam prontas para abraçar a Cristo. Associada a isso estava a sua dependência do Espírito Santo, que, como o verdadeiro evangelista, os conduziria a almas como Cornélio ou o eunuco.
·         Preguem a Cristo. “Em segundo lugar”, instruía Zinzendorf, “vocês devem ser objetivos e falar-lhes sobre a vida e a morte de Cristo”. Alguns missionários haviam ido para culturas pagãs e tinham tentado em vão ensinar teologia ou começar com verdades sobre Deus. Zinzendorf partia do pressuposto de que os pagãos já sabiam sobre Deus, mas precisavam conhecer sobre o Salvador, especialmente seus sofrimentos sobre a cruz.
·         Vão para os povos esquecidos. As primeiras pessoas buscadas pelos morávios foram os escravos negros. Nos anos seguintes eles foram para os leprosos, os esquimós, os índios, os africanos, e parecem ter sido os primeiros a buscarem sistematicamente a conversão dos judeus.
·         Pelo reino de Cristo. Os morávios têm buscado aumentar o reino de Cristo, e não a sua própria expansão denominacional. Inúmeras sociedades de cristãos zelosos das igrejas tradicionais da Europa e da Inglaterra oraram, contribuíram e forneceram voluntários para a causa missionária mundial dos morávios no século 18.
·         Sejam auto-sustentados. Hutton observou que, na missão das Índias Ocidentais, “por mais de cem anos ninguém recebeu um centavo da Igreja Morávia por seus serviços; cada um... primeiro tinha de ganhar o seu próprio sustento”. Essa política era seguida em toda parte. Na década de 1750, uma carta do Suriname dizia: “O irmão Kam está colhendo café; o irmão Wenzel conserta sapatos; o irmão Schmidt está fazendo uma roupa para um freguês”.

Com seu heroísmo, apego às Escrituras e consagração a Deus, os irmãos morávios, embora pouco numerosos, exerceram uma forte influência espiritual sobre outros grupos e movimentos protestantes, especialmente na Inglaterra.

A convivência com alguns morávios causou profundo impacto em João Wesley e contribuiu para a sua conversão e o surgimento do metodismo. William Carey, o pioneiro das missões batistas, os admirava grandemente e apelou para o seu exemplo de obediência. Eles também inspiraram a criação de duas das primeiras agências protestantes de missões – a Sociedade Missionária de Londres (1795) e a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (1804).

WILLIAM CAREY, O PAI DAS MISSÕES MODERNAS
por Marcos Granconato

Durante certo tempo, William Carey acumulou as funções de pastor, professor de tempo parcial e sapateiro na sua pequena aldeia. Na verdade, desde a juventude ele atuara como pregador leigo, mas só em 1785 recebeu o convite para ser pastor em uma pequena igreja batista. Mais tarde, foi chamado para pastorear uma igreja maior em Leicester, mas mesmo assim ainda precisava trabalhar em outras atividades para sustentar a família.

Como pastor, Carey revelava uma preocupação muito grande com o estudo. Quem chegasse em sua humilde casa, caracterizada pelas lindas flores que ele mesmo cultivava, sempre o encontraria com um livro. Foi durante seus anos de pastorado, marcados especialmente pela leitura, que Carey passou a desenvolver sua visão missionária, concluindo, para surpresa da igreja e dos ministros cristãos de seus dias, que a evangelização do mundo era a principal responsabilidade da noiva de Cristo.

Uma das dificuldades que William Carey teve de enfrentar para incutir a necessidade do envio de missionários às nações pagãs foi o hipercalvinismo reinante em seus dias, segundo o qual a conversão dos pagãos ocorreria, caso o Senhor quisesse, sem o auxílio de quem quer que fosse.

Foi para quebrar essa mentalidade que o pai das missões modernas escreveu um tratado intitulado Uma investigação sobre o dever dos cristãos de empregarem meios para a conversão dos pagãos" (1792). Tratava-se de uma exposição e análise do mundo de seus dias que refletia a necessidade urgente da pregação do Evangelho às nações de todos os continentes. Nesse tratado, Carey também expõe argumentos lógicos e teológicos apresentando-os como fundamentos para o envio de missionários aos pagãos, frisando especialmente que o Reino de Cristo tem de ser proclamado a toda a terra.

Num sermão sobre Isaías 54.2-3, dirigido a um grupo de pastores batistas em Nottingham, no dia 31 de maio de 1792, Carey reforçou os apelos constantes da sua Investigação e pronunciou a frase que se tornou célebre como a filosofia de trabalho do grande missionário: "Realizar grandes coisas para Deus; esperar grandes coisas de Deus".

A força dos argumentos de Carey e o vigor do seu entusiasmo resultaram na formação da Sociedade Missionária Batista, organizada em setembro de 1792. Menos de um ano depois, em junho de 1793, ele e sua família partiram para a Índia como membro da referida sociedade. Carey chegou em Hooghly no dia 11 de novembro de 1793, marcando o início da grande era das missões além mar, promovidas pela Inglaterra e Estados Unidos.

Dois missionários se juntaram à William Carey em 1799, William Ward e Joshua Marshman. Juntos eles fundaram 26 igrejas, 126 escolas com 10.000 alunos, traduziram as Escrituras em 44 línguas, produziram gramáticas e dicionários, organizaram a primeira missão médica na Índia, seminários, escola para meninas, e o jornal na língua Bengali. Além disso, William Carey foi responsável pela erradicação do costume "suttee", o qual queimava a viúva juntamente com o corpo do defunto numa fogueira; fundação da Sociedade de Agricultura e Horticultura na Índia em 1820; primeira imprensa, a tradução da Bíblia em Sânscrito, Bengali, Marati, Telegu e nos idiomas dos Siques.

 Em 1800, William Carey fez o batismo do primeiro hindu convertido ao Evangelho. Durante mais de trinta anos, William Carey foi professor de línguas orientais no Colégio de Fort Williams. Fundou, também, o Serampore College para ensinar os obreiros. Sob a sua direção, o colégio prosperou, preenchendo um grande vácuo na evangelização do país. Os seus esforços inspiraram a fundação de outras missões, dentre elas: a Associação Missionária de Londres, em 1795; a Associação Missionária da Holanda, em 1797; a Associação Missionária Americana, em 1810; e a União Missionária Batista Americana, em 1814.

Para conhecer mais da vida e obra de William Carey, visite < http://www.williamcarey.co.uk >.


ASHBEL GREEN SIMONTON, UM PIONEIRO DO EVANGELHO NO BRASIL
por Dom Robinson Cavalcanti

Embora as igrejas protestantes de imigrantes (anglicanas e luteranas) já estivessem estabelecidas no Brasil durante os períodos do Reino Unido e do Primeiro Reinado, é na segunda metade do século XIX (Segundo Reinado e Primeira República) que aportaram aqui os pioneiros do protestantismo de missão aos brasileiros, e em língua portuguesa, são eles:

1.    Igreja Congregacional: Rev. Robert Reid Kalley – 1855;
2.    Igreja Presbiteriana: Rev. Ashbel Green Simonton – 1859;
3.    Igreja Metodista: Rev. Junius E. Newman – 1867;
4.    Igreja Batista: Reverendos William Buck Bagby e Zacarias Clay Taylor;
5.    Igreja Episcopal (Anglicana): Reverendos Lucien Lee Kinsolving (primeiro bispo) e James Watson Morris – 1890.

Esses cinco ramos reformados foram os únicos entre 1855 e 1909, conseguindo se expandir nacionalmente, sob as restrições legais da Constituição Imperial, de 1824, e sob a severa perseguição social durante o período republicano (após 1889).

Simonton destacou-se por organizar o primeiro jornal protestante da América do Sul (1864), a primeira escola paroquial (1866), o primeiro seminário (1867) e ordenou o primeiro pastor brasileiro (1865). Ele desembarcou no Rio de Janeiro em 1859 e morreu de febre amarela em São Paulo, aos 34 anos, em 1867. Uma vida breve, que mudou a história”.

Para conhecer mais a história da evangelização do Brasil, consulte o livro: História da Evangelização do Brasil, Elben Lenz César. Editora Ultimato.

APLICAÇÃO
A evangelização do mundo é uma missão dada por Jesus aos seus discípulos. Todo cristão está encarregado do compromisso de comunicar o evangelho com o seu próximo e sinalizar o reino de Deus em sua cultura, e a Igreja de Jesus está incumbida de anunciar as boas novas do evangelho de Jesus aos confins da terra. Isso significa que de alguma forma nós temos responsabilidade nessa nobre tarefa, seja contribuindo com aqueles que irão fazer essa obra, ou seja, se voluntariando para a obra missionária.

A aula de hoje nos mostra como comunidades e homens de Deus foram usados para a proclamação e promoção do reino de Deus em lugares distantes e até então inalcançados. Dentre esses lugares, encontra-se a nossa terra amada Brasil. Nós somos fruto do esforço e obediência de homens e mulheres que ofertaram sua vida para que o evangelho chegasse até nós. Hoje, com uma igreja nacional desenvolvida, nos cabe a responsabilidade de pensar, sonhar, orar, investir e se voluntariar nessa grande comissão dada a nós pelo próprio Senhor Jesus Cristo, missão essa que vai passando de povo a povo, como numa corrida de bastão, na qual o precioso tesouro que carregamos é as boas novas do reino de Deus.

MEMORIZAR VERSÍCULO
Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.Mateus 28:19-20


QUESTÕES
Quais princípios deveriam nortear a atividade missionária dos moravianos? Você concorda com eles?
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Como William Carey enfrentou a oposição da sua geração a obra missionária?
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Através da breve apresentação biográfica de Carey, como você percebe que ele enxergava a obra missionária?
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Simonton foi um dos missionários pioneiros na evangelização do Brasil. Você sabe quais foram os desafios enfrentados por ele?
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MATERIAL UTILIZADO
·      Cairns, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos, São Paulo 2008. Editora Vida Nova.
·    Até aos confins da terra: as missões morávias, por Alderi de Souza Matos. Universidade Mackenzie < http://www.mackenzie.br/6979.html>
·    William Carey: a vida e a obra do pai das missões modernas. Marcos Granconato. Igreja Batista da Redenção < http://www.igrejaredencao.org.br/ibr>
·  Dom Robinson Cavalcanti. Simonton: um pioneiro do Evangelho. Editora Ultimato < http://www.ultimato.com.br >
·      Williams, Terri. Cronologia da História Eclesiástica, São Paulo 1993. Edições Vida Nova.

domingo, 11 de setembro de 2011

ESTRATÉGIA DE BOAS NOVAS

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 29)


TEXTO BASE: Atos 18-19

Quando contrastamos cuidadosamente o evangelismo contemporâneo com o de Paulo, a superficialidade logo aparece. Nossa evangelização tende a se concentrar simplesmente em convidar pessoas para a igreja. Paulo também saiu levando a mensagem para o mundo secular. Nossa evangelização apela para as emoções em busca de decisão sem a adequada base de entendimento. Paulo ensinou, arrazoou e tentou persuadir. Nosso evangelismo é superficial, realizando encontros breves e esperando resultados rápidos. Paulo permaneceu em Corinto e Éfeso por cinco anos, espalhando fielmente a semente do evangelho e no tempo devido fazendo a colheita.

"Teve Paulo durante a noite uma visão em que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade" Atos 18:9-10

A aula foi extraída do guia de estudos bíblicos: O Espírito em ação – John Stott

domingo, 4 de setembro de 2011

DESDOBRAMENTOS DA REFORMA - PURITANISMO (História da Igreja VIII)

Aula preparada a partir do artigo Os puritanos: sua origem e história, por Alderi de Souza Matos. Universidade Mackenzie

A História do Cristianismo Através dos Séculos (aula 28)

TEXTO BASE: Romanos 12:1-2

INTRODUÇÃO
O puritanismo foi um movimento em prol da reforma completa da Igreja da Inglaterra que teve início no reinado de Elizabete I (1558) e continuou por mais de um século como uma grande força religiosa na Inglaterra e também nos Estados Unidos. “Uma versão militante da fé reformada” (Dewey D. Wallace, Jr.).
O termo puritanismo tem um sentido positivo original do termo “puritano” e outro sentido pejorativo atual (rigidez, moralismo, intolerância). A ênfase principal do movimento foi a preocupação com a pureza e integridade da igreja, do indivíduo e da sociedade.

CONTEXTO
O puritanismo é uma mentalidade ou atitude religiosa que começou cedo na história da Inglaterra. Desde o século 14, surgiu uma tradição de profundo apreço pelas Escrituras e questionamento de dogmas e práticas da igreja medieval com base nas mesmas.

Começou com o “pré-reformador” João Wycliffe e os seus seguidores, os lolardos, através da publicação da primeira Bíblia Inglesa completa em 1384, na época do “Grande Cisma”. Wycliffe afirmou a autoridade suprema das Escrituras, definiu a igreja verdadeira como o conjunto dos eleitos, questionou o papado e a transubstanciação.

O protestantismo inglês sofreu a influência de Lutero e especialmente da teologia reformada continental, a Reforma Suíça de Zurique (Zuínglio, Bullinger) e Genebra (Calvino, Beza). As ênfases foram: colocação da verdade antes da tradição e da autoridade; e insistência na liberdade de servir a Deus da maneira que se julgava mais acertada.

Alguns protestantes que se destacaram:

• William Tyndale (†1536) – compromisso com as Escrituras, ênfase na teologia do pacto. Tradutor da Bíblia - NT (1525); cruelmente perseguido; estrangulado e queimado em Antuérpia, na Bélgica.

• John Hooper (†1555) – as Escrituras devem regular a estrutura eclesiástica e o comportamento pessoal.

• John Knox (†1572) – reforma completa da igreja e do estado.

UM POUCO DE HISTÓRIA
(a) Henrique VIII (1509-1547) – criou a Igreja Anglicana, uma igreja nacional inglesa de orientação nitidamente católica. Em 1539, impôs os Seis Artigos, com severas punições para os transgressores (“o açoite sangrento de seis cordas”). Incluíam a transubstanciação, a comunhão em uma só espécie, o celibato clerical, votos de castidade para leigos, missas particulares, confissão auricular, etc.

Duas reações dos protestantes: conformação – por exemplo, o arcebispo Thomas Cranmer a princípio de opôs, mas depois se submeteu e separou-se da esposa; protesto – Miles Coverdale, John Hooper e outros, que tiveram de fugir do país e foram para a Suíça. Sob a influência continental, começaram a se opor ao cerimonialismo religioso.

(b) Eduardo VI (1547-1553) – nessa época, a influência dos partidários de uma reforma profunda da igreja inglesa se tornou mais forte. John Hooper dispôs-se a aceitar um bispado que lhe foi oferecido, mas não a ser investido no ofício do modo prescrito, com o uso das vestes litúrgicas. Acabou sendo lançado na prisão por algum tempo. Foi o primeiro a expor claramente o argumento acerca das vestes. Não eram coisas indiferentes, e sim resquícios do catolicismo. Começa a surgir uma nítida distinção entre anglicanismo e puritanismo.

(c) Maria I (1553-1558) – tentou restaurar a Igreja Católica na Inglaterra e perseguiu os líderes protestantes. Muitos foram executados – Hugh Latimer (†1555), Nicholas Ridley (†1555) e Thomas Cranmer (†1556) – mártires marianos. Outros fugiram para o continente (Genebra, Zurique, Frankfurt), entre eles John Knox e William Whittingham, o principal responsável pela Bíblia de Genebra. Nesse período surgiram em Londres as primeiras igrejas independentes.

(d) Elizabete I (1558-1603) – inicialmente esperançosos, os puritanos se decepcionaram amargamente. A rainha insistiu em controlar a igreja, manteve os bispos e as cerimônias. A mesma divisão anterior se manifestou entre os líderes imbuídos de convicções protestantes – alguns, como Matthew Parker, Richard Cox, Edmund Grindal e John Jewel, protestaram no início, mas acabaram acomodando-se ao status quo. Aceitaram bispados e outras posições eclesiásticas sob o argumento de que, se recusassem esses ofícios, Elizabete nomearia católicos romanos em lugar deles. Outros, como Thomas Sampson, Miles Coverdale, John Foxe e Lawrence Humphrey, desafiaram a rainha.

Os puritanos surgem com esse nome no contexto da “Controvérsia das Vestimentas” (1563-1567) – protesto contra vestimentas clericais (propunham o uso de togas genebrinas) e cerimônias como ajoelhar-se à Ceia do Senhor, dias santos e sinal da cruz no batismo. Nas décadas seguintes, intensificaram-se as medidas disciplinares da igreja e do estado contra os puritanos estritos (“não-conformistas”). Cristalizou-se o anglicanismo clássico, cujo principal teórico foi Richard Hooker, com sua obra Leis de Política Eclesiástica (1593). Em 1593 foi aprovado o rigoroso “Ato contra os Puritanos”.

(e) Tiago I (1603-1625) – esse rei havia recebido uma educação calvinista na Escócia, o que encheu de esperanças os puritanos. Eles lhe apresentaram a Petição Milenária, que foi totalmente rejeitada na Conferência de Hampton Court (1604). Alguns puritanos se desligaram inteiramente da Igreja da Inglaterra, entre eles um grupo que foi para a Holanda e depois para a América, fundando em 1620 a Colônia de Plymouth, em Massachusetts.

(f) Carlos I (1625-1649) – esse rei manteve a política de repressão contra os puritanos, o que levou um grupo não-separatista a ir para Massachusetts em 1630. No final do seu reinado, entrou em guerra contra os presbiterianos escoceses e contra os puritanos ingleses. Estes eram maioria no Parlamento e convocaram a Assembléia de Westminster (1643-49), que elaborou os famosos e influentes documentos da fé reformada.
Infelizmente, os puritanos não formavam um movimento coeso. Estavam divididos principalmente no que se refere à forma de governo da igreja. Existiam vários grupos: presbiterianos, congregacionais, episcopais, batistas. Alguns eram separatistas e outros não-separatistas, como os “independentes” (congregacionais moderados). A Guerra Civil terminou com a derrota e execução do rei.

(g) Oliver Cromwell – congregacional, líder das forças parlamentares que derrotaram o rei Carlos I. Tornou-se o “Lorde Protetor” da Inglaterra. Durante o Protetorado ou Comunidade Puritana (1649-1658), a Igreja da Inglaterra foi inicialmente presbiteriana e depois congregacional. Todavia, as rivalidades religiosas levaram ao restabelecimento da monarquia – a Restauração.

(h) Carlos II (1660-1685) - expulsou cerca de 2000 ministros puritanos da Igreja da Inglaterra. A Grande Expulsão (1662) marcou o fim do puritanismo anglicano. Embora perseguidos, sobreviveram como dissidentes (“dissenters”) fora da igreja estatal e eventualmente criaram igrejas batistas, congregacionais e presbiterianas.

(i) Tiago II (1685-1689) – tentou restaurar o catolicismo, mas foi derrotado pelo holandês Guilherme de Orange, esposo de sua filha Maria – a Revolução Gloriosa.

(j) Guilherme e Maria (1689-1702) – mediante um decreto, foi concedida tolerância aos “dissenters” (presbiterianos, congregacionais e batistas), cerca de um décimo da população. A essa altura, os melhores dias do puritanismo já haviam ficado para trás.

O puritanismo americano foi muito dinâmico e influente por pouco mais de um século, desde os primórdios na Nova Inglaterra (1620) até o Grande Despertamento (1740). Alguns nomes notáveis dessa tradição foram John Cotton, William Bradford, John Winthrop, John Eliot, Thomas Hooker, Cotton Mather e Jonathan Edwards.

Curiosidade 1
Herdeiros recentes da tradição puritana: Charles H. Spurgeon, D. M. Lloyd-Jones, J. I. Packer e James M. Boice.

Curiosidade 2
A Igreja Presbiteriana do Brasil adota a confissão de fé de Westminster.

O PERFIL PURITANO

O puritanismo influenciou a tradição reformada no culto, o governo eclesiástico, a teologia, a ética e a espiritualidade. Quatro convicções básicas os moviam: (1) a salvação pessoal vem inteiramente de Deus; (2) a Bíblia constitui o guia indispensável para a vida; (3) a igreja deve refletir o ensino expresso das Escrituras; (4) a sociedade é um todo unificado.

O sentido original do termo “puritano” apontava para a purificação da igreja. Os puritanos não estavam interessados somente na purificação do culto e do governo eclesiástico. Todo o corpo político também precisava de purificação. Apoiando-se em Martin Bucer e João Calvino, eles insistiram na criação de uma sociedade cristã disciplinada. Achavam que uma nação inteira podia fazer uma aliança com Deus para a realização desse ideal. Esperanças milenaristas e o exemplo do Israel bíblico os impeliram nessa direção.

Os pregadores-teólogos puritanos escreveram com detalhes sobre a maneira pela qual a graça de Deus poderia ser identificada na experiência humana, indo além de religiosidade formal e expressando-se numa transformação interior da morte no pecado para a vida em Cristo, com base na fé. Os diários e autobiografias dos puritanos revelam quão intensa essa luta podia ser e como se tornaram pessoais os grandes temas da teologia reformada.

Sem negligenciar a obra e o ser de Deus ou os grandes temas da eleição, vocação, justificação, adoção, santificação e glorificação, a ênfase dos teólogos puritanos na experiência religiosa e na piedade prática deu aos seus escritos um teor incomum entre os teólogos reformados de outras partes da Europa. Um bom exemplo disso é O Peregrino (1676), de John Bunyan.

A ênfase prática da teologia puritana levou-a a dar grande atenção à ética pessoal e social em casos de consciência, discussões sobre vocação e o relacionamento entre a família, a igreja e a comunidade no propósito redentor de Deus.

A reforma do culto e da prática religiosa popular, ouvindo e obedecendo a palavra de Deus, bem como a santificação do tempo convergiram no desenvolvimento do sabatarianismo, um dos legados mais duradouros da teologia puritana aplicada.

TEOLOGIA
Segundo William Ames, a teologia “é para nós a suprema e a mais nobre das disciplinas exatas. É um guia e plano-mestre para o nosso fim mais elevado, enviado por Deus de maneira especial, tratando das coisas divinas... Não existe preceito de verdade universal relevante para se viver bem em economia doméstica, moralidade, vida política e legislação que não pertença legitimamente à teologia” (A medula da teologia, 1623).

Os puritanos eram estritos defensores da teologia reformada, que inicialmente tinham em comum com a Igreja da Inglaterra (os Trinta e Nove Artigos ensinavam a doutrina reformada da Ceia do Senhor e afirmavam a predestinação). Depois que muitos anglicanos adotaram uma posição mais arminiana (1620), os puritanos defenderam vigorosamente o calvinismo devido à sua afirmação intransigente da graça imerecida de Deus.

Os puritanos escreveram uma enorme literatura sobre a vida espiritual, incluindo sermões, meditações, exposições bíblicas práticas, biografias e autobiografias. Essa literatura dava ênfase a temas como a experiência pessoal de conversão, a regeneração pelo Espírito Santo, a união mística da alma com Cristo, a busca de certeza da salvação e o crescimento em santidade de vida.

A maior expressão dessa “teologia afetiva” foi a alegoria de John Bunyan (†1688), O Peregrino, que retratou a vida cristã como peregrinação e luta espiritual.

PURITANOS NOTÁVEIS
William Perkins (1558-1602) – sua teologia foi o primeiro grande exemplo de uma síntese da teologia reformada aplicada à transformação da sociedade, igreja e indivíduos da Inglaterra elizabetana. Em sua obra mais famosa, Armilla Aurea (A corrente de ouro – 1590), ele expôs a tradição reformada em torno do tema da teologia como “a arte de viver bem”. Deu ênfase à majestade da ordem de Deus e sua implicações sociais e pessoais. Foi o primeiro teólogo elizabetano com uma reputação internacional. Também destacou-se extraordinariamente como pregador.

Richard Sibbes (1577-1635) – foi estudante e professor em Cambridge. Exemplificou a síntese entre profundidade bíblica e sensibilidade pastoral que caracterizou a teologia puritana no que tinha de melhor. Seus escritos são práticos antes que sistemáticos e mostram claramente porque as ênfases puritanas foram assimiladas tão plenamente pelos leigos. Escritos seus como A Porção do Cristão e A Exaltação de Cristo Comprada por sua Humilhação revelam não só uma rica soteriologia, mas profundas percepções sobre a criação e a encarnação.

Richard Baxter (1615-1691) – foi ordenado em 1638 e dois anos depois rejeitou o episcopalismo. De 1641 a 1660 foi ministro de uma paróquia em Kidderminster. Após a guerra civil, apoiou a Restauração e tornou-se capelão de Carlos II. Excluído da Igreja da Inglaterra após o Ato de Uniformidade (1662), continuou a pregar e foi encarcerado em 1685 e 1686. Tomou parte na deposição de Tiago II e deu as boas-vindas ao Ato de Tolerância de Guilherme e Maria. Suas obras incluem O Repouso Eterno dos Santos (1650) e O Pastor Reformado (1656).

John Owen (1616-1683) – ao lado de Baxter, o grande pensador sistemático da tradição teológica puritana. Educado em Oxford, enfrentou uma longa luta espiritual em busca da certeza de salvação, que terminou por volta de 1642. Dedicou seus formidáveis dotes intelectuais à causa parlamentar. Inicialmente presbiteriano, converteu-se à posição independente através da leitura de John Cotton. Fez uma vigorosa exposição do calvinismo clássico em Uma Exibição do Arminianismo (1643). Em A Morte da Morte na Morte de Cristo (1647) fez uma brilhante apresentação da doutrina da expiação limitada. Até o fim da vida trabalhou por uma igreja nacional mais abrangente e pela reconciliação dos dissidentes rivais.

John Bunyan (1628-1688) – após lutar na guerra civil, em 1653 filiou-se a uma igreja independente em Bedford. Um ou dois anos depois, começou a pregar com boa aceitação. Foi aprisionado de modo intermitente entre 1660 e 1672, o que lhe permitiu escrever sua obra-prima, O Progresso do Peregrino (1678), e outros escritos. Após 1672, dedicou-se à pregação e ao evangelismo em sua região. Outras obras famosas de sua lavra são A Guerra Santa (1682) e Graça Abundante para o Principal dos Pecadores (1666).

APLICAÇÃO
A contribuição do movimento puritano é enorme para o cristianismo, com ênfase na ética pessoal e social. E isso está de acordo com os ensinos das Escrituras, uma vez que o apóstolo Paulo nos lembra que o verdadeiro culto a Deus envolve a consagração de toda a nossa vida e desemboca nas tarefas ordinárias da vida. A fé cristã combate o pensamento dominante de um mundo secular e nos convoca ao desenvolvimento de uma cosmovisão cristã, na qual Deus está reconciliando consigo o mundo através de Cristo.

MEMORIZAR VERSÍCULO
Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês. Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Romanos 12:1-2
QUESTÕES
Quais as divergências dos puritanos com a igreja inglesa?
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Como os puritanos acreditavam que a fé cristã se relacionava com a sociedade e o mundo?
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Qual a relação do movimento puritano com a famosa Confissão de Fé de Westiminster?
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Quais as contribuições do movimento puritano para nós hoje?
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Qual a importância de ler e estudar a Bíblia para o desenvolvimento da sua fé?
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MATERIAL UTILIZADO
Os puritanos: sua origem e história, por Alderi de Souza Matos. Universidade Mackenzie